O presidente francês, Emmanuel Macron, causou um terremoto político ao se posicionar publicamente sobre a captura do líder venezuelano, Nicolás Maduro, pelos Estados Unidos. Durante uma reunião do Conselho de Ministros nesta segunda-feira, 5 de janeiro de 2026, Macron deixou claro que a França não apoia o "método utilizado" pela administração americana para realizar a operação.
O posicionamento oficial do governo francês
De acordo com a porta-voz do governo, Maud Bregeon, que relatou as declarações à imprensa, o chefe de estado francês foi enfático. "Defendemos o direito internacional e a liberdade dos povos", afirmou Macron, segundo o relato oficial. Apesar de não endossar a forma como a ação foi conduzida, o presidente não poupou críticas a Maduro, a quem chamou de "um ditador".
Macron avaliou que a saída de Maduro do poder é "uma boa notícia para os venezuelanos", argumentando que o líder venezuelano "confiscou a liberdade de seu povo e roubou as eleições de 2024". A porta-voz detalhou ainda que a França reconhece como legítimo vencedor daquele pleito o candidato da oposição, Edmundo González Urrutia.
"Se houver transição, então o vencedor de 2024 deve desempenhar um papel central", reforçou Maud Bregeon, citando o presidente. Esta declaração busca equilibrar a crítica ao método americano com o apoio a uma solução democrática para a Venezuela.
Reações políticas e a "vergonha" da esquerda
As palavras de Macron não foram bem recebidas por parte significativa da classe política francesa, especialmente entre os partidos de esquerda. A primeira reação do presidente, que ocorreu no sábado (3) através da rede social X, já havia gerado mal-estar por não mencionar a questão do método.
Naquela ocasião, Macron escreveu: "O povo venezuelano está hoje livre da ditadura de Nicolás Maduro e só pode se alegrar com isso". Ele acrescentou que Maduro, "ao confiscar o poder e esmagar as liberdades fundamentais, causou um grave dano à dignidade de seu próprio povo".
Essa postura foi considerada uma submissão aos Estados Unidos por líderes opositores. Jean-Luc Mélenchon, da França Insubmissa, foi um dos mais contundentes: "A posição de Macron não é a voz da França. Ele nos envergonha. Ele abandona o direito internacional". Em sua publicação no X, qualificou o dia como "sombrio para nosso país".
As críticas se espalharam. O primeiro-secretário do Partido Socialista, Olivier Faure, declarou que "a França não é um Estado vassalo dos EUA, e nosso presidente não pode se comportar como um simples porta-voz da Casa Branca". Já o líder dos senadores socialistas, Patrick Kanner, reforçou: "Macron pisa hoje em toda a nossa história diplomática. Uma vergonha".
O tom atingiu seu ápice com o líder do Partido Comunista, Fabien Roussel, que classificou a atitude como uma "vergonha suprema", acusando a França de ter sido "rebaixada ao posto de 51º Estado dos EUA".
O dilema entre método e resultado
A crise expôs uma fissura sutil, mas importante, dentro do próprio governo francês. Antes da fala de Macron no Conselho de Ministros, o ministro das Relações Exteriores, Jean-Noël Barrot, já havia manifestado preocupação, considerando que a operação americana "contraria" o direito internacional.
Questionada sobre a aparente divergência, a porta-voz Maud Bregeon garantiu que as mensagens do presidente e do ministro devem ser analisadas em "continuidade". Ela afirmou que as declarações de Barrot foram "validadas" por Macron após uma discussão entre eles, buscando apresentar um frente unida.
O episódio reflete o delicado equilíbrio que a França e a União Europeia tentam manter. Por um lado, há uma rejeição clara à legitimidade do governo Maduro, compartilhada com Washington. Por outro, existe uma preocupação profunda em preservar as normas do direito internacional e não endossar ações unilaterais e militares, que podem criar um precedente perigoso.
Esse sentimento foi ecoado pela chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, que no sábado (3) pediu "contenção" e respeito ao direito internacional após a ação ordenada pelo ex-presidente americano Donald Trump. Em seu apelo, Kallas lembrou que a UE também questiona a legitimidade democrática de Maduro, mas ressaltou: "em qualquer circunstância, devem ser respeitados os princípios do direito internacional e da Carta das Nações Unidas".
O caso Maduro, portanto, se transformou em um espelho para as tensões geopolíticas contemporâneas, colocando em conflito a busca por resultados políticos desejáveis e a adesão aos meios legalmente estabelecidos. Na França, a discussão promete seguir aquecendo o debate político interno.



