Oncologia moderna: hábitos saudáveis influenciam diretamente no tratamento do câncer
Hábitos saudáveis influenciam tratamento do câncer, diz oncologia

Oncologia moderna reforça impacto dos hábitos no tratamento do câncer

Apesar de fatores como genética e envelhecimento serem inevitáveis, a oncologia contemporânea destaca que elementos modificáveis têm influência direta sobre a doença, não apenas na prevenção, mas também na resposta aos tratamentos. Pesquisas científicas demonstram que o chamado "microambiente tumoral", um sistema complexo envolvendo células, metabolismo e resposta imunológica, afeta significativamente a progressão e capacidade de crescimento dos tumores, sendo diretamente moldado pelas condições sistêmicas do organismo.

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Alimentação equilibrada, qualidade do sono, prática regular de atividade física e redução do estresse estão entre os fatores que controlam esse microambiente, com efeitos comprovados sobre processos metabólicos e inflamatórios ligados à evolução do câncer. "Existe uma ideia equivocada de que, após o diagnóstico de câncer, nada mais faz diferença. Isso não corresponde à realidade", afirma o oncologista Guilherme Harada, do Hospital Sírio-Libanês. Segundo o especialista, hábitos como movimentar-se mais, manter dieta balanceada, atualizar a vacinação e cuidar da saúde emocional não apenas auxiliam o tratamento, como fortalecem o organismo para enfrentar melhor a doença.

Mito 1: "Açúcar alimenta o câncer"

Durante o tratamento oncológico, a alimentação integra estrategicamente o plano de cuidados. Pequenos ajustes nutricionais já demonstram impacto comprovado na resposta orgânica, na tolerância aos tratamentos e até na prevenção de recidivas. De acordo com Thais Giovaninni, nutricionista do Hospital Sírio-Libanês, padrões alimentares saudáveis contribuem para criar ambiente menos inflamatório e mais favorável à recuperação. "Não existe alimentação anticâncer específica. O que existe é um padrão alimentar que garante melhor resposta ao tratamento e ajuda a minimizar efeitos colaterais", explica. O foco deve estar no consumo regular de:

  • Frutas, verduras e legumes variados
  • Grãos integrais e boas fontes de gordura
  • Proteínas adequadas, sempre com orientação personalizada

"Dietas excessivamente restritivas podem levar à perda de peso e massa muscular, aumentando riscos de efeitos colaterais e até interrupção do tratamento", alerta Thais. O mesmo vale para mitos populares, como a eliminação total do açúcar. "Todas as células corporais necessitam de glicose. O problema reside no excesso, especialmente de açúcar adicionado", afirma. "Buscar constância em boas escolhas alimentares, e não a perfeição absoluta, é o que realmente protege o paciente ao longo da jornada".

Mito 2: "Estou doente, preciso ficar em repouso"

O receio de "forçar demais" durante quimioterapia ou radioterapia ainda paralisa muitos pacientes, inclusive aqueles sem histórico de exercícios físicos. Essa lógica, contudo, tornou-se obsoleta. Atualmente, a medicina é categórica ao afirmar que atividade física, quando adequadamente orientada, é segura, melhora a resposta orgânica ao tratamento e pode reduzir riscos de recidiva. "É mito pensar que quem nunca praticou exercícios não pode iniciar após o diagnóstico. O exercício constitui parte integrante do tratamento", afirma a médica fisiatra Isabel Chateaubriand Diniz Salles, coordenadora médica do Serviço de Reabilitação do Hospital Sírio-Libanês.

Segundo a especialista, o movimento contribui para:

  1. Reduzir inflamação crônica
  2. Melhorar resposta imunológica
  3. Diminuir resistência à insulina
  4. Impactar positivamente a saúde mental

"Não se trata de tudo ou nada. Iniciar, mesmo que com dez minutos diários, e progredir gradualmente até atingir pelo menos 150 minutos semanais de exercícios aeróbicos, associados ao fortalecimento muscular, alongamentos e treino de equilíbrio, representa estratégia concreta para transformar o corpo e a relação do paciente com a doença", explica. A prática regular constitui um dos pilares fundamentais para prevenção e controle de doenças crônicas.

Mito 3: "Sou forte, não preciso de ajuda" ou "Não quero incomodar"

O estresse crônico e a ansiedade associados à doença mantêm o organismo em estado de alerta constante, com liberação persistente de cortisol e adrenalina, o que pode prejudicar o sono, aumentar a fadiga, intensificar a dor e dificultar a adesão aos cuidados. "Isso não significa que o estresse cause câncer ou impeça o tratamento de funcionar, mas que o corpo responde melhor quando o sofrimento emocional é reconhecido e adequadamente cuidado", explica a psicóloga Patrícia Seta, do Hospital Sírio-Libanês.

De acordo com a especialista, sentimentos como medo, tristeza, raiva e insegurança representam reações humanas esperadas, não constituindo sinais de fraqueza. "Cuidar da saúde mental não elimina completamente o medo, mas reduz significativamente o sofrimento, melhora a qualidade de vida, favorece a adesão ao tratamento e auxilia o paciente a atravessar a jornada com maior apoio e sentido existencial".

Mito 4: "Vacinas causam doenças, inclusive câncer"

Atualmente, a ciência reconhece que aproximadamente 13% dos cânceres mundiais estão associados a infecções evitáveis por imunização, com destaque para HPV e hepatite B. A vacinação contra o HPV pode prevenir até 90% dos casos de câncer do colo do útero, além de reduzir significativamente tumores de ânus, pênis, orofaringe e vagina. Já a vacina contra hepatite B está associada a queda expressiva na incidência de câncer hepático em países com alta cobertura vacinal. "Vacinação também representa estratégia de prevenção oncológica", afirma o oncologista Dr. Guilherme Harada.

Para pacientes em tratamento oncológico, manter o esquema vacinal atualizado constitui medida protetiva essencial, já que apresentam maior risco de complicações graves por infecções como gripe e pneumonia, o que pode levar a hospitalizações e até interrupção terapêutica. "A vacina não trata diretamente o câncer, mas evita intercorrências que fragilizam o organismo e prejudicam o cuidado oncológico", explica Harada. Segundo o especialista, vacinas como as da gripe e covid-19 são geralmente recomendadas para pacientes oncológicos, com avaliação individualizada do tipo de tratamento e momento clínico. "Cuidar da imunização significa cuidar das condições necessárias para que o tratamento funcione com máxima eficácia".

Mito 5: "Já tenho câncer, não adianta abandonar cigarro ou álcool"

Conforme dados da Organização Mundial da Saúde, o tabaco relaciona-se a cerca de 25% de todas as mortes por câncer, sendo principal fator de risco para tumores de pulmão, boca, laringe, esôfago, bexiga e pâncreas. Paralelamente, o álcool responde por mais de 740 mil novos casos anuais da doença, com forte associação a câncer de mama, fígado, intestino e cabeça e pescoço. "É mito acreditar que, após diagnóstico de câncer, parar de fumar ou reduzir consumo alcoólico não faz diferença. A interrupção melhora resposta ao tratamento, reduz complicações, diminui risco de novos tumores e impacta diretamente na sobrevida", afirma o oncologista Dr. Guilherme Harada.

Para o especialista, não existe consumo seguro de cigarro ou álcool do ponto de vista oncológico. "Cada redução já conta positivamente, mas quanto antes ocorrer a cessação total, maior será o ganho para o paciente, esteja ele em tratamento ativo ou não".