Mãe solo adota crianças autistas e vende salgados para sustentá-los no Acre
Mãe solo adota crianças autistas e vende salgados no Acre

Uma história de amor e superação emociona o Acre. A professora Maria Lúcia Souza Saraiva, de 47 anos, mãe solo, adotou dois meninos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e sustenta a família com a venda de salgados no município de Tarauacá, interior do estado. Diagnosticada com lúpus, que a impediu de ter filhos biológicos, ela encontrou na adoção o caminho para realizar o sonho da maternidade.

O sonho da maternidade realizado pela adoção

“Adotar é um gesto de amor que não vem do útero, vem do coração e mudou completamente a minha vida. O lúpus tirou o meu sonho de ser mãe após três abortos espontâneos, mas os meninos vieram para me tornar a mãe que sou hoje”, afirma Maria Lúcia. Ela mora com Francisco Wriel de Lima Oliveira, de 11 anos, e Adriel Ravi Souza Saraiva, de 8, ambos autistas.

A primeira adoção ocorreu em outubro de 2014, quando Wriel era bebê. Maria Lúcia, que tem formação em educação especial, percebeu sinais de desenvolvimento atípico e buscou acompanhamento, obtendo o diagnóstico de autismo. Em 2017, decidiu adotar novamente e chegou Adriel Ravi, também no espectro autista, que ainda apresenta distúrbio do sono.

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Rotina de dedicação e empreendedorismo

Desde o divórcio, Maria Lúcia cuida sozinha dos filhos. Ela acorda por volta das 4h para preparar os salgados que vende ao longo do dia. Depois, organiza a casa, leva as crianças para a escola e terapias, tudo de motocicleta. “Eu sou mãe, pai, motorista, terapeuta. Eu sou tudo e eu tenho que dar conta. Apesar da correria, não troco minha rotina com meus filhos por nada”, diz.

Com o lúpus impossibilitando o trabalho em sala de aula, ela empreendeu. Durante a pandemia, começou vendendo churrasquinho delivery, mas o desgaste físico a levou a criar a “Oficina do Sabor”, uma pequena fábrica de salgados na cozinha de casa. Hoje, o negócio é a principal fonte de renda, produzindo de 600 a 700 salgados por dia para eventos na cidade.

Com a ajuda do irmão, adquiriu uma máquina modeladora industrial, que automatiza a produção de coxinhas, bolinhas de queijo e rissoles, aumentando a produção e melhorando as condições de trabalho. “Trabalham na fábrica: eu, a esposa do meu irmão e uma ajudante. Fornecemos salgado para toda cidade”, conta.

Desafios e superação

A trajetória foi marcada por dificuldades. Em 2018, mudou-se para Rio Branco e chegou a dormir com os filhos em um espaço improvisado dentro de um restaurante onde trabalhava. “Foi a única vez que pensei em desistir. Tinha ido para a capital em busca de tratamento para eles, e não tinha assistência gratuita, precisava pagar as terapias”, lembra.

Ela também enfrentou obstáculos para conseguir benefícios sociais, recorrendo à Justiça após negativas devido a erros cartorários na retificação do nome das crianças. “Eles erram sobrenome, depois a escrita correta, foi luta”, diz.

Mesmo sendo mãe solo, Lúcia destaca o apoio da família. “A gente vive como uma grande família. Meus filhos são cuidados por todos. Vim de um lar com amor e meus filhos têm afeto da avó, tios e primos”, afirma.

O maior sonho: segurança e futuro

Atualmente, o maior objetivo é concluir a reforma da casa onde vive com os filhos. O imóvel inacabado traz preocupações, especialmente com Adriel Ravi, que tem o hábito de fugir. Nos fundos, há um igarapé. “Meu maior sonho hoje é terminar minha casa para dar mais segurança para eles. Já cansei de ver os vizinhos trazendo o Ravi, pois ele foge e morro de medo de acontecer algo”, comenta.

No Dia das Mães, a celebração ganha significado especial. Maria Lúcia costuma levar os filhos a abrigos para incentivar a solidariedade. “Eu ensino eles a dividir, a olhar para quem precisa. Juntamos brinquedos e fazemos doação, eles ficam felizes e me sinto realizada. Meus filhos me ensinaram o verdadeiro amor. Hoje eu sou feliz”, conclui.

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