Disputa geopolítica por minerais estratégicos divide países sul-americanos
A questão dos minerais críticos e elementos de terras raras emergiu como tema central da visita do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva à Índia, onde se reuniu com o premiê Narendra Modi. Enquanto o Brasil busca parcerias dentro do bloco Brics, outros países da região assinaram acordos com os Estados Unidos, criando uma clara divisão estratégica no continente.
Dois modelos de cooperação em confronto
Dias antes da viagem presidencial, a secretária do Ministério das Relações Exteriores do Brasil para a Ásia e o Pacífico, Susann Kleebank, explicou que o acordo de cooperação com a Índia seguirá as diretrizes do governo Lula para geração de valor agregado à indústria nacional. "Não queremos apenas minas; queremos que os minerais sejam produzidos e processados aqui, para que possamos alcançar resultados para nossa indústria e nossa segurança nacional", afirmou a diplomata em coletiva de imprensa.
Em contraste, no início de fevereiro, Argentina, Equador, Peru e Paraguai assinaram um memorando proposto pelos EUA que alinha suas políticas às diretrizes de Washington. Os americanos consideram o mercado desses minerais "altamente concentrado", transformando-o em "ferramenta de coerção política e de interrupção da cadeia de suprimentos".
China domina mercado com décadas de vantagem
O engenheiro argentino e especialista em mineração Eduardo Gigante explicou à Sputnik Brasil que a questão dos minerais críticos tornou-se tema-chave na agenda dos países desenvolvidos, mas com um atraso significativo em relação à China. "A China aborda essa questão há décadas, resultando no controle de mais de 80% do mercado, deixando percentuais ínfimos para EUA e Europa", destacou Gigante.
Segundo o especialista, o atraso americano faz com que seus acordos com países sul-americanos sejam fundamentalmente restritivos em relação às oportunidades comerciais. "O acordo com os EUA limita o comércio com países que consideram não alinhados com suas políticas, referindo-se, sem dúvida, à China", analisou.
Nova 'Guerra Fria' por recursos estratégicos
O analista político Daniel Prieto identificou duas tendências distintas emergindo no mercado internacional de minerais críticos. "O Brics, especialmente a China, oferece estruturas de cooperação Sul-Sul com investimentos em infraestrutura através do Novo Banco de Desenvolvimento", observou Prieto em entrevista à Sputnik.
Esta competição geopolítica já cria oportunidades para negociações multilaterais, mas exige capacidade estatal robusta para evitar novas dependências, incluir comunidades locais nas decisões sobre seus territórios e gerenciar conflitos socioambientais associados à mineração.
Riscos e oportunidades para a soberania regional
Prieto alertou que, embora a América do Sul possua reservas estratégicas de lítio, cobre e nióbio essenciais para a transição energética, a crescente presença desses minerais na agenda internacional não garante gestão soberana. "A falta de políticas estratégicas pode levar os países ao risco de reproduzir a dependência histórica e a reprimarização da região", afirmou.
Para Gigante, a busca brasileira por acordo com a Índia representa alternativa superior aos modelos americanos. "O Brasil tem política pública clara de parceria com o Brics. Infelizmente, a Argentina se alinhou com os EUA, potência em declínio", criticou o especialista.
Caminhos para o desenvolvimento industrial
Parcerias com China e Índia no setor de minerais críticos poderiam oferecer ao Brasil acordos de transferência de tecnologia que permitiriam o refino local, área onde os países asiáticos têm vantagem sobre EUA e Europa. Gigante enfatizou que as nações ocidentais terão "grande dificuldade em conquistar participação de mercado em minerais críticos no futuro".
O especialista lamentou que a Argentina de Milei tenha se distanciado do Brics, evitando acordos sobre minerais críticos com esses países. "Hoje existe uma espécie de 'Guerra Fria' na questão dos minerais, o que torna tudo mais difícil porque o país está exposto a maiores pressões que podem prejudicar o desenvolvimento industrial", resumiu.
Na visão de Prieto, é fundamental que "a América do Sul negocie coletiva e democraticamente" suas políticas sobre minerais críticos, evitando acordos meramente extrativistas e buscando políticas de industrialização energética. Organizações como Mercosul, Aliança do Pacífico ou CELAC poderiam ser ferramentas fundamentais, "priorizando a soberania regional e uma transição energética justa em diálogo com sua própria complexidade socioterritorial".



