61% dos perfis de IA política no Brasil não avisam que são avatares
61% dos perfis de IA política no Brasil não avisam

Um estudo recente do Observatório das Eleições revelou que cerca de 61% dos perfis criados com personagens gerados por Inteligência Artificial (IA) para comentar política brasileira nas redes sociais não apresentam qualquer aviso indicando que se tratam de avatares virtuais. Entre janeiro de 2025 e abril deste ano, foram identificados 18 personagens de IA que se passam por eleitores, influenciadores, apresentadores, comentaristas políticos ou até líderes de movimentos populares.

Caso emblemático: Dona Maria

O caso mais conhecido é o da personagem Dona Maria, um avatar que representa uma mulher negra e idosa. Desde a criação do perfil, a personagem publicou mais de 400 vídeos com críticas ao presidente Lula e a setores da esquerda brasileira. A atuação levou a Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB) a pedir ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a suspensão das contas ligadas ao perfil, alegando disseminação de desinformação e propaganda eleitoral antecipada. Segundo apuração, duas contas já foram suspensas, mas o responsável criou uma terceira página, na qual afirma que “quem cria conteúdo sério, opinativo e baseado em notícias acaba sendo tratado como criminoso, enquanto grandes páginas seguem operando como se nada tivesse acontecido”.

Reações e criação de versões paralelas

Perfis ligados à esquerda e favoráveis ao governo Lula passaram a criar versões próprias da Dona Maria, mantendo características físicas semelhantes. Um exemplo é a página “Lula Pela Verdade”, que utilizou o avatar para defender pautas do governo e criticar temas ligados à direita, como a escala de trabalho 6x1 e a família do ex-presidente Jair Bolsonaro. Outro perfil identificado é o “Seu Zé da Feira”, avatar de um homem negro e idoso que publica vídeos defendendo o governo Lula e atacando setores da direita. Nesse caso, as publicações exibem marca d’água da ferramenta de IA utilizada, indicando que se trata de material gerado artificialmente.

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Dificuldade de identificação

O estudo realizado pelas organizações Data Privacy Brasil e Aláfia Lab apontou que, na maioria dos casos, só foi possível identificar que os personagens haviam sido criados por IA após análise técnica detalhada. Entre os principais indícios observados estavam falhas de resolução, desproporções visuais e elementos robotizados em áudios e imagens. Nos sete casos em que havia algum tipo de identificação de uso de IA, os avisos apareciam por meio de marcadores automáticos das próprias plataformas (em três perfis), marcas d’água das ferramentas utilizadas (em dois casos) ou hashtags indicando o uso de IA (também em dois perfis).

Desinformação e alvos

O levantamento apontou ainda que 78% dos avatares analisados (14 dos 18) compartilhavam conteúdos com desinformação política, incluindo alegações enganosas sobre políticos e instituições democráticas brasileiras. Entre os principais alvos das publicações estavam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Jair Bolsonaro e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso.

Plataformas mais utilizadas

As plataformas mais utilizadas pelos perfis são TikTok e Instagram, com seis casos cada. Em seguida aparecem YouTube (três registros), além de X (antigo Twitter), Kwai e Facebook.

Regulação em debate

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, defendeu um modelo de regulamentação da IA baseado em níveis de risco, onde tecnologias mais sensíveis terão regras mais rígidas, enquanto aplicações de baixo impacto deverão enfrentar menos burocracia para estimular inovação. A declaração foi feita em meio ao crescente debate sobre o uso de IA na política brasileira.

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