PF Declara Guerra ao PCC: 'Vamos Agir com Rigor, Sejam Políticos ou Empresários'
PF declara guerra ao PCC: “Rigor com todos”

O clima em São Paulo nesta sexta-feira (29) é de tensão contida. Enquanto a maioria dos paulistanos seguia sua rotina matinal, uma força-tarefa da Polícia Federal executava uma das maiores investidas dos últimos tempos contra a espinha dorsal financeira do Primeiro Comando da Capital. Não foi uma ação qualquer – foi um recado claro.

E o tom do recado foi dado nua e cruamente por Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, em coletiva que deixou mais de um de sobreaviso. “A mensagem que a gente deixa é a seguinte: a Polícia Federal vai atuar com todo o rigor da lei, independentemente de quem quer que seja”, disparou, sem rodeios. A fala, seca e direta, ecoou como um alerta para figuras públicas e privadas que possam, de alguma forma, ter seus nomes enredados na teia de financiamento da facção.

O Alvo: O Bolso do Crime

A Operação Synapse – nome que soa quase ficcional – não mira os soldados de baixo escalão. Seu objetivo é muito mais ambicioso: atingir o coração do sistema econômico que mantém o PCC respirando. Estamos falando de um esquema sofisticado, que movimenta quantias obscenas através de negócios aparentemente lícitos, lavando dinheiro do tráfico e do crime.

Foram expedidos nada menos que 56 mandados de busca e apreensão, com concentração no estado de São Paulo, mas com braços se estendendo para o Mato Grosso do Sul e até o Distrito Federal. Três mandados de prisão preventiva também foram deferidos. A escala é grande, mas o foco é preciso: estrangular o fluxo de capital que alimenta a violência.

“Sejam Políticos ou Empresários”

A frase de Rodrigues não foi casual. Ela é um farol iluminando uma das questões mais espinhosas no combate ao crime organizado: a conivência, ou pior, a participação ativa de pessoas influentes. A impressão que fica – e isso é minha leitura pessoal – é que a investigação esbarrou em nomes graúdos. Muito graúdos.

O diretor foi enfático ao afirmar que a PF “não vai medir esforços para responsabilizar todos os envolvidos”. A mensagem é de que o cargo, o poder ou a influência não serão escudos. É uma promessa ousada, que muitos duvidam ser cumprida até o fim. Mas, convenhamos, a declaração pública coloca todos contra a parede.

O que se investiga, nas entrelinhas, é uma rede de “organizações empresariais que atuam como fachada para o crime”. Lavagem de dinheiro em grande estilo, com empresas de fachada e laranjas. O modus operandi clássico, porém, executado com uma audácia que beira o insulto.

Um Longo Fio de Ariadne

Nada disso surgiu do dia para a noite. A operação é o ápice de uma investigação meticulosa e silenciosa que se arrasta há dois longos anos, conduzida pelo GAECO (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) do Ministério Público de São Paulo, em parceria com a PF e a Receita Federal.

Isso mostra uma mudança de estratégia. Em vez de investidas explosivas e midiáticas, optou-se por um trabalho de formiga, rastreando o dinheiro – porque o dinheiro, sempre ele, deixa rastros que a força bruta não deixa.

O procurador Lincoln Gakiya, um dos chefes da investigação, já havia dado pistas antes. Ele falava em “quebrar a sensação de impunidade” que cerca os líderes do PCC. A Synapse parece ser a materialização desse desejo. Será?

O fato é que a operação está só começando. Os mandados estão sendo cumpridos, os dados apreendidos vão gerar novas pistas, e novos nomes podem surgir. A promessa de rigor, agora, precisa sobreviver ao embate com a dura realidade política e econômica do país. O tempo – e a coragem das instituições – dirão.