Terceira via não vence eleição presidencial desde redemocratização do Brasil
Terceira via não vence desde redemocratização

Uma pesquisa Quaest divulgada na última quarta-feira (13) revela que 32% dos eleitores brasileiros — aproximadamente um terço — se consideram independentes, ou seja, nem lulistas, nem bolsonaristas, nem de esquerda, nem de direita. Esse cenário se repete há meses nos levantamentos da consultoria. A mesma sondagem aponta que Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) estão descolados dos demais pré-candidatos à Presidência, indicando que esta pode ser mais uma eleição sem espaço para nomes que tentem ocupar o espaço da terceira via.

Cenário eleitoral atual

No cenário de primeiro turno, Lula lidera com 39% das intenções de voto, seguido por Flávio Bolsonaro com 33%, segundo a pesquisa Quaest mais recente. Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) aparecem com 4% cada, e Renan Santos (Missão) com 2%. Felipe Nunes, diretor da Quaest e coautor do livro "Biografia do abismo", afirma: "A polarização consome 72% das intenções de voto neste momento". Ele discute a "calcificação" da divisão do eleitorado entre dois polos: um próximo do lulismo e do PT, outro do bolsonarismo.

Um levantamento do g1 com dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostra que, nas disputas presidenciais anteriores, candidatos que se apresentaram como uma alternativa não conseguiram romper com o padrão que divide os votos entre duas candidaturas antagônicas. Em 2014, Marina Silva (à época no PSB, hoje na Rede) chegou perto de avançar ao segundo turno após assumir a candidatura no lugar de Eduardo Campos, mas acabou fora na reta final. A eleição foi decidida entre PT e PSDB, repetindo as disputas de 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010. Em 2018 e 2022, Ciro Gomes (então no PDT, atualmente no PSDB) e Simone Tebet (ex-MDB, agora no PSB) ficaram distantes dos dois primeiros colocados.

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Dificuldades da terceira via

Felipe Nunes explica que, embora parte do eleitorado (entre 20% e 30%) demande consistentemente um candidato fora da polarização, a falta de coordenação das lideranças políticas confunde o eleitor. Segundo ele, os partidos "acabam lançando vários nomes ao mesmo tempo e confundindo as pessoas sobre quem realmente representa a terceira via". Em 2026, nomes como Caiado e Zema, que buscam ampliar projeção nacional, acabam disputando o mesmo espaço de candidatura anti-Lula, em vez de se estabelecerem como uma opção independente e competitiva.

Há nuances nos discursos de ambos, como ficou demonstrado nas reações à revelação de que Flávio pediu dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Master, para financiar um filme sobre o pai, Jair Bolsonaro. Enquanto Zema disse ser "imperdoável" e "um tapa na cara" a conduta do senador, Caiado afirmou que o parlamentar deve explicações, mas que o foco principal é manter a direita unida contra Lula.

O cientista político Murilo Mendes, da Universidade de Brasília (UnB), avalia que Caiado aposta em uma candidatura "antissistema moderada", com discurso que confronta o establishment, mas com currículo administrativo, capaz de dialogar tanto com antipetistas quanto com eleitores independentes. Já Zema veste a roupagem do outsider, que confronta o sistema com mais radicalidade. Marina Silva, terceira colocada em 2010 e 2014, quando enfrentou Dilma Rousseff (PT), critica: "Eles não apresentam mudança substantiva em relação ao bolsonarismo. Basta compará-los com o cerne do reacionarismo econômico, social e ambiental. Todos, em essência, reproduzem esse padrão". A ex-ministra do Meio Ambiente se reaproximou de Lula em 2022 e integrou seu governo, deixando o cargo para disputar uma vaga no Senado em São Paulo como aliada do PT. Questionada se considera ter sido representante da terceira via no passado, Marina afirma que o termo simplifica o debate e que suas candidaturas buscavam apresentar "uma nova forma de pensar o desenvolvimento do país". Ela acrescenta: "Conseguimos dar forma a esse projeto e apontar um novo ciclo de prosperidade com base em um modelo sustentável de desenvolvimento. Mas, antes que ganhasse tração, a polarização, que passou a assumir contornos mais destrutivos, interrompeu esse avanço nas eleições de 2018".

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Histórico da terceira via

A terceira via é um conceito usado na política para designar uma alternativa aos dois principais grupos da disputa. "É algo fluido, que depende do contexto. Não há qualquer outra definição política e ideológica para o termo terceira via além de uma vontade ou promessa de enfrentar a polarização", diz o historiador Herbet dos Anjos. O cientista político Murilo Mendes afirma que terceira via não significa necessariamente centro ideológico, mas "uma alternativa factível aos campos hegemônicos da disputa".

Em 1989, na primeira eleição direta após a ditadura militar, houve 22 candidatos no primeiro turno e figuras pesadas da política, como Ulysses Guimarães (PMDB), Paulo Maluf (PDS) e Mario Covas (PSDB). Mas a disputa real ficou restrita a Fernando Collor (PRN) de um lado e, de outro, a Lula (PT) e Leonel Brizola (PDT), que travaram uma corrida apertada pela vaga no segundo turno. O petista passou por pouco e foi derrotado por Collor, por 53% a 46%. Nos pleitos seguintes, consolidou-se o modelo de dois candidatos protagonistas e um terceiro tentando entrar na briga. Os melhores desempenhos foram de Marina Silva em 2014, com 21,3% dos votos, e Anthony Garotinho (PSB) em 2002, com 17,8%.

Em 2018, a eleição de Jair Bolsonaro pelo PSL encerrou um ciclo de 20 anos de disputas entre PT e PSDB. Desde então, os bolsonaristas substituíram os tucanos na oposição a Lula. O empresário João Amoêdo, que fundou o partido Novo e disputou a eleição de 2018, avalia que o espaço para candidaturas de centro encolheu nos últimos anos: "Está órfão. Não há interesse de nenhum partido em se colocar como diferente do bolsonarismo ou do lulismo, já que o objetivo é aumentar as bancadas federais e, assim, conseguir mais recursos públicos via Fundo Partidário, Fundo Eleitoral e emendas parlamentares. Uma clara distorção do nosso sistema democrático". Amoêdo deixou o Novo após declarar apoio a Lula em 2022, em um movimento que classificou como necessário diante do que considerou um risco à democracia em um eventual segundo mandato de Bolsonaro. Desde então, não voltou a disputar cargos públicos.

Perspectivas para 2026

O desempenho inferior ao dos dois primeiros colocados nas pesquisas indica baixa probabilidade de vitória para alguém que represente a terceira via neste ano, avaliam especialistas ouvidos pelo g1. Felipe Nunes diz que, ao observar eleitores em pesquisas qualitativas — com grupos focais e entrevistas usados para entender o comportamento do eleitorado —, percebe atualmente uma descrença maior no sistema político. Segundo ele, esse eleitor está mais apático do que propriamente em busca de uma alternativa de centro moderado. "No fundo, esse eleitor quer alguém fora da polarização, mas também fora da política tradicional. Um outsider. O exemplo mais recente disso é o crescimento de Pablo Marçal nas eleições municipais de 2024, em São Paulo. Ali, ele ocupou esse espaço".

O cientista político Fernando Schuler, professor do Insper, explica que o desempenho limitado da terceira via reflete uma das principais marcas da política brasileira: a disputa acirrada entre dois campos ideológicos bem demarcados. "Nos últimos 30 anos, as eleições seguiram esse padrão de dois nomes fortes, um de cada lado, com visões opostas de programas de governo e valores. Isso dificulta o surgimento de alternativas". O historiador Herbert Anjos avalia que o contexto pós-2018, com a ascensão do bolsonarismo e o agrupamento de forças antagônicas no lado lulista, dificulta a missão de candidatos que tentam romper com a divisão. "Com a escalada da extrema direita, há uma ênfase no questionamento das urnas eletrônicas, no funcionamento dos três Poderes e no crescimento de discursos golpistas e de incentivo à intervenção militar. Por isso, há uma unidade em torno de Lula que estreita as opções eleitorais. Nenhum partido com relevância social parece disposto a correr o risco de se desgastar diante do voto útil", afirma.