Secretário de Estado americano busca equilíbrio entre conciliação e firmeza em discurso histórico
O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, proferiu um discurso marcante neste sábado (14) durante a Conferência de Segurança de Munique, na Alemanha. Em um tom visivelmente mais moderado do que o adotado por autoridades do governo Trump no ano anterior, Rubio buscou transmitir uma mensagem de tranquilidade aos aliados europeus, embora mantendo a posição firme da administração americana sobre a necessidade de reformular a aliança transatlântica.
Continuidade com nuances diplomáticas
Em sua intervenção, Rubio afirmou categoricamente que os Estados Unidos continuarão profundamente ligados ao continente europeu, mesmo ao defender mudanças significativas na relação bilateral e nas instituições internacionais que sustentam a ordem global desde o final da Segunda Guerra Mundial. "Nosso lar pode estar no hemisfério ocidental, mas sempre seremos um filho da Europa", declarou o secretário de Estado, em uma das passagens mais emblemáticas de seu discurso.
Esta abordagem contrasta com o tom surpreendentemente agressivo adotado pelo vice-presidente JD Vance na mesma conferência há exatamente um ano, quando ele fez críticas duras aos valores europeus. Após aquela intervenção, o governo Trump tomou uma série de medidas direcionadas a aliados, incluindo a ameaça — posteriormente retirada — de impor tarifas a países europeus para pressionar por maior controle dos EUA sobre a Groenlândia, território semiautônomo da Dinamarca.
Críticas veladas e apelo à reconstrução conjunta
Embora tenha moderado o linguajar, Rubio não deixou de expressar críticas a certas políticas. Ele mencionou o que chamou de "culto climático" e uma "onda sem precedentes de migração em massa" que, segundo sua avaliação, representam ameaças concretas à coesão social tanto na Europa quanto nos Estados Unidos.
O secretário de Estado argumentou que a euforia do Ocidente após a vitória na Guerra Fria levou a uma "ilusão perigosa" de que todas as nações se tornariam democracias liberais e de que os laços comerciais substituiriam as identidades nacionais. "Cometemos esses erros juntos e agora devemos enfrentá-los juntos e seguir adiante para reconstruir", afirmou Rubio, deixando claro que o governo Trump não pretende mudar de rumo em sua política externa.
Reações europeias: alívio cauteloso
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou o discurso como "muito tranquilizador", embora tenha observado que integrantes do governo americano continuam adotando um tom mais duro em alguns temas específicos. Ela destacou a necessidade de a União Europeia se tornar mais independente, especialmente na área de defesa, e reforçou a importância da "soberania digital" do bloco.
O primeiro-ministro britânico Keir Starmer afirmou que a Europa não deve cair na complacência, defendendo que o Reino Unido precisa estreitar novamente os laços com o continente para que a região "se sustente com as próprias pernas" na defesa. Já o ministro da Defesa da Estônia, Hanno Pevkur, classificou como "uma afirmação ousada" a declaração de Rubio sobre os EUA serem "um filho da Europa", acrescentando que ainda há muito trabalho a fazer nas relações transatlânticas.
Tensões além do eixo Europa-EUA
A Conferência de Segurança de Munique também evidenciou tensões com outras potências globais. Imediatamente após a intervenção de Rubio, o chanceler chinês Wang Yi discursou, afirmando que Pequim ficou satisfeita ao ver que Trump demonstra respeito pelo presidente Xi Jinping e pela China.
Wang alertou, porém, que algumas vozes nos Estados Unidos ainda tentam conter a ascensão chinesa. Segundo o chanceler, a "lei da selva e o unilateralismo" estão ganhando espaço no cenário internacional, e certos países demonstram uma "mentalidade de Guerra Fria" em suas abordagens diplomáticas.
O discurso de Rubio ocorreu um dia após o chanceler alemão Friedrich Merz abrir o encontro com um apelo direto para que EUA e Europa "reparem e revitalizem juntos a confiança transatlântica". Merz afirmou que nem mesmo os Estados Unidos são fortes o bastante para agir sozinhos em um mundo cuja antiga ordem já não existe, destacando a interdependência entre as duas margens do Atlântico.