Classe C atinge recorde de 130 milhões, mas Brasil enfrenta armadilha da renda média
Classe C bate recorde, mas país fica preso em armadilha da renda

Classe C brasileira atinge marca histórica de 130 milhões de pessoas

A classe média brasileira, composta por indivíduos com renda entre R$ 2.526 e R$ 10.885 mensais, alcançou um número recorde de 130 milhões de pessoas em 2024, representando 61% da população total do país. Este crescimento significativo, que retoma após períodos de estagnação durante as recessões de 2015 e a pandemia, reflete um processo de mobilidade social onde milhões de brasileiros ascenderam na escala de rendimento.

Fatores por trás da expansão da classe C

O principal motor deste avanço é o mercado de trabalho aquecido, com níveis recordes de ocupação. Contudo, diferentemente do ciclo dos anos 2000, que se apoiava no emprego formal e na indústria, a mobilidade atual também é impulsionada pelo empreendedorismo. Autônomos, microempreendedores individuais e trabalhadores por aplicativos, como motoristas e entregadores, passaram a compor uma fatia relevante do contingente que ascendeu nos últimos anos.

Segundo cálculos do economista Marcelo Neri, pesquisador do Centro de Políticas Sociais da FGV Social, entre 2022 e 2024, 17 milhões de brasileiros migraram para faixas de rendimento superiores. "É um grupo que cresceu muito, mas ficou travado nas recessões de 2015 e na pandemia", afirma Neri. "Agora está avançando novamente, e em ritmo até mais acelerado do que antes."

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Perfil transformado e expectativas crescentes

A nova classe C que emerge deste ciclo não apenas inclui novos grupos, mas também consolida uma geração que já nasceu neste estrato, mais escolarizada, hiperconectada e menos conformada com a baixa qualidade de vida. A proporção de brasileiros nas classes D e E caiu para o menor índice da história: 22% da população, equivalente a 46 milhões de pessoas.

Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva, observa: "Os mais velhos ficaram com um pé atrás depois de melhorarem de vida e perderem muita coisa nas crises seguintes. Os mais novos não passaram fome, como os pais, e querem mais." Esta recalibração de expectativas e valores, incluindo a cultura do "fazer por conta própria" e a influência da reconfiguração religiosa, resulta em uma classe C mais exigente.

O paradoxo da armadilha da renda média

Apesar do crescimento numérico, a mobilidade social para classes superiores evolui de forma lenta. A passagem da classe C para a B ocorre quase a conta-gotas, com os estratos A e B somando apenas 17% da população, ou 36 milhões de pessoas. "A classe C deveria ser uma etapa transitória, um trampolim para padrões de vida mais elevados", ressalta Marcelo Neri.

O Brasil encontra-se preso na chamada armadilha da renda média, situação em que um país deixa a pobreza para trás, mas não consegue se tornar desenvolvido. Comparações internacionais ilustram este desafio: enquanto a classe média americana começa em aproximadamente R$ 26.000 mensais, o teto da classe C brasileira está abaixo de R$ 11.000.

Desafios estruturais e perspectivas futuras

As razões para esta lentidão são bem conhecidas pelos especialistas:

  • Baixa produtividade, travada por formação educacional inadequada
  • Deficiências na capacitação profissional
  • Infraestrutura precária
  • Pouca inovação na maioria das empresas
  • Ambiente de negócios hostil e Estado ineficiente

Samuel Pessôa, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas, afirma: "Nos últimos 125 anos, nossa renda per capita nunca ultrapassou um quinto da renda dos Estados Unidos. E, no ritmo atual, a diferença permanecerá inalterada."

Algumas reformas recentes, como a trabalhista de 2017 e a tributária de 2023, além do avanço das concessões em saneamento e transporte, acenam com melhorias. No entanto, seus efeitos são demorados e insuficientes para alterar significativamente o panorama atual.

Reflexos políticos e sociais

O descompasso entre expectativas crescentes e resultados econômicos modestos ajuda a explicar o humor crítico que predomina no país. A inflação elevada de itens básicos como alimentação e moradia, aliada a recordes de endividamento das famílias, diminui o impacto dos ganhos salariais.

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Márcia Cavallari, diretora do instituto de pesquisas Ipsos-Ipec, identifica outro elemento crucial: "A classe C continua com maioria petista, mas em proporção bem menor do que no passado. Ela evoluiu e passou a querer outras coisas." A erosão da confiança nas instituições democráticas também se manifesta, com pesquisas mostrando que 30% a 40% dos brasileiros dizem não se importar com a eventual troca da democracia por outro sistema.

O Brasil vive, portanto, um paradoxo evidente. A expansão da classe C representa um avanço social notável em um país historicamente marcado pela pobreza estrutural, mas falta ao país dar o próximo passo. Fazer esta base subir de andar, alcançando padrões de renda e bem-estar comparáveis aos das nações ricas, permanece como desafio em aberto, sem sinais claros de que será superado no curto prazo.