Prefeito de Divinópolis publica vídeo que compara gorila com homem negro
O prefeito de Divinópolis, Gleidson Azevedo do partido Novo, causou polêmica ao publicar em suas redes sociais um vídeo que compara as nádegas de um gorila com os lábios de um homem negro. O conteúdo foi divulgado na terça-feira, dia 10 de setembro, originalmente para anunciar a entrega do Hospital Regional da cidade.
Conteúdo do vídeo e repercussão imediata
O material audiovisual inicia com a imagem de um gorila dentro de uma jaula. Em seguida, o animal desliza de costas até que as nádegas do primata se transformam visualmente nos lábios de Talles Duque, chefe de gabinete do próprio prefeito e homem negro. O vídeo rapidamente ultrapassou 80 mil visualizações nas plataformas digitais antes de ser removido pelo mandatário municipal.
Diante da forte repercussão negativa e acusações de conteúdo racista, Gleidson Azevedo apagou a publicação e emitiu um pedido público de desculpas. Em sua justificativa, o prefeito afirmou ser totalmente contra o racismo e destacou que a ideia do vídeo partiu do próprio Talles Duque.
Justificativas e pedidos de desculpas
O prefeito explicou em suas redes sociais: "Sobre essa questão do vídeo meu e do Talles, eu quero deixar bem claro que não teve maldade nenhuma. Nenhuma hora que a gente estava gravando o vídeo passou pela minha cabeça que poderia despertar algum tipo de gatilho em algumas pessoas. Quem deu a ideia de gravar o vídeo foi 100% o Talles".
Gleidson ainda acrescentou que a única solicitação do chefe de gabinete foi participar do material e publicá-lo no perfil do prefeito devido ao maior número de seguidores. O mandatário municipal encerrou sua manifestação afirmando: "Para aquelas pessoas que tiveram esse gatilho, eu estou aqui humildemente pedindo desculpas".
Chefe de gabinete confirma autoria da ideia
Em entrevista ao portal g1, Talles Duque confirmou que a concepção do vídeo partiu dele mesmo e reafirmou que o material foi produzido sem qualquer intenção racista. "Foi sem maldade alguma, sem intenção de causar qualquer tipo de racismo, de ativar algum gatilho em alguém. Hora nenhuma avaliamos essa possibilidade", explicou o assessor.
Duque ainda desenvolveu sua justificativa pessoal: "Gorila é o meu símbolo, representa força, poder, testosterona alta, é o bicho forte, inteligentíssimo, somos a evolução dos primatas, porque eu não posso gostar de gorila? O povo gosta de cachorro, de gato, papagaio, periquito, morcego". O chefe de gabinete finalizou pedindo desculpas caso alguém tenha se sentido ofendido, reiterando que não houve intenção de causar prejuízo.
Denúncia formal ao Ministério Público
Apesar da remoção do vídeo e dos pedidos de desculpas, a vereadora Kell Silva do Partido Verde protocolou denúncia formal junto ao Ministério Público de Minas Gerais. No documento encaminhado ao órgão, a parlamentar solicita a apuração de possível prática de crime de racismo, injúria racial e discriminação racial.
A vereadora argumentou em sua representação: "A referida comparação possui inequívoco conteúdo racista, tratando-se de estereótipo historicamente utilizado para desumanizar pessoas negras, reforçar ideias de inferioridade e incitar discriminação, configurando prática atentatória à dignidade da pessoa humana e à igualdade racial".
Kell Silva ainda destacou que tal conduta ultrapassa os limites da liberdade de expressão ou do humor, caracterizando manifestação discriminatória baseada em raça e cor, apta a gerar constrangimento, humilhação pública e reprodução de preconceitos estruturais.
Investigação em andamento
O portal g1 entrou em contato com o Ministério Público de Minas Gerais para verificar se o órgão vai investigar formalmente a denúncia apresentada pela vereadora. Até o fechamento desta reportagem, não havia retorno oficial sobre o andamento do processo.
A situação coloca em evidência discussões sobre limites do humor nas redes sociais de autoridades públicas, estereótipos raciais históricos e a responsabilidade de gestores municipais na produção de conteúdo digital. O caso ocorre em um momento de crescentes debates sobre representatividade e combate ao racismo estrutural no Brasil.