O TDAH no centro da explosão de diagnósticos em saúde mental
Nas últimas décadas, a neurociência e a psiquiatria transformaram radicalmente a identificação e tratamento de transtornos mentais. Condições como ansiedade, depressão e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) saíram dos consultórios médicos para ocupar espaços nas redes sociais, ambientes de trabalho e conversas do dia a dia.
Mudanças nos critérios diagnósticos
Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou a nova Classificação Internacional de Doenças (CID-11), implementada a partir de 2022, consolidando a saúde mental como parte essencial da saúde geral. Esse avanço trouxe ganhos inegáveis, mas também um efeito colateral preocupante: a ampliação do acesso ao diagnóstico abriu espaço para avaliações precipitadas e para a medicalização de sintomas que nem sempre configuram um transtorno clínico.
Nesse contexto, o TDAH emergiu como o principal motor da recente explosão de diagnósticos psiquiátricos. Durante muito tempo associado quase exclusivamente a meninos inquietos em idade escolar, o transtorno passou a ser reconhecido também em adolescentes, mulheres e adultos. Atualmente, é uma das condições neuropsiquiátricas mais pesquisadas na internet.
Dados que impressionam
Segundo levantamento citado pela revista Medicina S/A, com base em dados do Google Trends, as buscas pelo termo “TDAH” cresceram impressionantes 576% em 2024 em comparação com cinco anos antes. Os números clínicos acompanham essa visibilidade crescente.
- Nos Estados Unidos, a proporção de adultos que relatam ter recebido diagnóstico saltou de cerca de 4,3% em 2012 para quase 14% em 2023.
- Na Alemanha, informações publicadas pela revista científica Ärzteblatt International indicam que, entre 2015 e 2024, a taxa de novos diagnósticos em adultos atendidos pelo sistema público subiu de 8,6 para 25,7 por 10 mil pessoas — quase o triplo em menos de uma década.
- No Reino Unido, o uso de medicamentos estimulantes cresce, em média, 18% ao ano desde 2019.
- No Brasil, estima-se que cerca de 2 milhões de pessoas convivam com o transtorno, segundo a Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA).
Esse salto é particularmente notável porque não há evidências de um aumento proporcional nos sintomas que definem o TDAH. Estudos internacionais baseados em avaliações padronizadas mostram que a prevalência real do transtorno permanece relativamente estável ao longo do tempo e entre diferentes países: cerca de 5,4% entre crianças e 2,6% entre adultos.
Ampliação dos critérios nos manuais médicos
Um dos fatores centrais por trás desse movimento está nas mudanças nos manuais médicos. Ao longo dos anos, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), principal referência da psiquiatria, ampliou significativamente o alcance do diagnóstico.
- No DSM-IV, de 1994, os sintomas precisavam surgir antes dos sete anos e exigiam pelo menos seis critérios de desatenção e/ou hiperatividade.
- No DSM-5, publicado em 2013, o limite de idade subiu para 12 anos e, no caso de adultos, o número mínimo de sintomas caiu de seis para cinco.
“Quando expandimos os critérios, aumentamos um pouco a prevalência”, explica o psiquiatra Luis Augusto Rohde, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e uma das principais referências mundiais em TDAH, que participou das revisões do manual. Segundo ele, o diagnóstico em saúde mental é, por definição, dimensional — e não binário. “As condições de saúde mental não funcionam como um teste de gravidez, com resultado positivo ou negativo. O ponto de corte é sempre, em alguma medida, arbitrário.”
Mudança no perfil dos pacientes
Também mudou o perfil dos pacientes diagnosticados. De acordo com a ABDA, hoje a proporção de mulheres e homens diagnosticados com TDAH é semelhante. A explicação está, em parte, no fato de que mulheres tendem a buscar avaliação médica com mais frequência na vida adulta, após anos convivendo com sintomas menos associados à hiperatividade e mais à desatenção.
Conscientização e influência das redes sociais
A maior conscientização sobre saúde mental e a redução do estigma levaram mais pessoas a procurar ajuda profissional, movimento intensificado após a pandemia de covid-19. As redes sociais funcionaram como combustível adicional nesse processo.
Vídeos curtos que listam “sinais de TDAH” — como distração, procrastinação e esquecimento — acumulam milhões de visualizações e estimulam o autodiagnóstico. Esse excesso de conteúdo também levanta preocupações sobre o uso inadequado de medicamentos.
Fármacos indicados para o tratamento do TDAH, como estimulantes, passaram a ser utilizados de forma imprópria por estudantes, concurseiros e profissionais em busca de aumento de foco e rendimento.
Riscos e equilíbrio necessário
Especialistas reconhecem que a divulgação de informações pode ajudar pessoas que conviveram por anos com sintomas sem nome a buscar avaliação médica, mas alertam para o risco de diagnósticos superficiais, especialmente em consultas rápidas ou serviços digitais.
Ainda assim, segundo Rohde, o problema central no Brasil está longe de ser o uso abusivo. “Em termos de saúde pública, o que predomina é o subdiagnóstico e o subtratamento”, afirma. “Isso não impede que, em determinados grupos de alta renda ou em ambientes competitivos, haja uso inadequado de medicação, mas essa não é a regra.”
O consenso entre especialistas é claro: o diagnóstico só faz sentido quando há prejuízo funcional evidente — acadêmico, profissional ou social — e após avaliação clínica cuidadosa. “Nem toda criança agitada tem TDAH. Nem todo adulto distraído está doente”, resume o neuropediatra Mauro Muszkat. “O medicamento não corrige abandono emocional, excesso de telas ou problemas pedagógicos.”



