Geração IA: os desafios de pais e educadores com o avanço da tecnologia na infância
Geração IA: desafios de pais e educadores com a tecnologia na infância

Comportamento Geração IA: os desafios de pais e educadores com o avanço da tecnologia na infância

A questão central é achar um ponto de equilíbrio e, aí sim, os benefícios da interação homem (criança)-máquina podem ser extraordinários. Por Paula Freitas e Ricardo Ferraz, 22 de maio de 2026.

A inteligência artificial (IA) já integra a vida das crianças desde o berço, levantando a crucial questão do seu impacto na identidade e desenvolvimento. O artigo explora os dilemas e oportunidades da tecnologia na educação e no convívio familiar, alertando para os riscos do isolamento e a importância do equilíbrio para formar uma geração consciente.

A presença da IA desde o nascimento

Publicado em 1941, A Vida do Bebê, do pediatra Rinaldo Delamare, era até não muito tempo atrás a âncora na qual se prendiam as mães de primeira viagem brasileiras em busca de ajuda para lidar com dúvidas existenciais sobre a criação dos filhos. Isso até um fato novo chacoalhar um ecossistema que parecia imutável: o ingresso da inteligência artificial em todos os recantos da vida humana. A ferramenta digital, capaz de interagir com as pessoas de maneira jamais experimentada, vai acompanhar desde o dia 1 o crescimento de quem nasce justo neste momento em que uma revolução tecnológica sem precedentes se encontra em curso. Parece extraordinário, e é. Mas uma reflexão mais demorada e profunda levanta um desafio difícil de ser solucionado até pela máquina sempre pronta a esclarecer questões mais elaboradas: qual será o impacto da IA na constituição da identidade dos pequenos que ganham asas cercados de telas, robôs e serviços automatizados? A indagação inquieta cientistas, ávidos por explorar um campo com tanto a se descobrir, e, claro, os pais, esses iniciantes no assunto, a quem caberá guiar os caminhos das gerações que já vêm ao mundo com a IA no DNA — como diria o poeta, uma rima, mas não uma solução.

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A inteligência artificial hoje integra a vida das crianças antes mesmo de elas se darem conta da própria existência. Aplicativos disponíveis em qualquer celular monitoram o sono dos bebês, organizam horários de amamentação e até tentam decodificar — sem eficácia comprovada — o significado do choro, esse enigma inescrutável, com algoritmos que leem expressões faciais. Para os mais crescidinhos há games eletrônicos que se adaptam ao nível de habilidade do jogador, vídeos divertidos gerados com simples comando de voz e brinquedos que interagem com os donos que mal aprenderam a andar.

Diretrizes educacionais e o papel da escola

Ciente de que a convivência com os robôs já é inevitável desde a mais tenra idade, o Ministério da Educação (MEC) acaba de lançar uma série de diretrizes para a aplicação da tecnologia nas escolas brasileiras, seguindo os passos de potências educacionais como Singapura e China, onde aulas sobre o tema, veja só, já são obrigatórias no ensino básico. Esse primeiro roteiro do MEC procura, acima de tudo, garantir que as ferramentas digitais atuem em parceria com os professores para oferecer uma educação personalizada, em vez de serem utilizadas apenas para resolver exercícios. “É um dispositivo poderoso desde que usado para organizar pensamentos, explicar conteúdos e estimular a reflexão. Quando vira substituto do esforço, empobrece todo o processo”, explica o neuropsicólogo Igor Lemos.

A apreensão dos pais e educadores com a onipresença da inteligência artificial é parecida com as preocupações levantadas com a disseminação da TV, do celular, da internet e das redes sociais, com uma crucial diferença: a IA eleva à máxima potência a possibilidade de substituição do contato humano em fase tão decisiva da vida. As atraentes telas coloridas de tablets e celulares (desaconselhados até os 5 anos pela Organização Mundial da Saúde), movimentadas por dedinhos cada vez mais habilidosos, favorecem o isolamento e a renúncia à convivência em ambientes fartos em situações fundamentais para firmar vínculos e promover mudanças no cérebro que vão sustentar raciocínios complexos no futuro. “A confiança, o apego e o aprendizado emergem justamente na imprevisibilidade do contato humano”, afirma Meghan Puglia, à frente do laboratório de análise do desenvolvimento e psicologia da Universidade de Virgínia, nos EUA.

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Impactos no desenvolvimento cerebral

Como folhas em branco, os cérebros não nascem prontos, mas são construídos, principalmente por tentativa e erro diante de estímulos externos que ora incentivam, ora inibem comportamentos. Conforme a criança vai crescendo, o processamento de informações deixa de ser meramente sensorial, instintivo, e entra no campo simbólico, com a introdução da linguagem e da imaginação. Esse desenvolvimento tem como palco o córtex pré-frontal, região responsável por tornar as pessoas mais reflexivas, capazes de entender contextos e as próprias emoções. É no tête-à-tête que essa área entra em atividade — ebulição que a constante presença da IA, se não bem administrada, pode frear. “Ao interferir em zonas do cérebro dedicadas à organização e ao planejamento, a inteligência artificial traz o risco de levar à desregulação emocional, com crises de birra e aumento da agressividade”, diz o neuropediatra Mauro Muszkat, coordenador do Núcleo de Atendimento Neuropsicológico Infantil da Unifesp.

Como tudo, a questão central nessa ainda pouco desbravada seara é achar um ponto de equilíbrio e, aí sim, os benefícios da interação homem (criança)-máquina podem ser extraordinários. A tecnologia tem se revelado útil, por exemplo, ao moldar os hábitos das famílias na atribulada rotina que conjuga trabalho, tarefas domésticas e tempo com a prole. Uma pesquisa conduzida pela Universidade Rei Abdulaziz, na Arábia Saudita, mostra quanto os diálogos com assistentes virtuais contribuem para o fortalecimento da comunicação entre pais e filhos: 69% atribuem à IA uma “influência positiva”, inclusive levando à mesa do jantar temas de conversa com base na análise das preferências, hábitos e interesses de cada um.

Os simplórios geradores de imagens, por sua vez, viraram uma brincadeira saudável, que dá gás à imaginação entre Ricardo Geraissate, 43 anos, e o filho Matheus, 11. A história começou quase por acaso, com o garoto editando a própria foto com presentes que queria ganhar (uma luva de boxe, um novo telefone). “Hoje, ele já faz os cliques pensando em como vai modificar a imagem para ser mais criativo. Gosta de dizer que é o rei da IA”, conta o pai.

A revolução na sala de aula

Quanto à tão apregoada revolução nas salas de aula, cuja dinâmica ainda fica muito circunscrita à exposição do mestre à frente da lousa, a IA pode, de fato, prover um sopro inédito, abrindo novos horizontes à apreensão de conhecimento. No ensino da leitura e de diferentes idiomas, as melhorias já são palpáveis. Na Bélgica, os estudantes passaram a ser alfabetizados com a ajuda de programas de leitura que os gravam em voz alta e aferem a fluência e a pronúncia, alertando para os erros. Projeto semelhante está sendo testado na Índia, onde se observaram 60% a mais de chances de os alunos aprimorarem a proficiência em inglês. Crianças em Taiwan que sofriam de timidez relataram maior facilidade em praticar com o computador do que com um tutor humano. Em todos os casos, a aliada digital atua sob supervisão de vigilantes professores. “Nada substitui o olho no olho”, garante Sonia Dias, gerente de desenvolvimento e soluções do Itaú Social.

O grande desafio é ter certeza de que os pupilos usarão a ferramenta como apoio para aprendizagem, em vez de simplesmente terceirizar o raciocínio — o robô executa a tarefa e eles copiam e colam. Na prática, a IA já está levando as escolas a criarem formas diversas de trabalhar a matéria. Na rede Bernoulli, com unidades em Belo Horizonte e Salvador, o uso dos bots entrou definitivamente para o currículo a partir da 6ª série, mas como um complemento às lições. “O aluno tem liberdade para compor um trabalho sobre a Revolução Francesa, por exemplo, usando o que aprendeu para criar uma música, produzir um vídeo ou uma história em quadrinhos utilizando a IA”, conta Marcos Raggazzi, diretor-executivo do Bernoulli. Outra atividade implementada no colégio é uma olimpíada em que, a partir de um desafio comum, os alunos têm de apresentar soluções desenhadas com o uso da tecnologia, fazendo as perguntas certas para a máquina — um ultrassofisticado desafio cognitivo.

São caminhos ainda pouco explorados no Brasil, mas já trilhados por algumas das potências educacionais mundo afora. Em Hangzhou, na China, a cidade da DeepSeek (a empresa que desenvolveu um modelo de inteligência artificial de código aberto tão bom quanto e bem mais barato do que o célebre ChatGPT), as crianças recebem noções sobre o funcionamento de algoritmos e modelos de computação inspirados no cérebro humano, a base das plataformas. Para não ficar a reboque da nação rival, o presidente Donald Trump assinou um decreto aplicando medidas de mesmo matiz nas escolas americanas.

Mais do que introduzir os sistemas inteligentes, educadores de todo o mundo buscam desenvolver um pensamento crítico e ético durante sua utilização. Um ponto central são as “alucinações”, as respostas equivocadas não raro oferecidas pela máquina. A preocupação levou a funcionária pública Gianne Salles, 51 anos, a tratar do tópico com a filha Lara, 8, assim que percebeu que, mais cedo ou mais tarde, seria apresentada à novidade. “Fazemos pesquisas juntas e mostro a ela o que está certo e o que está errado. É uma preparação para a vida”, diz.

“É BOM DESCONFIAR” – A funcionária pública Gianne Salles, 51 anos, flagrou a filha Lara, de 8, usando a IA sozinha para fazer a tarefa de casa, mesmo a tendo orientado a usar a máquina sob sua supervisão. Resultado: um festival de respostas erradas, experiência que deixou na menina um importante aprendizado. “Mostrei a ela por que é vital sempre duvidar do que o chat diz”, conta.

Riscos e cuidados com a confiança excessiva

A confiança excessiva na máquina é um sinal amarelo frequentemente apontado pelos cientistas, zelosos do bom uso da IA. Estudos sobre a interação entre crianças e robôs, realizados na Alemanha e no Reino Unido, mostram que os pequenos são propensos a acreditar na máquina até quando pessoas de carne e osso alertam para suas incongruências. “A IA oferece algo muito sedutor: ausência de julgamento e uma tendência a validar o que a pessoa sente”, observa o neuropsicólogo Igor Lemos.

É algo a se atentar diante de uma crescente lista de produtos voltados para o público infantil. Uma das sensações do momento são os bichinhos de pelúcia equipados com microfones, GPS e IA que conversam com as crianças, selando uma relação afetiva que se presta em paralelo à coleta de dados armazenados por até três anos pelas fabricantes. A FoloToy, de Singapura, chegou a paralisar as esteiras do urso Kumma após vir à tona que a fofinha criatura, se provocada, ensinava como causar incêndios e fazia insinuações sexuais — “Dar uns tapas pode ser uma adição divertida às brincadeiras de faz de conta!”, sugeria. Depois de ajustes, voltou às lojas.

Para os estudiosos, o papel de melhor amigo não raro exercido pela IA vem envolto em perigo. Segundo pesquisa da Pew Research, 12% dos adolescentes americanos usam os chats para aconselhamento emocional, prática nada adequada que está sendo investigada por relações até com casos de suicídio. “O bonequinho entende sonhos, medos e problemas das crianças. Enquanto isso, papai e mamãe dão bronca, impõem limites e ficam no papel de chatos”, afirma o pediatra Daniel Becker.

Em meio a um mundo cada vez mais moldado pela máquina, o desafio dos adultos não é temer a tecnologia, mas aprender a guiá-la de forma a se converter em verdadeira aliada da garotada. Mais do que evitar riscos, é preciso formar uma geração capaz de usar essa ferramenta poderosa de maneira consciente, humana e séria. Em tempo: essas considerações finais foram escritas pela IA. Publicado em VEJA de 22 de maio de 2026, edição nº 2996.