Ponte da Rota Bioceânica enfrenta atrasos e pode ter inauguração postergada
A tão aguardada inauguração da Ponte Internacional da Rota Bioceânica, que conectará Porto Murtinho, em Mato Grosso do Sul, a Carmelo Peralta, no Paraguai, inicialmente prevista para agosto de 2026, corre o risco de ser adiada. Os motivos para esse possível atraso incluem obras incompletas no acesso terrestre, a ausência de uma alfândega brasileira e diversas pendências regulatórias que ainda precisam ser resolvidas entre os países envolvidos.
Estrutura da ponte avança, mas acessos terrestres travam cronograma
De acordo com informações do Governo de Mato Grosso do Sul, aproximadamente 90% da estrutura da ponte sobre o rio Paraguai já está concluída, restando cerca de 100 metros para finalizar a obra principal. No entanto, o grande entrave está no acesso por terra que ligará a ponte à BR-267, no lado brasileiro.
O secretário da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc), Jaime Verruck, explicou que a obra de acesso, com 13 quilômetros no território brasileiro, está atrasada e depende de recursos federais. "Nós tivemos um atraso. Não termina este ano, não tem previsão e nós temos uma preocupação efetiva sobre o fluxo de recurso", afirmou Verruck.
O secretário estima que o acesso por terra possa ser concluído apenas no segundo semestre de 2027, desde que haja uma alocação adicional de recursos no orçamento da União. "Precisamos, no orçamento da União, fazer uma alocação adicional de recurso para que a gente dê continuidade no cronograma previsto", completou.
Alfândega e harmonização regulatória são desafios adicionais
Além do acesso terrestre, o Brasil ainda precisa construir uma alfândega no local, com custo estimado em R$ 200 milhões. Paralelamente, será necessário unificar regras e procedimentos aduaneiros entre Brasil e Paraguai para evitar atrasos no transporte de cargas.
Verruck alertou sobre a importância dessa harmonização: "Se nós tivermos hoje a forma que as alfândegas funcionam, vamos perder todo aquele tempo dos 22 dias que ganhamos em termos de tempo de rota no mar". Ele também destacou a necessidade de criar um sistema ágil para facilitar a entrada de cargas, evitando que mercadorias fiquem paradas por longos períodos durante a fiscalização.
Em um cenário considerado otimista pelo governo estadual, os primeiros caminhões poderão circular pela rota em Mato Grosso do Sul dentro de aproximadamente um ano e meio, desde que as rodovias existentes passem pelas adequações necessárias.
Campo Grande se prepara para se tornar centro logístico
Com a perspectiva de conclusão da ponte, Campo Grande planeja se transformar em um importante centro logístico da Rota Bioceânica, com a instalação de portos secos, centros de distribuição e armazéns. Para atrair empresas, a prefeitura está atualizando leis e regras municipais.
Uma das mudanças já implementadas foi no Programa de Desenvolvimento Econômico e Social (Prodes). Agora, empresários que se instalarem em polos industriais poderão ficar com os terrenos cedidos pela prefeitura após dez anos, desde que cumpram metas estabelecidas. Anteriormente, essas áreas precisavam ser devolvidas ao município.
O economista Michel Constantino defende que outras leis também precisam ser modernizadas: "O que ela pode fazer? Mudar algumas leis, por exemplo, leis ambientais, leis em questão do solo, de uso do solo, para poder atrair mais essas empresas". Ele argumenta que as empresas atuais possuem processos produtivos diferenciados e que é preciso atualizar legislações antigas para criar um ambiente de negócios mais favorável.
A Agência Municipal de Meio Ambiente e Planejamento Urbano (Planurb) já abriu consulta pública para atualizar a lei de uso e ocupação do solo. Após essa etapa, a proposta precisará ser enviada à Câmara Municipal para votação.
O presidente da Câmara Municipal, vereador Epaminondas Neto (PSDB), afirmou que a votação pode ocorrer ainda no primeiro semestre de 2026, caso o projeto chegue a tempo. "Se chegar, eu pretendo botar até o primeiro semestre, porque a gente já poderia avançar e concluir essa tarefa. [...] essas atualizações elas precisam ser feitas", explicou o parlamentar.
Importância estratégica da Rota Bioceânica
A ponte faz parte do Corredor Rodoviário de Capricórnio, conhecido como Rota Bioceânica, que vai ligar portos do Brasil aos do Chile, passando pelo Paraguai e pela Argentina. O objetivo principal é criar uma nova alternativa para o transporte de produtos, reduzindo significativamente a distância e o tempo das exportações brasileiras para a Ásia.
A expectativa é que o corredor reduza em mais de 9,7 mil quilômetros a distância marítima até a Ásia. Em viagens para a China, por exemplo, o tempo de transporte pode cair entre 12 e 17 dias, representando uma redução de aproximadamente 23% no tempo total.
Além da ponte, também devem ser construídas estruturas alfandegárias integradas nos dois lados da fronteira. Segundo a Receita Federal, a previsão inicial é de circulação de 250 caminhões por dia, com expectativa de aumento conforme a rota se consolide como um novo corredor de comércio entre países do Mercosul e da Ásia.



