TDAH: Distração Moderna ou Transtorno Real? Entenda as Confusões no Diagnóstico
TDAH: Distração Moderna ou Transtorno Real? Confusões no Diagnóstico

TDAH: Distração Moderna ou Transtorno Real? Entenda as Confusões no Diagnóstico

A percepção popular sugere que a incidência do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) explodiu nos últimos anos, mas os dados contam uma história diferente. Segundo estudos, a prevalência global do transtorno se mantém estável entre 8% e 10% da população. O que realmente aumentou foi a capacidade de reconhecer e tratar melhor quem sempre teve o transtorno e não recebia o diagnóstico adequado.

Distração Cotidiana versus Transtorno Neurobiológico

São comuns os relatos contemporâneos de dificuldade para ler um livro e reter informações, assistir a um filme sem se distrair com o celular ou concluir tarefas simples. No entanto, o mais provável é que se trate de uma profunda dificuldade de manter a atenção, intensificada pelo estresse crônico da pandemia de covid-19 e pela cultura da multitarefa digital, e não de um transtorno neurobiológico como o TDAH.

Essa distração generalizada está sendo erroneamente rotulada como o transtorno, criando confusões significativas. De acordo com as diretrizes da American Academy of Pediatrics, as prescrições para a condição refletem maior acesso a diagnóstico e tratamento baseados em evidências científicas, e não uma epidemia de novos casos.

O Aumento dos Diagnósticos e os Riscos de Erros

Se falamos mais sobre TDAH atualmente, ampliamos as chances de que as pessoas que têm o transtorno de fato recebam o atendimento necessário. A medicação felizmente perdeu boa parte do estigma que tinha, especialmente considerando que crianças com TDAH têm maior chance de se tornar adultos com depressão e ansiedade.

Por outro lado, cresce o risco de diagnósticos errôneos, apressados e impulsionados tanto por consultas médicas rápidas como por listas de sintomas divulgadas nas redes sociais. Estudos indicam que entre 20% e 23% das pessoas que usam medicamentos para TDAH não atendem aos critérios completos do transtorno quando avaliadas formalmente por profissionais especializados.

Como Identificar o Verdadeiro TDAH

É fundamental ressaltar que o TDAH começa sempre na infância, em geral, até os 12 anos de idade. Para um diagnóstico preciso, é preciso olhar com cuidado para a história clínica e para a vida escolar de cada pessoa com suspeita do transtorno, fazendo perguntas-chave como:

  • Ela sempre teve dificuldade de manter a atenção mesmo em tarefas lúdicas?
  • Cometia erros por descuido frequentemente?
  • Parecia não escutar quando falavam com ela?
  • Tinha dificuldade de começar e terminar atividades?
  • Evitava situações que sabia que seriam difíceis?
  • Perdia muitos objetos pessoais?
  • Esquecia-se de atividades do dia a dia regularmente?

Se esses sintomas não existiam na infância, mas aparecem apenas na vida adulta, podem ser frutos de outras questões como ansiedade, estresse, burnout, depressão, insônia ou mesmo excesso de tarefas e responsabilidades. Mas não representam TDAH genuíno.

Os Desafios da Atenção na Era Digital

Excesso de telas, interrupções constantes, sobrecarga cognitiva, falta de sono adequado e demandas infinitas prejudicam significativamente a atenção de qualquer pessoa, o que é particularmente preocupante entre as crianças em desenvolvimento. Não é à toa que a expressão do ano de 2024, segundo o Dicionário Oxford, foi "brain rot" (cérebro apodrecido).

Vivemos numa velocidade para a qual não fomos biologicamente feitos, terceirizando funções cognitivas básicas e enfrentando desafios de atenção que afetam toda a sociedade. Se queremos uma discussão séria sobre o tema, precisamos de duas frentes de ação: educação pública para diferenciar distração cotidiana de um transtorno neurobiológico real, e diagnóstico responsável, feito exclusivamente por profissionais capacitados e especializados.

O TDAH é um transtorno sério, que pode causar muito sofrimento psíquico e prejuízos educacionais, pessoais e profissionais significativos. Atribuir qualquer dificuldade de foco ao transtorno só atrapalha quem realmente precisa de ajuda especializada e tratamento adequado.