PIB cresce em 2025, mas brasileiros relatam aperto no orçamento e perda de poder de compra
PIB cresce, mas brasileiros sentem aperto no orçamento

Economia brasileira avança, mas população sente aperto no bolso

O Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil registrou crescimento em 2025, marcando o quinto ano consecutivo de expansão econômica. No entanto, para milhões de brasileiros, a realidade do dia a dia continua sendo de contas apertadas e sensação de que o dinheiro não rende o suficiente até o final do mês.

Descompasso entre indicadores macroeconômicos e realidade familiar

Enquanto o país comemorava a menor taxa de desemprego da história, de apenas 5,6% na média anual, e um rendimento real recorde de R$ 3.560, as famílias precisaram fazer ajustes significativos em seus orçamentos. A diretora de escola Cibelle relata que, mesmo com a renda familiar estável, foi necessário controlar rigorosamente cada gasto para não comprometer as finanças domésticas.

"As contas ficaram mais pesadas, principalmente no supermercado", afirma Cibelle, que reduziu idas a restaurantes, cortou gastos com lazer, diminuiu o uso do cartão de crédito e precisou recorrer a reservas antigas para cobrir despesas do cotidiano.

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Inflação e juros altos pressionam o consumo

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) fechou 2025 em 4,26%, o melhor resultado desde 2018. No entanto, especialistas alertam que isso significa apenas que os preços subiram mais lentamente, não que tenham caído. Para controlar a alta de preços, o Banco Central elevou a taxa básica de juros em 2,25 pontos percentuais ao longo do ano, chegando a 15% no final de 2025 - o maior patamar em quase duas décadas.

Segundo a economista Silvia Matos, coordenadora do boletim Macro do FGV Ibre, esses dois fatores funcionaram como um "freio" na economia, afetando principalmente a compra de bens duráveis e setores dependentes de crédito.

Endividamento atinge quase metade da população adulta

Dados da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) revelam que, em dezembro de 2025, 73,5 milhões de consumidores estavam negativados, o equivalente a quase 45% da população adulta brasileira. O cartão de crédito continua sendo um dos principais responsáveis por essa situação.

O procurador do Estado Jayme Asfora classifica as taxas como "escorchantes e abusivas", tendo chegado a quebrar seus cartões e abrir mão de viagens familiares diante dos altos custos. "Os juros já estão altos, mas os do cartão de crédito são ainda maiores. É absurdo não haver uma intervenção estatal mais efetiva sobre isso", critica.

Impactos diferenciados por faixa de renda

A auxiliar de limpeza Edivânia sente a pressão nas despesas mais básicas, com contas de luz e água ficando mais difíceis de pagar. Já a aposentada Maria Madalena precisou trocar a carne bovina por frango, comprar queijos mais baratos e usar parcelamento no cartão para fazer a renda durar o mês inteiro.

Em faixas de renda mais altas, o aperto aparece de forma menos imediata, mas igualmente persistente. O psicólogo Mauro manteve a renda estável, mas viu crescerem as despesas com plano de saúde e procedimentos não cobertos pelas operadoras, precisando reduzir consumo de itens não prioritários e deixar de viajar.

Crescimento desigual entre setores econômicos

O crescimento da economia não tem sido homogêneo. Enquanto setores como tecnologia e finanças contrataram mais, áreas dependentes de crédito, como construção civil e parte da indústria, enfrentaram maiores dificuldades. A agropecuária avançou mais de 10% em 2025, impulsionada principalmente por exportações, compensando parte da perda de dinamismo em setores voltados ao mercado interno.

Segundo Juliana Trece, coordenadora do Núcleo de Contas Nacionais do FGV Ibre, "o efeito da política monetária não é igual para todos os setores". Enquanto indústria e construção sofrem mais por dependerem de crédito, a agropecuária depende mais do clima e da demanda externa.

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Perspectivas para 2026 com incertezas

Para 2026, economistas preveem desaceleração, com crescimento semelhante ou até menor que o de 2025. A agropecuária, que teve desempenho excepcional no ano passado, não deve repetir o mesmo ritmo. O ambiente eleitoral amplia as incertezas sobre o rumo das contas públicas e pode levar empresários a adiar investimentos.

Silvia Matos adota tom cauteloso: "O ano de eleição traz dúvidas, e isso costuma adiar decisões". Além disso, mesmo que o Banco Central comece a reduzir os juros, o efeito não será imediato no crédito ao consumidor e nos financiamentos empresariais.

Enquanto isso, brasileiros de diferentes faixas de renda continuam ajustando seus hábitos de consumo, priorizando itens essenciais e buscando alternativas para equilibrar orçamentos cada vez mais pressionados pela inflação e pelos juros elevados.