Ataque a escola de meninas no Irã marca início da guerra e expõe violência contra civis
O ataque a uma escola primária feminina na cidade de Minab, província de Hormozgan, no Irã, que resultou na morte de 168 crianças e deixou mais de 90 feridas, marcou tragicamente o primeiro dia da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o país persa, iniciada em 28 de fevereiro de 2026. As imagens das valas abertas para receber os caixões enfileirados, acompanhadas por milhares de pessoas vestidas de preto durante o funeral na terça-feira (3), correram o mundo e expuseram os horrores que o conflito no Oriente Médio pode produzir.
Impacto devastador na vida de mulheres e meninas
Em nome de uma suposta "libertação" do povo iraniano do regime dos aiatolás, um dos primeiros alvos da ofensiva foi justamente uma instituição educacional feminina. A socióloga Berenice Bento, professora da Universidade de Brasília que estuda relações de gênero no mundo muçulmano, afirma que o ataque revela que a guerra não tem relação com direitos humanos ou democracia. "Quando você analisa as manifestações que aconteceram, nenhuma está dizendo que quer a volta da monarquia, ou que os Estados Unidos e Israel vá libertá-las. Nunca. O que você tem é uma sociedade que está lutando", ponderou.
A jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh, doutora em Estudos Árabes pela USP, destaca que mulheres iranianas lutam há décadas por seus direitos, em especial através do movimento Mulher, Vida e Liberdade, criado em 2022 após a morte da estudante Mahsa Amini. "O povo iraniano, os povos árabes, o povo palestino devem decidir seu destino, não os EUA e Israel", comentou.
Contexto de restrições e conquistas das mulheres iranianas
No Irã, as mulheres enfrentam uma série de restrições impostas pelo regime:
- Uso obrigatório do véu (hijab) para cobrir os cabelos
- Impedimentos para viagem e mobilidade, geralmente necessitando autorização dos pais ou maridos
- Punições severas pelo desrespeito aos códigos, aplicadas pela Patrulha de Orientação da República Islâmica
Por outro lado, a professora Natália Ochôa, pesquisadora da UFRGS, pondera que houve avanços sociais significativos nos últimos 47 anos:
- A alfabetização das mulheres passou de cerca de 30% nos anos 1970 para aproximadamente 85% nos anos 2000
- A participação feminina nas universidades subiu de 33% na década de 1970 para cerca de 60% nos anos 2000
- Apesar disso, a participação no mercado de trabalho segue reduzida, em torno de 15% a 20% do total de empregados
Autoria do ataque e reações internacionais
O ataque à escola de Minab foi condenado pela comunidade internacional, com o alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, pedindo uma investigação rápida e imparcial. Estados Unidos e Israel não reconheceram a autoria do ataque, com a Casa Branca afirmando que investiga o caso e Israel negando qualquer ligação com suas operações militares.
O New York Times, após analisar imagens de satélites e vídeos verificados, indica que a escola foi severamente danificada por um ataque de precisão que ocorreu simultaneamente a ofensivas americanas a uma base naval da Guarda Revolucionária Islâmica. Considerando a proximidade da escola em relação ao objetivo militar, o major-general português Agostinho Costa avalia que o bombardeio pode ter sido um erro de alvo.
Berenice Bento cita a Doutrina Dahiya do exército israelense, baseada na destruição em larga escala de infraestrutura civil, para argumentar que o ataque pode ter sido intencional. "Com o ataque à escola, eles estão querendo dizer não vão deixar pedra sob pedra. É destruir tudo. Para que a própria população civil, diante daquela destruição, se coloque contra o poder local", avaliou.
Soraya Misleh alerta que os ataques a escolas, hospitais e infraestrutura civil em Gaza abriram espaço para novos crimes em outros países do Oriente Médio, enfatizando que as mulheres da região não precisam ser salvas, mas sim de apoio e solidariedade genuínos.
