No interior de São Paulo, uma área alagada se transformou em um santuário ecológico que abriga uma vasta biodiversidade. Conhecido como Tanquã, o local é chamado de 'minipantanal paulista' devido à semelhança com a maior planície alagável contínua do mundo. Diferentemente do Pantanal, porém, o Tanquã não é natural: surgiu como resultado 'inesperado' da construção da barragem da Usina Hidrelétrica de Barra Bonita, no Rio Tietê, em 1960. O enchimento da barragem, em 1963, represou o Tietê e reduziu a velocidade das águas do rio Piracicaba, formando a área alagada que deu origem ao Tanquã.
Raio-X do Tanquã
Atualmente, o Tanquã abriga centenas de espécies de aves e peixes, conferindo potencial turístico à região. No entanto, sua localização no interior do estado mais industrializado do país cobra seu preço. Em 2024, um despejo irregular de resíduos industriais matou cerca de 253 mil peixes. O g1 percorreu de barco o santuário ecológico para conhecer sua riqueza ambiental e montou um raio-x do local:
- Abrange seis cidades de São Paulo
- Área de 140,5 km², equivalente a quase 20 mil campos de futebol padrão Fifa
- Cerca de 69% da área é formada por corpos d’água
- 44% maior que Vitória (ES) e 33% maior que Paris
- Abriga 435 espécies de animais e 361 espécies vegetais
Criação: o remanso
No encontro das águas do rio Piracicaba com as águas da represa no Tietê ocorreu o fenômeno chamado 'remanso', caracterizado pela diminuição da velocidade da água e pelo acúmulo de sedimentos. É como se a água do Piracicaba 'voltasse', já que a do Tietê está represada. Esse processo deu origem a uma ampla área alagável, rica em biodiversidade, com lagoas, meandros e canais. A explicação é do professor Flávio Betin Gandara, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP), de Piracicaba. 'No caso da barragem de Barra Bonita, houve impactos negativos, como o alagamento de florestas, mas também o impacto positivo do Tanquã, que na época nem se pensou que aconteceria. Não se levantou a possibilidade, mas ficou claro que foi um impacto positivo', afirma. Outros pontos negativos apontados pelo professor são a redução de solos férteis e o deslocamento de animais e moradores para a construção da barragem.
Anísio Evangelista, de 95 anos, foi para o Tanquã antes da área alagada existir. Ele trabalhou no corte das florestas para a construção da barragem e depois fixou moradia. 'A barragem vinha vindo devagar. É uma coisa muito grande, não enche de uma vez, veio vindo devagar, devagar, até chegar aqui', conta o aposentado.
Tanquã maior que Paris
O Tanquã serve de berçário para peixes, abriga 290 espécies de aves e é moradia de famílias que vivem da pesca. O local também atrai turistas do Brasil e do exterior em busca de ecoturismo e observação de aves. Em 2018, o Tanquã foi reconhecido como Área de Proteção Ambiental (APA), com 140,5 km² — equivalente a quase 20 mil campos de futebol padrão Fifa. Cerca de 69% da área é formada por corpos d’água. O Plano de Manejo da APA do Tanquã catalogou 290 espécies de aves, 89 de peixes, 25 de anfíbios, 19 de mamíferos, 12 de répteis e 361 espécies de vegetais. A APA se estende por seis municípios: Anhembi, Botucatu, Dois Córregos, Piracicaba, Santa Maria da Serra e São Pedro. O território inclui trecho do curso do rio Piracicaba, áreas de várzea, vegetação nativa e o reservatório de Barra Bonita. Além disso, o local é 44% maior que Vitória (ES) e 33% maior que Paris.
Ecoturismo
Turistas de diversas partes do mundo, principalmente da América do Norte, percorrem o Tanquã para praticar observação de aves (birdwatching), hobby de identificar, fotografar e registrar aves no habitat natural. O guia de turismo Demis Bucci, de 42 anos, dedica-se a essa atividade há 15 anos e explica que a escolha pelo minipantanal paulista envolve fatores como proximidade com a capital paulista, semelhança com o Pantanal e presença de espécies raras de aves, como marrecos, patos, saracuras e sanãs-amarela. 'Observação de aves é um hobby que eles [estrangeiros] levam muito a sério lá fora, é como torcer por um time de futebol. Algumas espécies não são fáceis de ver, e ali você vê de maneira mais fácil. Essas espécies-chave fazem a gente se deslocar até o Tanquã', conta.
Os guias e turistas contam com o trabalho de barqueiros como Ivanildo Pereira, de 53 anos, que faz do ecoturismo e da pesca o ganha-pão. Ivanildo é um 'ornitólogo' por natureza: está há mais de duas décadas no local e reconhece de longe as grandes e pequenas aves que atraem os observadores. Ele coloca gasolina no barco, colete nos turistas e pilota o passeio, que pode durar de uma a três horas. Segundo Ivanildo, o período entre agosto e fevereiro é o mais procurado, para observação de aves migratórias.
Os pequenos na imensidão
O Tanquã conta com algumas vilas de pescadores em diversas cidades. A que Ivanildo mora fica no lado piracicabano, onde vivem cerca de 12 famílias. O número já foi maior, mas vem caindo ao longo dos anos, acelerado após a mortandade de mais de 253 mil peixes em junho de 2024. Uma usina de cana-de-açúcar foi apontada como responsável pelo despejo irregular de resíduos que causou o dano ambiental. 'Alguns foram para a cidade, para sítios, fazenda... mas o impacto da mortalidade prejudicou bastante os moradores. Os que moram aqui ainda pescam, mas não tem aquela quantidade de peixe de antes. Quando fecha a pesca, alguns vão trabalhar na roça. Mas a maioria da renda é a pesca', conta o barqueiro. Desde 2025, o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) está em tratativas, ainda sem sucesso, com a Usina São José para reparar os danos ambientais e indenizar os pescadores afetados. Embora a companhia negue a culpa direta e aponte problemas históricos de poluição na região, ela participa das tratativas para converter penalidades em ações de recuperação.
Como chegar até o Tanquã
O g1 foi até o local e fez um passeio de barco de uma hora. O dia estava nublado, mas os passeios são suspensos em caso de chuva. É possível ir por conta própria, mas o serviço de guias e agências especializadas em ecoturismo pode tornar a visita mais proveitosa para conhecer as lagoas, trilhas e a área navegável. Apesar de parte do Tanquã ser território de Piracicaba, o local fica a uma hora de carro do centro da cidade. Há um bar na vila de pescadores, de fácil acesso, mas o ambiente carece de estadias para turistas. O guia Demis Bucci conta que é comum que profissionais façam roteiros próprios, que podem incluir deslocamento até o Tanquã, passeios na região e até estadia em Anhembi, centro urbano mais próximo da vila.



