Araxá está a milhares de quilômetros dos corredores diplomáticos de Pequim e Washington, e a cerca de 600 km da Praça dos Três Poderes, em Brasília. No entanto, o que existe sob o solo do município mineiro conecta a cidade diretamente às decisões estratégicas das maiores potências mundiais. Em meio à corrida global por minerais essenciais para a transição energética, indústria de defesa e tecnologia de ponta, Araxá concentra uma das maiores riquezas minerais do planeta: cerca de 80% da produção mundial de nióbio e a única reserva oficialmente reconhecida de terras raras do Brasil, atualmente no centro da disputa geopolítica entre China e Estados Unidos.
Capital mundial do nióbio
Araxá abriga no subsolo uma das maiores jazidas minerais do mundo. A cidade é responsável por quase todo o nióbio produzido no planeta, metal estratégico utilizado no aço, na indústria automotiva, na construção civil, no setor aeroespacial e, mais recentemente, em baterias de carregamento ultrarrápido. Segundo dados do Serviço Geológico Americano, o Brasil é o principal produtor de nióbio do mundo, contribuindo com quase 90% da produção global e detendo 95% das reservas conhecidas, distribuídas em Minas Gerais, Amazonas, Goiás, Rondônia e Paraíba. Em 2019, Araxá já possuía a maior reserva de nióbio em operação do planeta, e cerca de 80% de todo o nióbio vendido no mundo era extraído da cidade e controlado pela Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM). Conforme o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o nióbio foi o quarto componente da balança de exportação mineral brasileira. Desse total, Araxá respondeu por quase R$ 2 bilhões em exportações do mineral para diversos países.
Segundo especialistas, o diferencial de Araxá não é apenas a existência da reserva, mas o modelo de exploração, que agrega valor ao minério antes da exportação, transformando a cidade em referência para o setor mineral brasileiro. Francisco Valdir Silveira, diretor de geologia e recursos minerais do Serviço Geológico do Brasil (SGB), explicou: "Araxá é uma mineração em que explora minério de nióbio e desenvolve boa parte da cadeia do nióbio. Ela tem a siderurgia, que produz nióbio a 60%, 70%, 80%, 95%. Ela agrega valor ao seu bem mineral. Não vende matéria bruta para fora. Araxá e Minas Gerais, mais uma vez, trazem um bom exemplo a ser aplicado ao setor mineral."
Terras raras: o novo ativo estratégico
Além do nióbio, Araxá está no centro das discussões sobre terras raras, um grupo de 17 elementos essenciais para a fabricação de motores elétricos, turbinas eólicas, celulares, equipamentos médicos e tecnologia militar. O Brasil tem a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. Conforme dados do SGB, Araxá possui a única reserva oficial de terras raras reconhecida no Brasil, incorporando também depósitos de nióbio de altíssimo valor estratégico. Essa combinação amplia o interesse internacional pela região. Entre 2020 e 2024, mais de R$ 7 milhões foram investidos em pesquisas sobre terras raras na região mineira do Alto Paranaíba, com Araxá concentrando 93,5% desses recursos, segundo a Agência Nacional de Mineração (ANM). Os investimentos reforçam a importância do município como província geológica estratégica.
João Antônio Vasconcelos, coordenador de economia mineral da ANM, destacou: "É um complexo geológico muito importante. Tem a questão do nióbio, do fosfato, do titânio e do mineral Anatásio. É uma região com potencial enorme e muito importante para o país." Projetos como o da mineradora australiana St. George Mining colocam Araxá no mesmo patamar de minas em operação nos Estados Unidos e na Austrália, únicas grandes produtoras fora da China — hoje responsável pela maior parte do refino mundial. Thiago Amaral, diretor de desenvolvimento da St George, afirmou: "As terras raras de Araxá se comparam a duas minas em operação contínua no mundo: uma nos EUA, na Califórnia, e outra na Austrália. Essas são as duas minas fora da China que processam terras raras e produzem para o mundo. Araxá se equivale a essas minas e, por isso, tem tudo para ser a nova produtora de terras raras para o mundo."
No início de 2026, a St. George Mining anunciou novos resultados de estudos de perfuração em Araxá, que indicam teores de até 28% de terras raras e 6,5% de nióbio. Segundo a companhia, essa combinação cria condições logísticas e operacionais altamente favoráveis, com patamares considerados excepcionais para projetos em desenvolvimento. Os novos dados de sondagem ampliam ainda mais o protagonismo de Araxá. “Confirmamos o potencial do ativo como um dos mais relevantes projetos de terras raras e nióbio em desenvolvimento no mundo”, afirmou o presidente executivo, John Prineas. Um dos destaques recentes é um furo com 178,7 metros mineralizados, o maior já registrado na área. Outros furos confirmam a continuidade da mineralização em diferentes pontos do projeto, reforçando a consistência geológica.
Uma riqueza que transforma a cidade
A mineração é o principal motor econômico de Araxá. O setor responde por cerca de 90% da arrecadação municipal, impulsiona a geração de empregos qualificados e movimenta setores como hotelaria, mercado imobiliário, comércio e serviços. Somente a Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) — royalty da mineração —, paga principalmente pela exploração do nióbio, já garantiu ao município e ao estado valores que colocam Minas Gerais como líder nacional na arrecadação desse tributo, com praticamente tudo vindo de Araxá. Em 2025, esse montante chegou a mais de R$ 14 milhões, fazendo com que Araxá, sozinha, respondesse por 41% de toda a CFEM recolhida no país.
O setor mineral tem impacto significativo na geração de empregos e atrai investimentos de grande porte. A CBMM, por exemplo, emprega mais de 2 mil pessoas diretamente e outras 3 mil indiretamente em Araxá. Recentemente, a empresa anunciou investimentos superiores a R$ 400 milhões na ampliação de sua planta industrial, com expectativa de criação de novos postos de trabalho. A St. George, somente na fase inicial de sondagem e pesquisa, já gerou cerca de 100 empregos diretos e prevê outros 400 postos de trabalho. Os investimentos da mineradora australiana em Araxá devem chegar a R$ 2 bilhões. A cadeia mineral também atrai investimentos em educação técnica, pesquisa, inovação e sustentabilidade, criando um ambiente propício para que o município se consolide como polo de tecnologia mineral e metalurgia. Fosfato, nióbio e terras raras formam um patrimônio mineral que coloca Araxá em posição de destaque no cenário mundial e impulsiona investimentos na cidade, com reflexos diretos no desenvolvimento econômico e social.
Ítalo Borges, secretário de Desenvolvimento Econômico de Araxá, explicou: "Impulsiona não só a renda, mas o desenvolvimento tecnológico. Temos a principal mineradora do mundo no segmento de nióbio instalada aqui, uma das maiores reservas minerais de nióbio do mundo. E agora estão vindo as terras raras, que aqui também têm uma reserva mineral muito significativa. Isso é revertido em saúde, sistema de segurança, educação, muitos empregos qualificados, com boa renda."
Ativo geopolítico formado há milhões de anos
Com reservas consolidadas de nióbio, fosfato e terras raras, Araxá deixa de ser apenas um símbolo do turismo histórico mineiro para ocupar posição estratégica no debate global sobre segurança energética, transição verde e soberania mineral. Em um mundo cada vez mais dependente desses elementos, o que está sob o solo araxaense não é apenas riqueza — é poder, influência e futuro. Tudo começou no século 20, com a primeira descoberta de minerais essenciais em Araxá, logo após a Segunda Guerra Mundial. A exploração do fosfato começou no início da década de 1970, e o nióbio veio pouco tempo depois. Alexandre Reple, diretor da CBMM, explicou: "A jazida de Araxá foi formada no antigo vulcanismo. Era um vulcão de mais ou menos 100 milhões de anos. Por erosão, foi acumulando nióbio e transformou Araxá numa reserva das mais importantes do mundo de minério. Aqui em Araxá, transformamos nossa reserva numa reserva de classe mundial."



