Na quarta-feira, 13 de novembro, a Calçada da Fama de Hollywood ganhará um marco inédito: pela primeira vez, uma estrela homenageará um artista nascido no Brasil. O escolhido é o percussionista Paulinho da Costa, carioca do bairro de Irajá, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Com uma carreira que abrange centenas de gravações ao lado de ícones da música mundial desde os anos 1970, como Madonna, Michael Jackson, Elton John e Earth, Wind & Fire, Paulinho carrega no ritmo a essência de sua terra natal.
A emoção da homenagem
Em entrevista ao g1, Paulinho admitiu sentir um "friozinho na barriga" com a proximidade da cerimônia. Ele afirmou que levará consigo um pedaço do Irajá e da Portela, sua escola de samba do coração, para a calçada. "Não tenho dúvida de que estou levando um pouco do Irajá e da Portela para Hollywood. Levo toda a minha trajetória para a calçada!", declarou o artista.
Raízes no subúrbio carioca
Aos 77 anos, Paulinho cresceu no Irajá, onde dividiu as ruas com nomes como Nei Lopes e Zeca Pagodinho. Desde pequeno, transformava mesas, garrafas e copos em instrumentos musicais. "Tudo virava instrumento, e foi assim que me aprimorei até encontrar meu primeiro pandeiro", relembra. O percussionista moldou seu som em rodas de música na Festa da Igreja da Penha, também na Zona Norte, antes de integrar a ala jovem da Portela como ritmista. Além disso, expandiu sua experiência percussiva em terreiros de candomblé no Rio.
Carreira internacional
Entre os anos 1960 e 1970, após iniciar a carreira profissional no Brasil, inclusive com a amiga Alcione, Paulinho se apresentou com a banda de Sérgio Mendes e se mudou para os Estados Unidos. Lá, espalhou a vivência do subúrbio carioca em clássicos do pop. Em 1982, durante as gravações do álbum "Thriller", de Michael Jackson, ele incluiu sons de cuíca na introdução de "Wanna Be Startin' Somethin'". A cuíca, instrumento de origem africana, foi introduzida no Rio entre os séculos 18 e 19 e ganhou destaque no samba. Paulinho também gravou "Billie Jean", usando cabaça metálica e agogô, outro instrumento de raiz africana. Entre suas soluções criativas, destacam-se o uso de campana em "Serpentine Fire" e colheres em "Brazilian Rhyme", ambas do Earth, Wind & Fire, banda com a qual colaborou no sucesso "September".
Colaborações com Madonna
Com Madonna, Paulinho gravou várias faixas e apareceu no clipe de "La Isla Bonita", música para a qual sugeriu o título. O percussionista também contribuiu com artistas como Elton John e Quincy Jones.
Documentário na Netflix
A trajetória de Paulinho é contada no documentário "The Groove Under the Groove: Os Sons de Paulinho da Costa", lançado este ano pela Netflix. O filme reúne depoimentos de estrelas como George Benson e Quincy Jones, além de mostrar o reencontro do percussionista com músicos do Earth, Wind & Fire, sua volta ao Rio e seu retorno à Portela em 2015. O diretor Oscar Rodrigues, também percussionista, destaca que a ligação de Paulinho com o Brasil foi crucial para seu sucesso. "Quando ele chegou a Los Angeles em 1973, encontrou um cenário dominado por percussionistas latinos. Para se destacar, usou suas raízes brasileiras como diferencial", explica.
Cerimônia e legado
A estrela de Paulinho ficará na Vine Street, em Hollywood. A cerimônia será transmitida ao vivo pelo site da Calçada da Fama, e o diretor Oscar Rodrigues pretende adicionar as imagens como extra do documentário. Além de Paulinho, a Calçada já homenageia Carmen Miranda, que, embora associada ao Brasil, nasceu em Portugal. Paulinho, emocionado, afirma: "A expectativa está grande. É um reconhecimento do talento brasileiro e do profissionalismo que marcaram minha carreira". Ele mora em Los Angeles com a esposa Arice da Costa, também carioca.
Reflexões sobre a infância
Ao lembrar da infância no Irajá, Paulinho sente um misto de orgulho e nostalgia. "Não sei se saudade é a palavra certa. Tive momentos muito felizes. Na Portela e com meus amigos, nunca imaginei que aquela diversão se tornaria meu trabalho. Olhar para trás me traz orgulho de cada experiência que me trouxe até aqui", conclui.



