Casca de romã revela poder curativo contra infecções de pele em estudo da Unicamp
Um estudo publicado na revista científica Journal of Food Processing and Preservation revelou que as cascas de romã possuem um alto potencial para o tratamento de feridas na pele. A pesquisa, conduzida por cientistas da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), testou 11 extratos provenientes de resíduos da indústria alimentícia, com o objetivo de investigar a capacidade curativa de cada um deles.
Alternativa natural aos antibióticos sintéticos
Entre os materiais analisados estavam sementes de melão, casca e borra de café, folhas de goiaba e manga, além de cascas de limão, uva, maçã, manga, laranja e romã. O principal objetivo da pesquisa é desenvolver uma alternativa natural aos antibióticos sintéticos, cujo uso indiscriminado tem gerado resistência bacteriana. A iniciativa também busca dar um destino sustentável e rentável aos descartes da indústria alimentar, transformando-os em produtos de alto valor agregado para a saúde humana.
Ação antimicrobiana destacada da romã
Durante os testes, os extratos foram aplicados sobre bactérias causadoras de infecções em feridas para que as reações aos compostos fossem comparadas. A romã se destacou como o extrato de maior potencial na ação contra esses microrganismos. Thais Carvalho Brito Oliveira, engenheira de alimentos e pesquisadora líder do estudo, explicou: "A casca da romã é extremamente rica em compostos fenólicos – como o ácido elágico e as punicalaginas – que reconhecidamente apresentam propriedades antioxidantes e antimicrobianas. Na natureza, essas substâncias são consideradas defesas naturais da própria planta que têm a capacidade de inibir ou matar microrganismos como bactérias e fungos".
A pesquisa demonstrou que os resíduos da casca de romã apresentam atividade antimicrobiana contra bactérias como Staphylococcus aureus, Staphylococcus epidermidis e o fungo Malassezia furfur, frequentemente associados a infecções cutâneas. Ao controlar esses patógenos, o extrato ajudaria o corpo a focar na cicatrização natural, evitando o agravamento ou a demora no fechamento da lesão.
Destaque em compostos fenólicos e sustentabilidade
Apenas a bactéria Pseudomonas aeruginosa não sofreu efeito dos extratos, devido à sua alta taxa de resistência. Para inibir esse agente indesejado, a equipe utilizou simulações computacionais visando projetar extratos ainda mais potentes. Outros substratos, como a folha de goiaba, também demonstraram eficácia, mas o diferencial da romã foi a alta concentração de fenólicos totais, compostos que atuam diretamente freando o crescimento ou eliminando as bactérias.
A engenheira de alimentos ressaltou o ineditismo do estudo: "Embora a literatura já apontasse as propriedades antimicrobianas da casca de romã, a novidade foi a descoberta da atuação específica em bactérias de feridas da pele. O diferencial da pesquisa foi otimizar a extração dessas substâncias de forma sustentável para combater infecções específicas". Ela lembrou que a indústria de sucos utiliza majoritariamente a polpa da romã, enquanto a casca, que compõe cerca de 78% da fruta, acaba frequentemente descartada em aterros sanitários, gerando riscos ambientais.
Próximos passos e validação clínica
Na próxima etapa, os cientistas planejam combinar os dois compostos naturais da casca – ácido elágico e punicalaginas – para verificar se, juntos, criam um "efeito de equipe" que potencialize a ação contra bactérias e fungos. Apesar dos resultados animadores, o uso prático ainda exige etapas rigorosas. O próximo passo envolve a aplicação in vivo (em feridas reais) e testes de toxicidade nas células humanas para descartar reações adversas. Só após essas fases a substância poderá ter seu uso clínico validado na saúde.
Sobre a pesquisa
O estudo integra um projeto de pós-doutorado financiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e é desenvolvido na FCA/Unicamp. O trabalho conta com a colaboração de pesquisadores como Thais C. Brito-Oliveira, Maria E. Cavalheiro, Felipe S. Bragagnolo, Monique M. Strieder, Vitor L. Sanches, Camila Delarmelina e Marta C. T. Duarte, sob supervisão do professor Mauricio A. Rostagno.