Mães de santo: liderança e acolhimento nas religiões de matriz africana
Mães de santo: liderança e acolhimento nos terreiros

A figura da "mãe" nos terreiros de religiões de matriz africana vai além do parentesco biológico. As mães de santo simbolizam acolhimento, liderança espiritual e são referência para toda a comunidade religiosa. Além de exercerem funções essenciais nos terreiros, elas acompanham de perto a trajetória dos "filhos de santo", sendo chamadas de mães por sua dedicação e orientação. No Dia das Mães, celebrado neste domingo (9), essas lideranças ganham destaque pelo papel de formação e amparo dentro das casas de axé.

Dependendo das responsabilidades que assumem, as mães de santo podem ocupar diferentes cargos. "Falar sobre mãe, que é uma segunda mãe, é falar sobre a importância do acolhimento, do poder, do ensinamento. Eu sou filha de Oxum, e Oxum nos ensina que a gente é a mãe do amor, da fertilidade", conta Larissa de Oxum, do terreiro Roça Oxaguiã Oxum Iponda, localizado no bairro do Córrego do Jenipapo, na Zona Norte do Recife.

Larissa é iyapetebí, função que envolve cuidado, acolhimento e proteção dos afilhados, além de dar suporte diário às atividades da casa. Esse papel reforça a presença constante de uma figura feminina de orientação e amparo dentro da estrutura do terreiro. "Oxum me ensina que eu sou forte, que vivemos em um mundo que é tão cruel com mulheres. Então, a gente tem que mostrar a nossa força e que possamos nos unir à nossa ancestralidade feminina e ao poder que cada mulher tem", afirma Larissa.

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

No terreiro Roça Oxaguiã Oxum Iponda, as mulheres são maioria na divisão dos cargos, como explica Mércia Gadelha, filha da casa. "O terreiro é como se fosse uma família tradicional. Tem mãe, tem pai, tem madrinha", conta.

Na casa das Iyás

No terreiro frequentado por Mércia, funções como a de madrinha da casa, que cuida da alimentação e da comunicação, são todas ligadas ao termo "Iyá" ou "Yá". De origem iorubá, a palavra significa "mãe" e é usada para designar figuras de liderança e autoridade feminina, reforçando o matriarcado presente nessas tradições. As responsáveis pela comida, por exemplo, são chamadas de iabassê, reconhecidas como as "cozinheiras dos orixás". Já as que cuidam da comunicação e das questões sociais do terreiro são as iyaegbé, atuando como principais conselheiras da ialorixá ou do babalorixá.

"A casa é regida por mulheres. Yá é um termo que traduz 'mãe'. Eu tenho mais de 10 anos de feita na casa e uma hora a gente vira yá. Primeiro a gente é irmã mais velha, depois a gente vira yá. Então, assim, é um prazer muito grande para a gente saber e respeitar, porque as yás que nós temos aqui traduzem respeito", conta Mércia.

Para Júnior de Ajagunã, babalorixá do terreiro, a presença das mulheres é central para a estrutura e a força espiritual da casa, especialmente nas tradições ligadas às yabás, orixás femininas. "Essa relação das yabás, das mulheres, vem do culto aos orixás Nanã, Yewa, Oxum, Iemanjá, Iansã, que são as yabás, as mulheres que protegem. [...] Sem a mulher dentro do culto, não existe o axé positivo", disse.

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar