Gigante do varejo em crise: Pão de Açúcar busca recuperação com dívida bilionária
O Grupo Pão de Açúcar (GPA) deu um passo dramático em sua trajetória ao recorrer à recuperação extrajudicial para renegociar dívidas que somam impressionantes R$ 4,5 bilhões. Este movimento representa o capítulo mais crítico da história de uma empresa que, por décadas, ajudou a moldar o varejo de alimentos no Brasil, mas que agora luta para garantir sua própria sobrevivência.
As raízes da crise: um contrato que mudou tudo
A situação atual do GPA tem suas origens em uma decisão tomada há mais de duas décadas. Em 2005, Abilio Diniz firmou um acordo societário com o grupo francês Casino que, anos mais tarde, resultaria na perda do controle da companhia. O próprio Diniz, em entrevistas anteriores, reconheceu com rara franqueza: "O maior erro da minha vida foi ter feito um mau contrato com o Casino". Se estivesse vivo para testemunhar a situação atual, ele certamente reforçaria esse diagnóstico.
Para compreender a profundidade da crise, é necessário voltar ao que o GPA representava em seu auge. Em 2013, já sob controle do Casino, o grupo reunia marcas como Pão de Açúcar, Extra, Assaí, Casas Bahia, Pontofrio, Barateiro e Partiu Viagens, registrava lucro líquido de R$ 1,8 bilhão e era o maior empregador privado do Brasil, com impressionantes 150.000 funcionários.
O desmonte progressivo do império varejista
Hoje, a realidade é drasticamente diferente. O GPA opera apenas 740 lojas das bandeiras Pão de Açúcar e Mini Extra, emprega 37.000 pessoas, acumula prejuízos consecutivos desde 2022 e viu seu caixa derreter de R$ 8 bilhões em 2021 para apenas R$ 1,7 bilhão no ano passado. O que restou é apenas uma fração do império que o Casino assumiu.
O encolhimento do grupo é resultado direto de uma sequência de desinvestimentos promovidos pelo controlador francês. De 2019 a 2023, o Casino realizou seis grandes operações de venda de ativos, além de se desfazer de ações do próprio GPA. Em valores corrigidos para março de 2026, esses movimentos somam aproximadamente R$ 55 bilhões, sendo que R$ 33 bilhões foram para o caixa do Casino na Europa, enquanto apenas R$ 22 bilhões permaneceram no GPA.
"O Casino usou as operações brasileiras como fonte de recursos para se salvar financeiramente e deixou em segundo plano a construção de um modelo de negócios sustentável para o GPA", afirma Eugenio Foganholo, consultor especializado em varejo.
A decisão mais controversa: a separação do Assaí
Entre as medidas mais questionáveis tomadas pelo Casino está a separação do Assaí do GPA em 2021. Naquele momento, o atacadista havia se tornado o negócio mais promissor do grupo, especialmente em um período marcado por crises econômicas, inflação alta e perda de renda das famílias brasileiras.
"O atacarejo era a operação mais rentável do grupo e funcionava como um colchão de resultados", explica Claudio Felisoni, presidente do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo & Mercado de Consumo. "Sem o Assaí, o Pão de Açúcar ficou exposto."
A deterioração financeira se intensificou após a venda dos hipermercados Extra, também em 2021. A partir daí, a companhia decidiu concentrar operações no segmento premium, com as bandeiras Pão de Açúcar e Mini Extra. No entanto, essa estratégia coincidiu com uma sequência de prejuízos de 2022 a 2025.
O desafio de atender ao público premium
Em meio à pressão sobre o caixa, o grupo reduziu custos em áreas consideradas essenciais para um público de maior renda. Em algumas lojas, desapareceram funções tradicionais como empacotador, e houve redução na qualidade de serviços, inclusive em áreas voltadas para cuidados com pets.
"Esse consumidor aceita pagar mais caro, mas exige experiência e atendimento diferenciados", ressalta Felisoni. "Sem isso, ele prefere o atacarejo."
A busca por uma saída: recuperação extrajudicial
Apesar das dúvidas do mercado, a atual gestão sustenta que o grupo ainda possui ativos relevantes e espaço para reconstruir seu modelo de negócios. Alexandre Santoro, executivo-chefe do GPA, afirma que a rede preserva uma base sólida de lojas e mantém o posicionamento voltado para o público de maior renda.
"Estamos construindo alternativas, mas ainda não há definição sobre o formato final", diz Santoro sobre o processo de recuperação extrajudicial, que prevê a suspensão das cobranças das dívidas bancárias por noventa dias.
Além das dívidas bancárias, o GPA carrega R$ 17 bilhões em disputas fiscais e trabalhistas. Entre os credores, o Itaú aparece como principal detentor de dívida de curto prazo, com R$ 900 milhões a receber. Há ainda R$ 500 milhões vinculados a um Certificado de Recebíveis Imobiliários e R$ 300 milhões devidos ao banco Rabobank.
Um ambiente de negócios hostil
Mesmo considerando as decisões estratégicas questionáveis, é preciso reconhecer que o ambiente de negócios no Brasil se tornou mais desafiador nos últimos anos. O varejo alimentar convive com margens estreitas, elevada carga tributária e uma complexa teia regulatória que encarece as operações.
"O Brasil tem uma carga tributária elevada sobre o varejo, o que já representa uma barreira para o setor", afirma Felipe Sant'Anna, especialista em investimentos da gestora Axia.
O custo do dinheiro é outro obstáculo significativo. A taxa básica de juros, a Selic, não fica abaixo de dois dígitos desde 2021 — justamente o último ano em que o GPA registrou lucro.
Disputa interna agrava a situação
A situação do grupo se deteriorou ainda mais no segundo semestre de 2025, quando uma disputa interna pelo controle atrasou negociações para um empréstimo de US$ 400 milhões que daria fôlego financeiro à empresa. De um lado estava o grupo ligado ao Casino; de outro, a família mineira Coelho Diniz, sem relação com Abilio Diniz, que hoje detém 25% do capital do GPA.
Enquanto aliados do Casino defendiam a contração de novas dívidas, a família Coelho Diniz apostava em negociações diretas com credores. Nesse contexto conturbado, a recuperação extrajudicial surgiu como a saída possível.
O caminho à frente: anos dedicados à reestruturação
O desafio imediato é reorganizar completamente a estrutura financeira — o próprio comando da companhia admite que 2026 e 2027 serão anos dedicados basicamente a esse esforço. Planos de expansão ficarão para um segundo momento, em um cenário onde o grupo que um dia dominou o varejo brasileiro agora precisa, antes de qualquer projeto de crescimento, garantir sua própria sobrevivência.
O processo de recuperação extrajudicial oferece uma janela de oportunidade, mas o caminho até a solução definitiva será longo e exigirá convencer credores de que a companhia tem condições genuínas de se reerguer em um mercado cada vez mais competitivo e desafiador.
