Carnaval se transforma em cenário de experimentação amorosa para casais paulistanos
No coração da folia carnavalesca, onde fantasias extravagantes se misturam com corpos dançantes e regras sociais parecem se dissolver temporariamente, um fenômeno curioso ganha espaço: casais utilizando o período festivo como laboratório para testar relacionamentos abertos. Esta tendência, que vem crescendo discretamente nos blocos de rua da capital paulista, revela como a maior festa popular do Brasil está se tornando um atalho emocional para redefinições conjugais.
Um test-drive amoroso durante a folia
Fernando, músico de 29 anos, e Vitória, de 27 anos, representam perfeitamente esse movimento. Após seis anos de relacionamento monogâmico, o casal decidiu que o carnaval de 2025 seria o momento ideal para experimentar uma dinâmica diferente. "A gente não queria se sentir culpado ou triste por algo que acontece naturalmente, que é se interessar por outras pessoas", explica Fernando sobre a decisão que tomou junto com a namorada.
Durante os quatro dias de festa em São Paulo, cada um seguiu por caminhos separados nos blocos, estabelecendo apenas um combinado básico: poderiam flertar e beijar outras pessoas, mas não compartilhariam detalhes como nomes ou quantidades de parceiros. O que começou como uma experiência temporária acabou se transformando em uma redefinição permanente do relacionamento, com o casal decidindo manter a não monogamia mesmo após o término da folia.
O contexto carnavalesco como facilitador
Especialistas em comportamento sexual e relacionamentos apontam que o carnaval oferece condições únicas para esse tipo de experimentação. Mariana Williams, sexóloga e mestre em terapia sexual e de casais, explica que "o carnaval é um período que abaixa um pouco algumas das morais sociais. É um momento de muita liberdade, muito libidinoso e também de muita paquera".
A psicanalista Mariana Ribeiro, pesquisadora sobre amor, ciúmes e não monogamias, complementa: "O carnaval, na nossa cultura, tem essa característica de liberdade, de transbordamento. Isso produz um efeito de as pessoas se interrogarem mais a respeito do próprio desejo".
Diálogo: a base fundamental para qualquer mudança
Ambas as especialistas fazem ressalvas importantes sobre a prática. Utilizar apenas os quatro dias de carnaval como espaço para decisões complexas sobre relacionamentos pode ser arriscado. O planejamento prévio e conversas detalhadas são elementos cruciais para que a experiência não se transforme em fonte de conflitos.
Mariana Williams orienta que as conversas devem acontecer antes da festa, nunca durante: "Evitar ter essa conversa no meio do bloco é fundamental. Você pode estar sob efeito de álcool, de euforia, e depois acabar criando um conflito no relacionamento". Ela recomenda que os casais antecipem cenários e estabeleçam combinados claros, perguntando literalmente sobre possíveis desconfortos e limites.
Para Mariana Ribeiro, outro aspecto essencial é "legalizar" o ciúme dentro da conversa. "Ciúme é um afeto. Não precisa equivaler à cobrança ou ao julgamento. Se o casal já sabe que esse sentimento pode surgir e que ele pode ser acolhido, isso facilita muito", explica a pesquisadora.
Nem sempre a experiência termina bem
A própria sexóloga Mariana Williams compartilha uma experiência pessoal que ilustra os riscos. Ela já viveu um relacionamento aberto que funcionava bem fora do carnaval, mas enfrentou dificuldades durante a folia quando o casal decidiu não compartilhar informações sobre seus encontros. "Eu me sentia traindo e me sentia traída. Criou um desconforto porque parecia que não era mais uma relação unida", relata.
Fernando, por sua vez, reconhece os desafios da nova dinâmica: "Exige muita conversa, muito alinhamento, muito combinado. Não é simples. A gente precisa ter cuidado, respeito e consideração um pelo outro". Apesar das dificuldades, ele afirma que a experiência trouxe ganhos significativos em autoestima e comunicação para o casal.
Uma história que começou no carnaval
Curiosamente, o próprio relacionamento de Fernando e Vitória nasceu em meio à folia. Os dois se conheceram em um ensaio de pré-carnaval em 2020, quando ela era foliona e ele tocava repinique na bateria de um bloco. "Após duas semanas de conversa, a gente se encontrou para o desfile do bloco em que eu tocava. A gente ficou, e aí virou amor de carnaval. Depois virou amor de pandemia também", relembra Fernando com carinho.
Para especialistas, a diferença entre liberdade e conflito nos relacionamentos que se abrem durante o carnaval está menos na folia em si e mais na qualidade do diálogo estabelecido entre os parceiros. São as conversas honestas e os combinados claros que sustentam — ou não — qualquer mudança nas regras do amor, independentemente do contexto festivo que possa ter iniciado o processo de transformação conjugal.