Pesquisa revela que identidade brasileira supera latino-americana entre população
Identidade brasileira é mais forte que latino-americana, diz estudo

Identidade nacional prevalece sobre latino-americana entre brasileiros, aponta estudo

Uma pesquisa recente do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) revela dados significativos sobre como os brasileiros se percebem no contexto continental. Segundo o levantamento de 2023, quando questionados sobre sua identidade, apenas 4% dos brasileiros se definem como latino-americanos, enquanto expressivos 83% priorizam a identidade brasileira e 10% se consideram "cidadãos do mundo".

Polêmica nas redes sociais reacende debate histórico

A discussão sobre a posição do Brasil na América Latina ganhou novo fôlego nas redes sociais após publicação de uma usuária que questionava a inclusão dos brasileiros na comunidade latina. "Português é falado em só um país da América Latina. Olha esses brasileiros tentando ser parte do time", escreveu a autora, identificando-se como americana filha de mãe mexicana.

O post gerou quase 6 mil republicações comentadas, com intensa participação de brasileiros e hermanos latino-americanos defendendo diferentes posições. Enquanto alguns argentinos como Nahuel Lanzón defenderam a "honra latina do Brasil", muitos brasileiros manifestaram visão contrária.

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"O Brasil é um país único, ninguém se parece com a gente", comentou um usuário em resposta a reportagem sobre o tema. Outro foi mais enfático: "Ser latino nos coloca em um pacote. Ser brasileiro nos torna únicos! E pra mim isso basta".

Raízes históricas explicam diferença identitária

Feliciano de Sá Guimarães, professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e um dos responsáveis pelo estudo, explica que essa discrepância identitária é estrutural. "É um pouco a ideia de que nós somos autossuficientes na nossa brasilidade. Não é que nós rejeitemos a noção de América Latina, simplesmente não a temos de forma profunda, como têm nossos vizinhos."

João Carlos Corrêa, diretor cultural do Memorial da América Latina em São Paulo, aponta que o processo emancipatório diferenciado influencia essa percepção. Enquanto os países hispânicos romperam com a Espanha através de conflitos sangrentos, o Brasil manteve vínculos com Portugal mesmo após a independência.

"Para o brasileiro, foi muito mais cômodo dizer que 'nós somos um país-continente, independente e com raízes europeias'", analisa Corrêa. "Já no caso dos países de colonização espanhola, o rompimento evoca uma questão de soberania maior."

Origem controversa do termo "América Latina"

A própria concepção de América Latina tem origem complexa. Embora existam diferentes versões sobre sua criação, o termo ganhou popularidade em 1861 durante o governo de Napoleão 3º, quando a França tentou estabelecer esfera de influência no continente americano baseada na suposta afinidade cultural entre povos de origem latina.

Rafael Leporace Farret e Simone Rodrigues Pinto, pesquisadores do tema, destacam que a "ideologia panlatina" objetivava "subjugar as nações hispano-americanas ao poderio francês e, ao mesmo tempo, visava diminuir a área de atuação da política imperialista dos EUA".

Apesar dessa origem imperialista, o termo foi ressignificado no século 20, especialmente com a criação da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) em 1948. No Brasil, a noção de latino-americanidade ganhou força principalmente nos anos 1960 através da esquerda intelectual.

Divergência nas definições internacionais

Enquanto nos países da região o termo latino-americano carrega conotações de união regional, nos Estados Unidos a classificação é diferente. Lá, "latino" é categoria étnico-racial usada pelo Censo para classificar indivíduos de países "de cultura ou origem espanhola", excluindo explicitamente brasileiros.

Essa definição tem origem em lei aprovada em 1976 pelo Congresso americano e mantida nas revisões de 1997 e 2024. Consequentemente, brasileiros nos EUA ficam em "limbo estatístico", classificados no grupo "Some Other Race" (alguma outra raça).

Em 2021, os aproximadamente 569 mil brasileiros nos Estados Unidos representavam menos de 1% da população hispânica do país, que totalizava 61,1 milhões.

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Críticas ao conceito e perspectivas futuras

O próprio termo "latino" enfrenta críticas substanciais. Pesquisa do Pew Research Center mostra que mesmo entre hispânicos nos EUA, 52% preferem se descrever por seu país de origem, contra 30% que preferem o termo latino.

Críticos argumentam que a identidade latino-americana frequentemente apaga a história e identidade de grupos específicos, como povos originários e afrodescendentes. Além disso, destacam que nem todas as pessoas que vivem na região se identificam com essa classificação.

Guimarães oferece perspectiva equilibrada sobre a questão brasileira: "Os brasileiros não se sentem profundamente latino-americanos, mas fazem parte da comunidade latino-americana". Para o pesquisador, enquanto a identidade latina não é central para os brasileiros, ela existe como camada secundária de identificação.

Corrêa, por outro lado, vê prejuízo na resistência brasileira: "A gente exporta cultura, consome cultura latino-americana, mas se coloca de fora desse mercado". Em artigo sobre o tema, ele foi enfático: "Reconhecer-se latino transcende geografia ou folclore. É abraçar um projeto político inacabado de libertação coletiva."

O estudo do Cebrap mostra consistência histórica nessa tendência, com edições anteriores de 2014 e 2018 apresentando resultados similares. Enquanto a discussão continua nas redes sociais e na academia, os dados indicam que, para a maioria dos brasileiros, ser brasileiro vem primeiro - e com considerável margem de diferença.