Jocy de Oliveira, lendária compositora brasileira e pioneira da música eletroacústica, é celebrada com um documentário e a estreia de uma nova ópera. Aos 90 anos, sua trajetória de vanguarda e ousadia segue inspirando, revelando encontros com gênios e shows futuristas, como o uso dos lasers do Pink Floyd.
Uma trajetória de vanguarda
No planetário Hayden, em Nova York, a compositora curitibana apresentou, em 1983, o concerto Music in Space — um show que mesclava elementos da música clássica com intervenções eletrônicas, criado por ela, inspirado pelo trabalho do físico Stephen Hawking. Dias antes, a banda de rock Pink Floyd havia se apresentado no local. Jocy foi até eles e pediu emprestados os lasers que usavam como parte do cenário, que ainda estavam por lá. O grupo topou, e Jocy reforçou sua apresentação de tom futurista com o aparato tecnológico, uma raridade na época.
Amizade construtiva com Stravinsky
A passagem curiosa faz parte do documentário Universo Circular — Jocy de Oliveira (Brasil, 2026), de Dácio Pinheiro, exibido no festival IndieLisboa, em Portugal, e previsto para estrear no Brasil em junho, no Festival In-Edit. A produção resgata a história de uma raridade nacional: vanguardista obstinada e pupila do maestro russo Igor Stravinsky, Jocy foi pioneira da música eletroacústica — na qual instrumentos no palco dialogam com sons pré-gravados, criando uma harmonia moderna e texturizada.
Sua história começa no erudito. Estudou piano na França e construiu uma carreira de concertista. Chegou a se arriscar na bossa nova em 1959, mas contrariava o idílio de Tom Jobim, preferindo cantar sobre cenas como um assalto no Morumbi ou o suicídio de uma moça rica. Seu instinto subversivo foi intensificado nos anos seguintes, conforme conheceu grandes pensadores.
“Stravinsky me dizia que não era compositor e, sim, um inventor. É o que falta para a cultura musical de agora”, relembrou Jocy em entrevista a VEJA.
Ela interagiu também com o alemão Karlheinz Stockhausen e se apaixonou pelo italiano Luciano Berio. Com ele, trouxe para o Brasil o primeiro espetáculo do gênero em 1961: Apague meu Spotlight, que unia música a gravações das vozes de Sérgio Britto e Fernanda Montenegro. Anos mais tarde, a atriz escreveria sobre a vivência no livro Leituras de Jocy (2017): “Ganhei, como artista, a coragem do experimento”.
Pós-ópera e novos projetos
Jocy se autodescreve como uma representante do “pós-ópera”, algo que pode desconcertar os ouvidos menos acostumados a sons diferentes e conquistar os mais abertos. Em 6 de junho, ela apresenta concerto retrospectivo na Sala São Paulo e, a partir de 30 de outubro, estreia sua nova ópera, batizada de Medeia e o Direito de Ser Diferente, no Teatro Municipal paulistano. A diva psicodélica é, acima de tudo, incansável.



