Tarifaço de Trump eleva custos de empresas médias e encarece o bolso do consumidor americano
Estudos recentes identificam os setores e elos mais atingidos pela política comercial agressiva do presidente Donald Trump e indicam que o maior ônus recai sobre a própria economia americana. Em teoria, as tarifas punem estrangeiros, mas na prática funcionam como um tributo recolhido no próprio território, com impactos significativos nas empresas de médio porte e nas famílias.
Impacto desproporcional nas empresas de médio porte
O estudo do JPMorgan Chase Institute concentra-se no chamado "middle market": empresas com faturamento anual entre US$ 10 milhões e US$ 1 bilhão. Longe de serem marginais, elas respondem por cerca de um terço da receita e do emprego do setor privado americano. Quase metade dessas empresas importa bens, com 20,9% das importações vindas da China em 2022, proporção superior à média das empresas americanas como um todo (17,7%).
O resultado é uma assimetria preocupante: as médias empresas foram desproporcionalmente atingidas pelas tarifas mais elevadas, concentradas na Ásia. Além da maior exposição ao parceiro asiático, há também uma volatilidade regulatória significativa. Desde o início de 2025, alíquotas foram anunciadas, suspensas e renegociadas com rapidez incomum, criando incertezas que são quase tão onerosas quanto as tarifas em si para empresas que operam com contratos de fornecimento e margens estreitas.
Repasse inevitável para os consumidores
O segundo estudo, conduzido pelo Kiel Institute for the World Economy, analisou mais de 25 milhões de registros de remessas, totalizando cerca de US$ 4 trilhões em importações. A conclusão é alarmante: praticamente todo o custo das tarifas foi pago por consumidores americanos. A mecânica é previsível: o importador paga a tarifa na alfândega, o custo entra no balanço e, diante de margens limitadas, a empresa decide entre absorver o impacto ou repassá-lo.
Evidências das rodadas tarifárias de 2018 e 2019 indicam que o repasse foi a fórmula predominante, e o padrão se repete agora. Os setores mais expostos são comércio atacadista e varejista, conhecidos por margens comprimidas, o que limita sua capacidade de absorver custos adicionais e aumenta a probabilidade de repasse.
Efeitos colaterais e ineficiências econômicas
Para o instituto alemão, o problema não é apenas o imposto em si, mas os efeitos colaterais que ele desencadeia. Com preços mais altos, os consumidores deixam de comprar o que preferem e migram para opções menos atraentes. As empresas, por sua vez, gastam tempo e recursos reorganizando fornecedores e rotas de produção.
Esses ajustes não geram riqueza nova; apenas mitigam o dano causado pela tarifa. É essa ineficiência – a perda que não se transforma em arrecadação nem em lucro – que os economistas chamam de "perda de peso morto". Além disso, não há evidência de que exportadores estrangeiros estejam dispostos ou aptos a internalizar o custo das tarifas, pois a lógica de mercado os incentiva a buscar alternativas mais vantajosas em outros destinos.
Contexto da política tarifária de Trump
O pano de fundo é a retomada agressiva da política tarifária sob o governo de Donald Trump, que elevou alíquotas sobre parceiros comerciais estratégicos, com destaque para a China. Após anúncios em abril de 2025, as tarifas chegaram a níveis proibitivos – 145% no caso chinês – antes de serem parcialmente recuadas para 55%. Ainda assim, permanecem acima das taxas impostas a qualquer outro grande parceiro comercial.
O Kiel Institute aponta três fatores que explicam o comportamento dos exportadores:
- A existência de mercados alternativos relevantes
- A inviabilidade econômica de compensar tarifas elevadas apenas com descontos
- A expectativa de que as medidas possam ser temporárias ou renegociadas
Em outras palavras, a barganha tarifária tem limites claros quando o mercado global oferece opções competitivas, deixando a economia americana arcar com as consequências de suas próprias políticas protecionistas.



