Síndrome dos Ovários Policísticos agora é Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina
SOP agora é SOMP: nova nomenclatura na The Lancet

Uma das condições hormonais mais comuns entre mulheres em idade reprodutiva acaba de ganhar um novo nome. A mudança, publicada nesta terça-feira (12) na revista médica The Lancet, decorre de uma constatação incômoda: o nome antigo estava errado. A Síndrome dos Ovários Policísticos (SOP) passa a ser chamada de Síndrome Ovariana Metabólica Poliendócrina (SOMP).

Processo internacional de revisão

A alteração é resultado de um processo internacional que reuniu 56 organizações científicas, clínicas e de pacientes de todas as regiões do mundo, além de mais de 14 mil respostas em pesquisas globais. O Brasil participou da iniciativa por meio da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). A endocrinologista Poli Mara Spritzer, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), representou o país no Global Name Change Consortium, grupo responsável pela atualização.

“Este processo de troca de nome foi uma iniciativa global de grande magnitude e, por isso, representativa de pacientes, clínicos e agentes de políticas públicas. A denominação antiga era errônea porque focava apenas nos chamados cistos, que na verdade não são cistos, mas folículos com crescimento interrompido”, afirma Spritzer.

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O que havia de errado com o nome antigo

O problema começava na palavra “policísticos”. O termo sugeria que a síndrome fosse causada pela presença de cistos patológicos nos ovários — estruturas anormais que, na realidade, não são uma característica da condição. O que o ultrassom detecta, na maioria dos casos, são múltiplos pequenos folículos com desenvolvimento interrompido, não cistos no sentido clínico do termo.

Mais do que uma imprecisão técnica, o nome gerava consequências práticas. Médicos e pacientes tendiam a associar a síndrome apenas a uma questão ginecológica ou ovariana, obscurecendo o conjunto de alterações hormonais, metabólicas, dermatológicas e psicológicas que a caracterizam. O artigo publicado na Lancet estima que até 70% das mulheres afetadas permanecem sem diagnóstico.

“Ovários policísticos é um termo enganoso. Ele sugere que a doença seja causada por cistos nos ovários, quando, na verdade, muitas vezes não se trata de cistos patológicos”, explica Alexandre Hohl, diretor do Departamento de Endocrinologia Feminina, Andrologia e Transgeneridade da SBEM. “Isso gera confusão em pacientes e médicos, atrasa diagnóstico e reduz a compreensão da síndrome como uma doença sistêmica.”

Uma doença que vai além dos ovários

A SOMP envolve, ao mesmo tempo, alterações em múltiplos hormônios — insulina, androgênios (os chamados hormônios masculinos), o hormônio luteinizante (LH) e o hormônio antimülleriano (AMH) — e por isso o novo nome incorpora o termo “poliendócrina”, que significa justamente a participação de vários sistemas endócrinos na doença.

A resistência à insulina — quando as células do corpo respondem de forma insuficiente ao hormônio responsável pelo controle do açúcar no sangue — está presente em aproximadamente 85% das pessoas com a síndrome, incluindo 75% das mulheres magras. Esse mecanismo piora a produção de androgênios e conecta a SOMP a um conjunto de riscos cardiometabólicos: obesidade, pré-diabetes, diabetes tipo 2, colesterol alto, pressão elevada, gordura no fígado e maior risco de doenças cardiovasculares.

Os sintomas mais visíveis no cotidiano das pacientes incluem ciclos menstruais irregulares, dificuldade para engravidar, acne, aumento de pelos no rosto e no corpo, queda de cabelo em padrão androgenético e ganho de peso. A condição também está associada a taxas mais altas de ansiedade, depressão e pior qualidade de vida — em parte pelo estigma e pela demora para receber um diagnóstico.

Para a liderança da SBEM, a atualização reflete o que já se observa na prática clínica: a síndrome tem origem genética, endócrina e metabólica, envolve múltiplos hormônios e pode exigir abordagem multidisciplinar — o que o nome antigo, centrado nos ovários, não deixava claro.

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O que muda e o que permanece igual

A troca de nome não altera os critérios para diagnóstico. Em mulheres adultas, a SOMP continua sendo identificada pela presença de pelo menos dois entre três critérios — após exclusão de outras causas: disfunção ovulatória (ovulação irregular ou ausente), hiperandrogenismo clínico ou laboratorial (excesso de hormônios masculinos detectado por exame físico ou de sangue), morfologia ovariana compatível ao ultrassom ou nível elevado de hormônio antimülleriano. Em adolescentes, os três critérios são exigidos simultaneamente, com maior cautela diagnóstica.

O tratamento também não muda em sua estrutura: é individualizado, contínuo e pode incluir anticoncepcionais hormonais, antiandrogênicos, metformina (medicamento que melhora a resposta à insulina), indutores de ovulação e acompanhamento metabólico. Mudanças de estilo de vida — alimentação adequada, atividade física e controle do peso — têm impacto relevante, especialmente quando há resistência à insulina. Mesmo perdas modestas de peso podem melhorar ciclos, ovulação e parâmetros metabólicos.

Transição gradual e impacto futuro

A transição para o novo nome será gradual, ao longo de três anos, com atualização de prontuários eletrônicos, classificações internacionais de doenças — incluindo o CID, sistema global de codificação adotado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) —, diretrizes clínicas e materiais educativos para profissionais e pacientes. A integração às diretrizes internacionais está prevista para a atualização de 2028, hoje já adotada em 195 países.

Spritzer avalia ainda que a mudança pode ter reflexos além da prática clínica, ampliando a visibilidade da condição em políticas públicas e no financiamento à pesquisa — área que, segundo ela, permanece subfinanciada apesar da alta prevalência da síndrome.