Infestação por piolhos: regiões de Campinas e Piracicaba têm aumento nos atendimentos
Tudo começou com um recadinho da professora. Nele, Ana Carolina de Moraes foi informada de que as filhas gêmeas, Letícia e Lívia, estavam enfrentando um problema conhecido por muitas mães: uma infestação de piolho. Naquele momento, ela não imaginava que o drama poderia virar negócio.
O desafio do tratamento
A empresária de Campinas (SP) recorreu a todos os tratamentos possíveis: medicações, receitas caseiras, xampus de tratamento, pentes finos. Entretanto, por 1 ano e meio, nada foi eficiente para dizimar os parasitas dos cabelos das gêmeas.
"Eu me vi mudando toda a minha vida. O primeiro passo foi sair igual uma louca nas farmácias, procurando o pente de aço e os remédios. Eu não imaginava, fazia tempo que eu não ouvia falar do piolho e é um bichinho tão pequenininho que teve um impacto emocional na minha vida muito grande", relata a mãe.
O problema parecia insolucionável, até que a empresária encontrou uma clínica em São Paulo (SP) especializada na remoção dos piolhos. Foi por meio desse serviço que ela conseguiu eliminar todos os parasitas da cabeça das gêmeas.
Da dor ao empreendimento
O alívio foi tanto que Ana Carolina resolveu abrir um centro especializado nesse tipo de serviço. Além de suprir a lacuna que identificou no mercado, a mãe também pôde compartilhar a sua experiência e proporcionar acolhimento a outras famílias.
"Consegui através de um vídeo de uma influenciadora falando que a família inteira pegou. Eu fiquei 'meu deus, me identifico demais'. Eu quis saber como ela resolveu e fiquei lá no vídeo até o final. Ela tinha procurado uma clínica, e eu só consegui curar o problema quando eu levei elas a uma clínica. Através dessa dor, eu também tive a ideia de montar um espaço para acolher essas mães e ajudar o piolho e a lêndia que hoje tem aqui em Campinas", conta Ana Carolina.
Dificuldades no tratamento
Quando recebeu o recadinho da professora, a primeira coisa que Ana Carolina fez foi iniciar tratamentos caseiros sugeridos na farmácia. Assim que começou as terapias indicadas, achou que tudo estava resolvido. Alguns dias depois, os piolhos voltaram a aparecer.
"O problema não acaba como eu imaginava que iria acabar. Brotava piolho. Passava uma semana, eu fazia tudo de novo, mais uma semana que era sugerida, depois de sete dias, e fazia tudo de novo. O processo e não tinha fim e aí eu entrei em desespero", relatou.
Impacto emocional e estigma social
O estigma social e a frustração pelas tentativas falhas de eliminar o piolho causaram um impacto emocional na Ana Carolina. A mãe chegou a deixar as filhas faltarem no colégio, e se questionar sobre a maternidade.
"Veio a frustração. Um sentimento de impotência. Poxa, 'será que eu não estou cuidando legal das minhas filhas?'. O julgamento das outras pessoas. Teve dia que não mandei para a escola, porque eu pensava assim: 'será que é minhas filhas que estão contaminando toda a escola?'. Porque hoje em dia ainda tem um preconceito muito grande. Então, eu me sentia mal", relata a mãe.
Como ocorre a contaminação
A médica Carla Stephan explica que estar com piolho não é um indicativo de má higiene pessoal — e nem está condicionado à classe social. Abraços, espaços lotados, apertos de mão e até passar a mão na cabeça podem fazer com que o parasita chegue ao couro cabeludo e se multiplique.
"A contaminação é pelo contato. Posso pegar por 'cabeça por cabeça', levar a mão. E o piolho sobrevive por um tempo fora do nosso corpo por um período de até 48 horas. E como pega os adultos? Geralmente são os familiares, o contato domiciliar", explica.
Tratamento e remoção
A palavra-chave para solucionar o problema é uma: a remoção. Por isso, a eliminação dos piolhos e das lêndeas exige bastante paciência, já que é necessário tirar um por um do cabelo.
"É uma aplicação [do xampu], deixa por um tempo de ação e lava depois. E depois, a remoção, que é o maior desafio. Piolho é o nome dado ao parasita adulto, então a gente consegue visualizar com muita facilidade, e o remédio vai agir ali. E tem a lêndea, que o ideal é a remoção manual com o uso do pente fino, e olhar com as mãos e as unhas", explica a médica Carla.
Em alguns casos, segundo a médica, esse tratamento caseiro não será o suficiente, e será preciso recorrer a outros tratamentos e a profissionais.
Aumento de casos na região de Campinas e Piracicaba
Ana Carolina não foi a única a ter que enfrentar os piolhos. Entre janeiro e novembro de 2025, as unidades de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) registraram 170 atendimentos por pediculose, nome dado à infestação de piolho.
Os dados mostram um aumento significativo em relação ao ano anterior:
- 2024: 140 casos e uma internação
- 2025: 170 casos e duas internações
Os dados de dezembro de 2025 ainda não foram totalmente contabilizados, indicando que os números finais podem ser ainda mais expressivos.
A situação tem preocupado autoridades de saúde e famílias nas regiões de Campinas e Piracicaba, onde o problema parece estar se intensificando nos últimos anos.