
O que acontece quando aqueles que deveriam ser os guardiões dos direitos humanos precisam gritar dentro de sua própria casa? É isso que está em jogo no Palais Wilson, sede do Alto Comissariado em Genebra. Uma insurreição moral – silenciosa, porém devastadora – está em curso.
Mais de uma dezena de funcionários, esses sim anônimos, estão literalmente colocando suas carreiras na linha. Redigiram um documento explosivo. E o conteúdo? Um apelo direto, quase desesperado, para que Volker Türk, o chefe da pasta, finalmente nomeie a tragédia em Gaza pelo que ela realmente é: genocídio.
Um Ato de Consciência Coletiva
Não se engane. Isso não é um mero memorando interno. É um grito de socorro vindo de dentro da máquina. Esses profissionais, que veem os relatórios mais cruéis chegarem diariamente, atingiram seu limite. Eles argumentam, com uma clareza que corta como uma faca, que a evidência é irrefutável. A destruição em massa, o número assombroso de civis mortos – a maioria mulheres e crianças –, a fome iminente. Tudo isso, para eles, não é 'colateral'. É intencional.
“A situação atende a todos os critérios legais”, insiste um trecho do documento, obtido pela imprensa. A linguagem técnica típica da ONU dá lugar a um tom de urgência brutal. Eles não pedem cautela. Exigem ação.
A Resposta (ou a Ausência Dela)
E Türk? O alto comissário parece caminhar sobre uma corda bamba política. Sua fala recente no Conselho de Direitos Humanos foi forte – condenou “carnificina” e “assédio” israelense. Mas a palavra 'G'… essa ele evitou com um cuidado que, para seus funcionários, soa como cumplicidade.
Ora, a política é um jogo sujo, mesmo nas Nações Unidas. Todos sabem. Pressões diplomáticas colossais, especialmente de potências ocidentais, amarraram as mãos de muitos líderes. Mas até quando a realpolitik pode se sobrepor à realidade factual? Essa é a pergunta que ecoa pelos corredores de Genebra.
O silêncio estratégico tem um custo. E esse custo é medido em vidas humanas. Cada dia que passa sem uma condenção clara e inequívoca é, na visão desses funcionários, uma derrota para a humanidade.
O impasse é terrível. De um lado, a obrigação moral de chamar as coisas pelos seus nomes. Do outro, o medo paralisante de alienar membros poderosos e, quem sabe, inviabilizar qualquer papel mediador futuro. Um dilema de proporções épocas.
Enquanto isso, do lado de fora dos escritórios climatizados, a guerra não para. E o mundo assiste, dividido, a uma das maiores crises humanitárias do século XXI, ainda sem um veredito final da principal organização que deveria protegernos de nós mesmos. Ironicamente trágico, não?