Jornalista expõe lado podre e lucrativo da indústria do bem-estar em livro
Indústria do bem-estar: lado podre e lucrativo exposto em livro

A jornalista americana Rina Raphael, em seu livro recém-publicado no Brasil, 'O Culto do Bem-Estar', expõe o lado podre e lucrativo da indústria do bem-estar. A obra, lançada pela Editora Contexto em parceria com o Instituto Questão de Ciência, investiga as promessas sedutoras do universo do wellness, um reduto de terapias e produtos sem comprovação científica.

Um mercado bilionário com pouca ciência

Terapias com cristais, suplementos revitalizantes, seitas que misturam ginástica com exercícios para fortalecer a mente e exorcizar doenças: no bilionário mercado do wellness, sobra marketing e falta ciência. Mas essa indústria não bebe só da boa vontade e das ilusões dos consumidores. Ela atende a uma demanda legítima de atenção e cuidado que a medicina e outros sistemas tradicionais deixaram de oferecer a contento.

Raphael, que cobre o setor de wellness há mais de uma década, decidiu empreender uma investigação para entender por que essa indústria pouco regulamentada se tornou tão sedutora e lucrativa. O livro combina reportagem investigativa com exame sociológico e antropológico, sempre calcada em dados, exemplos e conceitos que fundamentam suas reflexões.

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O papel da pandemia e a mudança de comportamento

Desde a publicação do livro nos Estados Unidos, Raphael observa que as pessoas estão mais conscientes das falácias da indústria. 'A partir da pandemia, as pessoas foram forçadas a refletir sobre o que é saúde e como cuidam de si mesmas. Perceberam que podiam obter resultados semelhantes com coisas simples, como caminhar ou tomar um chá', afirma.

A chamada 'era Goop', popularizada por Gwyneth Paltrow, está perdendo força. As pessoas estão percebendo que não precisam gastar muito dinheiro nem aderir a toda nova tendência. 'Garrafas de água com cristais, calças legging com cannabis, carvão ativado em um monte de produtos... São itens que não fazem sentido e têm pouca ou nenhuma base científica', critica a jornalista.

A adaptação da indústria: science washing

Com a crescente desconfiança dos consumidores, a indústria passou a adotar o chamado 'science washing', uma exploração dos preceitos da ciência. Marcas usam linguagem científica para dar a impressão de que têm base comprovada. Termos como 'clinicamente testado' ou 'aprovado por médicos' aparecem em produtos que não são devidamente regulados.

Raphael destaca que estudos mostram que as pessoas têm maior probabilidade de acreditar em informações falsas quando elas incluem referências supostamente científicas. A geração Z, mais crítica e inserida no ambiente digital, reage a essa cultura hiperprodutiva e consumista do wellness, adotando uma abordagem mais baseada no bom senso.

As lacunas da medicina tradicional

Um dos pontos centrais do livro é a falha da medicina tradicional em atender as mulheres. 'As mulheres não se sentem ouvidas por seus médicos. Sentem que suas necessidades são ignoradas e que seus sintomas não são levados a sério', afirma Raphael. A saúde feminina foi historicamente pouco pesquisada e pouco financiada, e as consultas de 15 minutos são insuficientes.

Esse cenário abre espaço a oportunistas. Influenciadores e marcas prometem soluções que o sistema tradicional não oferece, como tempo e escuta. 'Muitos profissionais que vendem terapias alternativas passam mais de uma hora com seus clientes, que se sentem ouvidos e acolhidos. Eles oferecem três palavras muito importantes: 'Eu te escuto'', explica.

Charlatanismo e novas tendências

Raphael aponta as terapias experimentais como um dos maiores exemplos de charlatanismo na indústria. 'Tenho observado um aumento no interesse por turismo médico, com pessoas viajando para acessar tratamentos que não são aprovados nos Estados Unidos, como alguns com células-tronco', diz. Outro exemplo é o crescente interesse por psicodélicos, que, embora possam ajudar em alguns casos, envolvem riscos e são promovidos sem discussão adequada.

O termo 'wellness' já começou a ser substituído por 'longevity' (longevidade), um conceito pouco definido que abre espaço a muito marketing e promessas exageradas. Raphael acredita que, com o tempo, os consumidores se tornarão mais céticos, assim como aconteceu com o wellness.

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Educação como saída

Para Raphael, a melhor abordagem para combater a desinformação é a educação, idealmente antes que as pessoas sejam expostas a conteúdos enganosos. 'Ensinar o básico sobre saúde, estudos científicos e até estatística já faria uma grande diferença. Compreender conceitos como risco absoluto e risco relativo é fundamental', sugere.

Nos Estados Unidos, organizações estão desenvolvendo programas desde o ensino médico para capacitar as pessoas a lidarem com a desinformação. 'A melhor estratégia é começar cedo e fornecer às pessoas ferramentas para compreender as informações sobre saúde de uma forma mais crítica', conclui a jornalista.