Como construir a 'pessoa certa' no relacionamento: ciência desmistifica alma gêmea
Construir a 'pessoa certa': ciência desmistifica alma gêmea

A busca pela 'pessoa certa': entre mitos e construção diária

Em datas românticas como o Dia dos Namorados, muitos alimentam a crença de que existe uma "alma gêmea" predestinada, alguém que nos completará magicamente. Essa ideia, porém, tem raízes profundas na história e está sendo desconstruída pela ciência contemporânea.

Origens históricas do mito da alma gêmea

Desde a Grécia antiga, Platão imaginou que os seres humanos eram originalmente completos, com quatro braços, quatro pernas e dois rostos, até serem divididos por Zeus, condenados a buscar sua outra metade pela eternidade. Na Idade Média, as narrativas de amor cortês, como a de Lancelot e Guinevere, reforçaram a ideia de devoção intensa e muitas vezes proibida. O Renascimento trouxe os "amantes marcados pelas estrelas" de Shakespeare, enquanto Hollywood popularizou contos de fadas românticos.

Viren Swami, professor de psicologia social na Anglia Ruskin University, explica que a compreensão europeia moderna do amor romântico remonta a essas narrativas medievais. "Essas histórias difundiram a ideia de que você deve escolher um único companheiro para a vida toda", afirma. "Antes disso, o amor era mais fluido e menos centrado na exclusividade."

A armadilha da alma gêmea versus a construção da pessoa certa

Jason Carroll, professor de estudos sobre casamento e família na Brigham Young University, faz uma distinção crucial: "Uma alma gêmea é simplesmente encontrada. Já está pronta. Mas 'a pessoa certa' é algo que duas pessoas constroem juntas ao longo dos anos, se adaptando, pedindo desculpas e, às vezes, cerrando os dentes".

Seu relatório "The Soulmate Trap" (A Armadilha da Alma Gêmea) baseia-se em décadas de pesquisas que distinguem "crenças no destino" — a ideia de que o relacionamento certo deve ser fácil — das "crenças de crescimento", que enfatizam o trabalho conjunto para fazer a relação funcionar. Estudos da Universidade de Houston mostraram que pessoas com visão orientada para o crescimento mantêm maior comprometimento mesmo após conflitos.

"A crença na alma gêmea é uma armadilha pela expectativa de que o amor nunca deve ser difícil", alerta Carroll. "A parte mais profunda de um relacionamento é ter lugar na primeira fila não apenas para as qualidades do outro, mas também para seus desafios e fragilidades."

Química ou padrões familiares?

Vicki Pavitt, coach de relacionamentos em Londres, observa que o que interpretamos como destino pode ser, na verdade, um vínculo traumático. "Quando há uma química muito forte, às vezes isso significa reabrir padrões antigos e pouco saudáveis", explica. "Uma pessoa inconsistente pode gerar tanta ansiedade que isso faz você querer ainda mais."

Pesquisa dos psicólogos canadenses Donald Dutton e Susan Painter com 75 mulheres que deixaram parceiros abusivos revelou que os vínculos mais fortes não estavam entre as que sofreram abuso contínuo, mas entre aquelas cujos parceiros alternavam entre charme e crueldade. "É sobre discernir se a química indica compatibilidade ou apenas uma sensação familiar de ansiedade", diz Pavitt.

A biologia da atração e a matemática do amor

A biologia também desafia a noção de alma gêmea única. Pesquisas mostram que contraceptivos hormonais podem alterar sutilmente como os parceiros se sentem um pelo outro. Um estudo com 365 casais heterossexuais constatou que a satisfação sexual das mulheres era maior quando seu status atual em relação ao uso de contraceptivos coincidia com o que tinham quando escolheram o parceiro.

Greg Leo, economista da Universidade Vanderbilt, desenvolveu um algoritmo de compatibilidade que sugere que uma pessoa pode ter várias possíveis "pessoas certas". Em simulações com milhares de perfis, era extremamente raro que duas pessoas se escolhessem mutuamente como primeira opção, mas muitos apareciam como segunda ou terceira escolha um do outro.

Os pequenos gestos que constroem relacionamentos

Jacqui Gabb, professora de sociologia na The Open University, investigou o que faz relacionamentos durarem no projeto Enduring Love, que acompanhou 50 casais em detalhes. Quando perguntou o que fazia as pessoas se sentirem valorizadas, não surgiram pedidos de casamento ao pôr do sol, mas "presentes inesperados, gestos atenciosos e a gentileza de levar uma xícara de chá na cama".

"Esses atos cotidianos de atenção se mostraram mais significativos do que grandes gestos românticos", afirma Gabb. Na pesquisa, 22% das mães e 20% das mulheres sem filhos apontaram pequenos gestos como fator principal para se sentirem valorizadas. A satisfação estava ligada ao "conhecimento íntimo do casal" e à forma como ele se manifesta no cotidiano.

Carroll resume: "Me sinto confortável com a aspiração de estar em um relacionamento único e especial, desde que nos lembremos de que ele precisa ser construído". Pavitt complementa: "É válido acreditar que existe alguém para você, desde que se reconheça que há muitas pessoas com quem é possível criar uma conexão profunda".

A ciência aponta um paradoxo: quem acaba vivendo relações que parecem "destinadas a acontecer" costuma ser quem deixou de esperar pelo destino, se voltou para a pessoa imperfeita à sua frente e, na prática, perguntou: vamos construir algo juntos?