A primeira gargalhada do bebê: o que revela sobre cognição e desenvolvimento humano
Primeira gargalhada do bebê revela cognição e desenvolvimento

A primeira gargalhada do bebê: o que revela sobre cognição e desenvolvimento humano

A psicóloga e pesquisadora Ilana Pinsky reflete sobre saúde mental e suas conexões com a sociedade, destacando um estudo fascinante sobre o poder da risada dos pequenos. Em tempos marcados por discussões sobre traumas, uma cientista americana investiga o que a primeira gargalhada do bebê revela sobre a mente humana.

O fascínio pelo humor infantil

Há algo de radical em voltar ao início da vida e perguntar: o que significa uma gargalhada aos três meses de idade? Enquanto a atenção pública muitas vezes se concentra em aspectos negativos da humanidade, como conflitos e violência, a psicóloga do desenvolvimento Gina Mireault, professora e diretora do Infant Laughter Lab na Universidade Estadual de Vermont, nos Estados Unidos, dedica sua carreira a estudar o desenvolvimento do humor em bebês.

A ciência do desenvolvimento sempre se focou, corretamente, nos grandes marcos do primeiro ano, como sentar, engatinhar, andar e falar. O choro, com sua função clara de convocar cuidado, também recebeu atenção robusta. Já o riso, embora encante pais e avós, parecia periférico – um bônus ou um luxo evolutivo. No entanto, o fato de o riso surgir tão cedo, antes mesmo de habilidades motoras básicas, sugere que ele não é um enfeite, mas cumpre funções importantes.

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Da dependência química ao riso dos bebês

A trajetória da pesquisadora Gina Mireault torna essa escolha ainda mais curiosa. Ela começou sua carreira em um laboratório de dependência química, trabalhando com pesquisadores renomados em um ambiente intenso e bem financiado, dedicado a entender aspectos autodestrutivos do comportamento humano. Após anos estudando adição e perda parental precoce, ela migrou para o extremo oposto do espectro existencial: o riso de bebês.

A virada ganhou força num episódio doméstico. Seu filho, aos três meses, soltou sua primeira gargalhada clara durante um funeral, reagindo ao espirro de um dos presentes. O som atravessou o ambiente de luto e, por alguns segundos, reorganizou o clima emocional da sala. Aquela cena quase experimental deixou uma pergunta no ar: o que exatamente está acontecendo na mente de um bebê quando ele ri?

Linha do tempo do desenvolvimento do riso

Uma pequena linha do tempo ajuda a entender a evolução do riso nos primeiros meses de vida:

  • O sorriso reflexo aparece ainda na vida intrauterina e já está presente nos recém-nascidos.
  • Por volta das seis semanas, começa a se tornar social, com o bebê direcionando-o a pessoas específicas.
  • A gargalhada emerge em torno de três a quatro meses, sendo involuntária, corporal e quase avassaladora.
  • Neurobiologicamente, envolve circuitos subcorticais ligados ao sistema límbico, o que explica por que é difícil simular uma gargalhada genuína.
  • Por volta dos seis meses, algo muda: o bebê começa a modular o riso de maneira voluntária, coincidindo com o início do balbucio.

A partir daí, o riso passa a envolver áreas corticais motoras associadas à produção vocal e pode ser usado estrategicamente nas trocas sociais, como para manter uma interação, convidar o outro a continuar ou reforçar um vínculo.

Cognição e inteligência emergente

Para que algo seja percebido como engraçado, o bebê precisa detectar uma incongruência – uma quebra leve de expectativa. Inicialmente, o sorriso dos adultos funciona como sinalizador de segurança, mas experimentos indicam que bebês de cinco e seis meses já discriminam o potencial humorístico por conta própria. Isso exige:

  1. Memória
  2. Formação de expectativas
  3. Cognição ativa

A partir dos seis meses, surge o que pesquisadores chamam de clowning: o bebê faz caretas, sons estranhos ou exibe partes do corpo de forma teatral. Entre oito e nove meses, aparece a provação, onde o bebê finge colaborar e escapa no último segundo. Esse comportamento sugere uma compreensão sofisticada de que o outro tem expectativas que podem ser manipuladas, um embrião da teoria da mente.

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Significado evolutivo e social

Do ponto de vista evolutivo, isso faz sentido. Somos mamíferos sociais e precisamos sinalizar segurança, aliança e confiança. Filhotes de várias espécies produzem o chamado play pant, uma respiração ofegante típica de brincadeiras que soa como risadas, comunicando que é jogo e não ameaça. Com bebês humanos, algo semelhante acontece quando eles começam a experienciar risadas, especialmente em interações lúdicas com progenitores, que tendem a ser vigorosas e acompanhadas de sorrisos amplos para transmitir confiança.

Histórico da pesquisa e mudança de perspectiva

Historicamente, o tema do riso em bebês foi negligenciado. Charles Darwin descreveu o riso de seu filho em 1872, e Mary Washburn realizou um estudo descritivo nos anos 1920, mas houve silêncio relativo até Alan Sroufe retomar a questão nos anos 1970. Foi Vasu Reddy, professor da Universidade de Portsmouth na Inglaterra, nos anos 1990 e 2000, quem recolocou o tema com força conceitual, influenciando diretamente Mireault.

Quando Mireault começou a publicar em 2008, havia apenas quatro pesquisadores ativos na área; hoje são dezenas espalhadas pelo mundo. O campo amadureceu, representando uma mudança de perspectiva na psicologia, que historicamente foi moldada pela psicopatologia. Em uma de suas primeiras apresentações, um colega comentou: "Você estuda riso? Eu estudo choro." Ambos riram, resumindo bem essa evolução.

Ilana Pinsky é psicóloga clínica, doutora pela Unifesp, autora de Saúde Emocional: Como Não Pirar em Tempos Instáveis, entre outros livros, e foi consultora da OMS e da OPAS.