Lula sacrifica aliados e interesses partidários em prol da reeleição em 2026
Lula sacrifica aliados para se reeleger em 2026

Preparando-se para sua sétima candidatura ao Palácio do Planalto, Lula nunca teve pudor de imolar aliados para se livrar de problemas e fortalecer suas campanhas eleitorais. Em seu primeiro mandato presidencial, ao reagir à descoberta do mensalão, ele jurou inocência, declarou-se traído e comandou uma operação que resultou na demissão de José Dirceu, seu braço direito e ministro da Casa Civil. Foi um dos preços pagos para tentar virar a página do escândalo e permitir a reeleição em 2006. Antes disso, em 1998, Lula obrigou o PT a desistir de candidatura própria e apoiar um nome do PDT ao governo do Rio de Janeiro a fim de garantir a adesão dos trabalhistas a sua chapa presidencial, que acabaria derrotada, como em 1994, por Fernando Henrique Cardoso. O velho e conhecido altar de sacrifícios do petista continua funcionando a pleno vapor em 2026. Nele, projetos pessoais de correligionários são desautorizados ou suspensos se atrapalharem a tentativa de renovação de mandato.

Sacrifícios eleitorais em 2026

Até a histórica derrota sofrida pelo presidente com a decisão do Senado de rejeitar a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal tem uma raiz nos planos eleitorais de Lula. Quando a vaga no STF foi aberta, em outubro passado, o comandante do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), começou uma campanha a favor da indicação de seu antecessor no cargo, o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), para a Corte. Como não tinha — e ainda não tem — um candidato forte ao governo de Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do país, Lula rechaçou a sugestão do chefe do Legislativo e convidou Pacheco para disputar o governo mineiro, insinuando que o parlamentar poderia ser nomeado ao Supremo no futuro caso ele fosse reeleito. O cortejado Pacheco nunca aceitou nem recusou a proposta. Ele levou a negociação em banho-maria até a rejeição de Messias pelo Senado. Após essa decisão, a candidatura de Pacheco ao governo, segundo petistas, tornou-se menos provável, o que obrigou Lula a cogitar alternativas. Depois da desastrosa administração do petista Fernando Pimentel em Minas, um nome do PT está descartado. A opção estudada por assessores do presidente é apoiar o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT), que aparece em segundo lugar na pesquisa Genial/Quaest para o governo, atrás do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), que ainda não confirmou a candidatura, e à frente de Pacheco, o terceiro colocado.

Cessão de espaços a outras legendas

Ciente de que a próxima eleição será tão acirrada quanto a de 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro no segundo turno por menos de 2 pontos percentuais de vantagem, Lula mandou o PT ceder espaços a outras legendas numa tentativa de receber o apoio delas ou de parte de seus quadros na campanha. No Rio de Janeiro, o terceiro maior colégio eleitoral do país, o candidato do presidente ao governo estadual será Eduardo Paes (PSD), que já havia sido apoiado pelos petistas, por determinação de Lula, quando disputou a prefeitura carioca em 2024. “Nós estamos num esforço muito grande de juntar todas as forças progressistas, democráticas, populares, para derrotar o fascismo no Brasil”, diz o deputado Jilmar Tatto (SP), vice-presidente nacional do PT. “Neste trabalho, todo companheiro é convocado a dar sua cota de contribuição.” Um exemplo é o ministro da articulação política, o deputado licenciado José Guimarães, que estreou no cargo com a derrota histórica no caso da indicação de Messias ao STF. Ex-líder do governo na Câmara, Guimarães pretendia concorrer ao Senado pelo Ceará. Ele dizia que nada, absolutamente nada, o faria desistir da ideia. No campo governista, havia mais outros três interessados nas duas vagas de senador em jogo, incluindo quadros do MDB e do PSB. Com o objetivo de diminuir as chances de atritos na sua própria base, Lula nomeou Guimarães para um ministério, o que o impede de disputar a eleição. Manda quem pode, obedece quem tem juízo. O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad também sabe disso. Ele não queria concorrer neste ano depois de ser derrotado em 2016, para a prefeitura de São Paulo, em 2018, para a Presidência, e em 2022, para o governo paulista. Seu objetivo era trabalhar na campanha do chefe — de preferência, na elaboração do programa de governo. O plano foi frustrado por Lula, que preferiu escalar um time de peso para a eleição em São Paulo, o maior colégio eleitoral do país.

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Popularidade em queda

Hoje, a rejeição é o principal obstáculo enfrentado por Lula. Nos três maiores colégios eleitorais do país, a desaprovação ao governo supera a aprovação, de acordo com a Genial/Quaest. Em São Paulo, o saldo negativo é de 21 pontos percentuais; em Minas, 10 pontos; no Rio de Janeiro, 18 pontos. “As pesquisas estão mostrando que o desgaste do Lula é mais estrutural do que conjuntural. O Lula está tendo grande dificuldade de sair dessa armadilha por conta da erosão que ele sofre, o chamado desgaste de material”, diz o cientista político Alberto Aggio, da Universidade Estadual Paulista. Desde o ano passado, o presidente anunciou uma série de medidas de apelo popular, mas até agora não conseguiu reverter o processo de desconstrução de imagem. Na quinta 7, encontrou-se com Donald Trump, evento que o petista pretende usar para faturar na campanha, passando a imagem de que é relevante na diplomacia internacional, ao mesmo tempo que tenta tirar o presidente americano da zona de influência do bolsonarismo.

Possíveis substitutos e recompensas

Apesar do esforço de Lula para recuperar a popularidade, continuam as especulações sobre a possibilidade de ele desistir da campanha. Se isso ocorrer, conversas de bastidores dizem que Lula poderia ser substituído por Haddad, pelo vice Geraldo Alckmin ou pelo ex-ministro da Educação Camilo Santana. Ex-governador do Ceará, Santana deixou o ministério para ter o direito de participar das eleições. Por enquanto, não concorrerá a nada. Essa situação, no entanto, pode mudar. Uma possibilidade é ele entrar no páreo pelo governo cearense, caso haja risco de o ex-ministro Ciro Gomes (PSDB) derrotar o atual ocupante do cargo, o petista Elmano de Freitas. Enquanto explora o potencial eleitoreiro da máquina pública, o presidente reforça como pode seu elenco. Na lista de sacrifícios, há petistas estrelados desempenhando todo tipo de papel. Eleitos deputados federais por São Paulo, Guilherme Boulos (PSOL) e Alexandre Padilha (PT) só assumiram a Secretaria-Geral da Presidência e o Ministério da Saúde, respectivamente, depois de prometerem que não deixariam os cargos para tentar novos mandatos na Câmara. Para Lula, os dois contribuem mais do ponto de vista eleitoral ficando na Esplanada dos Ministérios. A tarefa de Boulos é azeitar a relação do governo com os movimentos sociais e os jovens da periferia. Já Padilha recebeu a missão de aperfeiçoar um programa que promete garantir à população acesso a especialistas como cardiologistas e oncologistas. Em 2022, para facilitar a formação de um palanque na Bahia, o maior colégio eleitoral do Nordeste, Lula convenceu Rui Costa a não concorrer ao Senado. Em retribuição, Costa recebeu um convite para chefiar a Casa Civil no terceiro mandato do petista. O ex-ministro planeja, de novo, disputar a vaga no Senado. Ele sabe, no entanto, que, em caso de emergência, pode ser convocado para outra missão. Se o presidente for reeleito em outubro, os sacrificados tendem a ser recompensados. Se perder, paciência. Na esquerda, Lula foi, é e sempre será a prioridade.