Caso Master: envolvimento de ex-diretores do BC gera abatimento e preocupação com credibilidade
Caso Master: ex-diretores do BC envolvidos geram abatimento interno

Caso Master: envolvimento de ex-diretores do BC gera abatimento e preocupação com credibilidade

O indício de envolvimento do ex-diretor de Fiscalização do Banco Central, Paulo Souza, e do ex-chefe do departamento de supervisão bancária, Belline Santana, no caso Master gerou um clima de abatimento e perplexidade entre os funcionários da instituição. Segundo relatos feitos à reportagem sob condição de anonimato, há um temor generalizado de que o episódio contamine negativamente a opinião pública sobre a atuação dos técnicos do BC.

Os dois servidores do Banco Central foram alvos de operação de busca e apreensão realizada nesta quarta-feira (4) pela Polícia Federal. O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinou que ambos usem tornozeleira eletrônica como medida cautelar.

Conduta irregular e pagamentos suspeitos

De acordo com a decisão de Mendonça, Souza e Santana atuavam como consultores privados do banqueiro Daniel Vorcaro para assuntos relacionados ao BC, recebendo propina por esses serviços. Entre os pagamentos mencionados está uma viagem para a Disney feita pelo ex-diretor, cujo guia foi pago pelo dono do Banco Master.

Um integrante do BC se disse incrédulo com a situação, outro funcionário contou ter ficado abatido quando tomou conhecimento do assunto, e uma terceira pessoa falou em choque e surpresa entre os colegas. Os servidores, contudo, evitaram julgar a conduta dos antigos colegas e condená-los antecipadamente.

Posicionamento da associação e reação do BC

Em nota, a Associação Nacional dos Auditores do Banco Central, que representa uma parcela dos servidores, disse considerar extremamente graves os apontamentos da terceira fase da operação Compliance Zero. "Condutas irregulares devem ser rigorosamente investigadas e, se confirmadas, punidas com estrita observância ao devido processo legal", afirmou a entidade.

A ANBCB destacou a atuação do BC e a celeridade de reação ao acionar seus mecanismos de controle interno e afastar preventivamente os envolvidos. "Episódios como este reforçam a necessidade permanente de aprimorar a governança e os mecanismos de integridade institucional. Instituições fortes são aquelas capazes de identificar e corrigir seus próprios erros com firmeza", acrescentou.

Nesta quarta, o Banco Central disse ter identificado indícios de vantagens indevidas por parte de dois servidores durante investigação interna sobre o caso Master. O processo está sendo conduzido sob sigilo pela corregedoria do órgão.

Medidas tomadas e confiança institucional

"De imediato, o Banco Central afastou cautelarmente os referidos servidores do exercício de seus cargos e do acesso às dependências da instituição e a seus sistemas, instaurou procedimentos correcionais para apuração dos fatos e comunicou os indícios de prática de crimes à Polícia Federal", disse a autoridade monetária em nota.

O BC também expressou "convicção" de que o trabalho realizado pela PF representa um "passo essencial para o pleno esclarecimento dos fatos". "Observado o devido processo legal e o direito à ampla defesa, as condutas infracionais identificadas receberão a devida resposta sancionatória, de acordo com a lei", acrescentou.

De acordo com um interlocutor, as providências foram prontamente tomadas quando indícios de irregularidades foram detectados. Na visão do interlocutor, foram condutas isoladas e a governança do BC funcionou adequadamente. O sentimento na cúpula do BC é de confiança de que foi feito o que era necessário e que a instituição será preservada.

Contexto do caso e revisão interna

Como mostrou a Folha de S. Paulo, o Banco Central tem feito uma revisão interna do processo de fiscalização envolvendo o Banco Master, desde a expansão do conglomerado de Vorcaro até a liquidação da instituição em novembro de 2025. Souza e Santana deixaram suas funções de confiança em janeiro, mas já tinham sido afastados pelo presidente Gabriel Galípolo antes disso.

A operação Compliance Zero continua investigando possíveis irregularidades no sistema financeiro, com foco especial nas relações entre servidores públicos e instituições bancárias privadas. O caso Master representa um dos episódios mais significativos dessa investigação, com potencial impacto na percepção pública sobre a integridade das instituições reguladoras.