Dólar em queda e Bolsa em alta em sessão de volatilidade global
O dólar registra forte queda nesta terça-feira (17), estendendo as perdas da véspera quando recuou mais de 1%. Às 14h50, a moeda norte-americana apresentava desvalorização de 0,9%, sendo cotada a R$ 5,183. Em movimento inverso, a Bolsa de Valores brasileira mostrava alta expressiva de 0,94%, alcançando a marca de 181.566 pontos no Ibovespa.
Tensões geopolíticas no Oriente Médio impactam mercados
Os investidores seguem atentos aos novos desdobramentos do conflito entre Irã e Israel. Nesta madrugada, forças israelenses afirmaram ter eliminado Ali Larijani, chefe de segurança iraniano considerado o principal operador do regime. Teerã ainda não se pronunciou oficialmente sobre o ataque.
Larijani representa a figura mais importante alvejada por Israel desde o início da guerra em 28 de fevereiro, quando ofensivas conjuntas com os Estados Unidos resultaram na morte de Ali Khamenei, que comandava o Irã há 37 anos.
Enquanto isso, as forças iranianas continuam atacando aliados americanos na região do Golfo Pérsico. O terceiro ataque em apenas quatro dias no porto de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos, provocou a interrupção do carregamento de petróleo no terminal. As operações no campo de gás Shah também permanecem suspensas.
Impacto no mercado de petróleo e na economia global
Os centros de exportação dos Emirados Árabes Unidos, terceiro maior produtor da OPEP, estão localizados no Golfo que foi efetivamente isolado pelo estrangulamento do Estreito de Hormuz. Esta via marítima estreita entre Irã e Omã normalmente escoava um quinto do suprimento mundial de petróleo.
As interrupções em cascata ameaçam bloquear completamente o canal remanescente de exportação de petróleo bruto na região. Fujairah, que fica fora do Estreito de Hormuz e normalmente processa mais de 1 milhão de barris diários do petróleo Murban, opera com capacidade reduzida.
Desde o início do conflito, a produção diária nos Emirados Árabes Unidos caiu mais da metade, forçando a gigante estatal Adnoc a interromper operações. O preço do petróleo Brent, referência mundial, chegou a aproximar-se de US$ 105 na madrugada, registrando alta de 2% à tarde para US$ 102,3. O WTI (West Texas Intermediate), usado nos EUA, valorizou 1,85% para US$ 95.
Decisões de política monetária em foco
O mercado acompanha simultaneamente o início das reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central brasileiro e do Fed (Federal Reserve) dos Estados Unidos, que definirão as taxas de juros nos dois países.
Expectativas para o Fed e impacto no dólar
O índice DXY, que mede a força do dólar ante uma cesta de seis divisas fortes, caía 0,15% para 99,56 pontos, refletindo uma sessão de desvalorização global da moeda norte-americana.
"O real é uma das moedas latinas que melhor tem resistido à turbulência que os mercados emergentes vêm enfrentando nas últimas semanas", analisa Matthew Ryan, chefe de estratégia de mercado da Ebury. "Como exportador de petróleo, o Brasil deve ser capaz de absorver melhor um eventual aumento da inflação decorrente do conflito no Oriente Médio."
As tensões geopolíticas têm afetado diretamente as previsões de política monetária. O mercado já estima que o Fed manterá os juros na faixa de 3,5% a 3,75% até julho, com chances de manutenção na reunião desta quarta-feira calculadas em 99,2% pela ferramenta FedWatch.
"O petróleo mais caro tende a pressionar as expectativas de inflação global, principalmente em economias desenvolvidas, o que pode reduzir o espaço para cortes de juros mais rápidos pelo Fed", observa Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital.
Divergências sobre decisão do Copom
Em relação ao Copom brasileiro, não há consenso entre os operadores. Bancos que projetavam corte de 0,5 ponto percentual passaram a prever:
- Juros estáveis em 15% ao ano
- Redução mais modesta de 0,25 ponto percentual
A mudança mais significativa veio da XP, que agora prevê manutenção da taxa Selic em 15%, antecipando uma "abordagem mais cautelosa" pelo colegiado.
"O fluxo de dados e notícias desde a última reunião do Copom piorou o cenário para a inflação", afirma a XP em nota assinada pelo economista-chefe Caio Megale.
Na avaliação do BNP Paribas, o Copom poderia "até mesmo adiar o início do ciclo de afrouxamento para a reunião de abril, quando as autoridades presumivelmente teriam mais clareza tanto sobre a atividade doméstica quanto sobre a geopolítica".
Entre 27 instituições consultadas pela Bloomberg:
- 10 apostam em corte para 14,5% ao ano (consenso anterior à guerra)
- 16 preveem redução para 14,75%
- 1 projeta manutenção em 15%
"Essa mudança tende a ser positiva para o real, pois sugere juros mais elevados por mais tempo, o que favorece os rendimentos dos títulos do Tesouro Nacional e contribui para sustentar a moeda", analisa Lucca Bezzon, analista de inteligência de mercado da Stonex.



