Suíça se prepara para referendo histórico sobre limite populacional proposto pela extrema direita
O cenário político da Suíça está prestes a viver um momento decisivo com a convocação de um referendo que colocará em votação uma proposta do Partido Popular Suíço (SVP), de extrema direita, para limitar a população do país a 10 milhões de habitantes. A iniciativa, batizada de "Não a Uma Suíça de 10 Milhões", tem como objetivo principal conter os fluxos migratórios, mas enfrenta resistência feroz de diversos setores da sociedade e pode desencadear graves consequências econômicas e diplomáticas.
Os detalhes da proposta polêmica
O governo suíço anunciou oficialmente na quarta-feira, 11 de fevereiro, que a votação popular ocorrerá no dia 10 de junho. Caso seja aprovada, a medida obrigará as autoridades a tomar ações drásticas assim que a população permanente do país, atualmente estimada em 9,1 milhões, ultrapassar a marca de 9,5 milhões. Entre as medidas previstas estão a proibição de entrada para novos imigrantes, incluindo solicitantes de asilo e familiares de estrangeiros já residentes no território suíço.
Se a população atingir os 10 milhões, o plano do SVP estabelece que restrições ainda mais severas entrarão em vigor. Caso os números não comecem a declinar, o governo será forçado a retirar a Suíça do acordo de livre circulação mantido com a União Europeia, abandonando assim o espaço de Schengen. Essa possibilidade preocupa especialistas, visto que o bloco europeu representa o maior mercado de exportação do país alpino.
Contexto demográfico e argumentos da extrema direita
A população suíça experimentou um crescimento aproximadamente cinco vezes mais rápido que a média das nações vizinhas na última década, impulsionado pelo sucesso econômico do país que atrai tanto trabalhadores pouco qualificados quanto profissionais altamente especializados. Dados oficiais indicam que cerca de 27% dos residentes na Suíça não possuem cidadania suíça.
O SVP, maior partido político do país e vencedor de todas as eleições desde 1999, argumenta que essa "explosão populacional" tem causado inflação nos valores dos aluguéis, sobrecarregado a infraestrutura pública e pressionado os serviços estatais até seus limites. A legenda ultranacionalista tem longa tradição em campanhas contra a imigração, utilizando frequentemente imagens impactantes e retórica alarmista em suas propagandas políticas.
Mecanismo de democracia direta e apoio popular
O SVP utiliza o instrumento das iniciativas populares, parte do sistema de democracia direta suíço que permite a convocação de referendos quando uma proposta obtém 100 mil apoiadores em 18 meses. Embora apenas 10% dessas iniciativas sejam normalmente aprovadas, uma pesquisa realizada em dezembro revelou que 48% dos eleitores suíços apoiam a proposta "Não a Uma Suíça de 10 Milhões", refletindo divisões profundas na sociedade sobre o futuro do país.
Forte oposição e riscos econômicos
A proposta enfrenta resistência em ambas as casas do Parlamento suíço, além de intensa oposição da comunidade empresarial e do setor financeiro. Multinacionais com sede na Suíça, incluindo a farmacêutica Roche, o banco UBS e a gigante alimentícia Nestlé, alertam que a medida colocaria em risco os acordos bilaterais com a União Europeia.
A Economiesuisse, importante associação empresarial do país, descreveu a iniciativa como a "proposta do caos" e advertiu que muitas empresas suíças dependem fundamentalmente de trabalhadores provenientes da União Europeia e de outras nações europeias. Segundo a entidade, sem essa mão de obra, diversas companhias seriam forçadas a se realocar para o exterior, afetando negativamente a arrecadação de impostos e a qualidade dos serviços públicos.
Partidos políticos rivais do SVP argumentam que uma relação próxima com a Europa representa a única opção viável para a Suíça, lembrando que aproximadamente metade de todas as exportações do país tem como destino o bloco europeu de 27 nações. Associações de empregadores acrescentam que o crescimento populacional futuro ocorrerá principalmente através do crescimento vegetativo e do aumento da expectativa de vida, fatores que não seriam afetados pelas restrições migratórias.
Precedentes e perspectivas
O SVP tem histórico de propostas radicais relacionadas à imigração, como um projeto de 2016 para deportar automaticamente imigrantes considerados culpados mesmo de pequenos delitos, e outra iniciativa de 2020 para acabar com a participação suíça no espaço de Schengen. Nenhuma dessas propostas anteriores obteve sucesso significativo.
Em 2014, os suíços já haviam votado a favor da limitação da imigração proveniente de países da União Europeia em um referendo nacional, demonstrando que o tema continua sensível e divisivo na sociedade helvética. O referendo de junho promete reacender esse debate em um contexto global de transformações rápidas e crescentes pressões migratórias.