Polilaminina: a substância brasileira que viralizou e promete esperança para lesões medulares
A polilaminina se tornou o centro das atenções nas redes sociais brasileiras nas últimas semanas, gerando debates acalorados, relatos de pacientes em recuperação e uma onda de orgulho pela ciência nacional. O Instagram e o TikTok foram inundados com conteúdo sobre essa substância, mas o que realmente sabemos sobre seu potencial terapêutico?
O que é a polilaminina e como funciona?
A polilaminina é um composto desenvolvido em laboratório a partir da laminina, uma proteína naturalmente produzida pelo corpo humano durante o desenvolvimento embrionário, onde desempenha papel crucial na organização dos tecidos e no crescimento celular. A pesquisadora Tatiana Sampaio liderou estudos utilizando a substância para tratar lesões medulares agudas – aquelas que ocorrem recentemente e resultam em perda de movimentos.
Os resultados iniciais, tanto em animais quanto em um pequeno grupo de humanos, foram promissores, levando a uma parceria com um laboratório nacional e à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início de pesquisas mais amplas. O objetivo central é responder: A polilaminina funciona efetivamente como tratamento para pessoas com lesão medular aguda?
Em entrevista, Tatiana Sampaio foi cautelosa: "O que apresentamos hoje é uma substância com a promessa de se tornar uma medicação, mas há um longo caminho a percorrer. Ainda não é um feito, é uma promessa de tratamento". Ela enfatiza que apenas quando o tratamento estiver registrado e mostrar resultados consistentes em todos os pacientes é que poderá ser considerado uma revolução.
Mecanismo de ação e resultados preliminares
A medula espinhal funciona como uma via de comunicação entre o cérebro e o corpo, transmitindo comandos motores e sensoriais. Quando ocorre uma lesão, essa comunicação é interrompida. A polilaminina, aplicada diretamente no local da lesão durante cirurgia, forma uma estrutura de suporte que age como uma "ponte microscópica", estimulando os nervos a criarem novas rotas e restabelecerem parte dos movimentos.
Um estudo preliminar com oito pacientes mostrou diferentes níveis de recuperação motora, mas é importante destacar:
- Os resultados não passaram por revisão por pares, etapa fundamental para validação científica.
- A amostra pequena e a variedade nas lesões dificultam conclusões definitivas sobre eficácia.
- Não há evidências de que a substância funcione em lesões medulares crônicas (paralisias de longa data).
Tatiana Sampaio resume: "O que estamos vendo agora é um resultado muito estimulante, promissor. Mas, por enquanto, é só uma esperança".
Por que vemos pessoas usando nas redes sociais?
A repercussão do estudo mobilizou pacientes e familiares, levando a dezenas de ações judiciais para acesso à substância via uso compassivo – permitido no Brasil para medicamentos em pesquisa, mediante avaliação da Anvisa. O laboratório Cristália relatou cerca de 40 ações e 19 aplicações realizadas, todas fora de ensaios clínicos formais.
Especialistas alertam que até 30% dos pacientes com lesões agudas podem recuperar algum movimento naturalmente, dependendo do tipo de lesão e resposta individual. Portanto, é prematuro atribuir todas as melhoras à polilaminina. Tatiana Sampaio expressa preocupação: "É uma exposição para o paciente. Como não está dentro de um estudo clínico, não temos responsabilidade por um acompanhamento".
O caminho regulatório e a questão da patente
Para que a polilaminina se torne um medicamento disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), é necessário percorrer várias etapas:
- Ensaios clínicos regulatórios em humanos, começando pela fase 1 (segurança), aprovada pela Anvisa em janeiro, mas ainda aguardando comissão de ética.
- Fases 2 e 3 para avaliar eficácia, doses e efeitos adversos em populações maiores.
- Solicitação de registro sanitário após sucesso nas fases anteriores.
Quanto à patente, Tatiana Sampaio afirmou ter a patente nacional, mas perdeu a internacional devido a cortes de verbas na UFRJ entre 2015 e 2016. O laboratório Cristália, que hoje detém o registro do processo de formulação, informou que a patente nacional expira este ano.
O que dizem especialistas independentes?
Neurocirurgiões e especialistas em estudos clínicos são unânimes em pedir cautela. Jorge Pagura, com 50 anos de experiência em lesões medulares, explica: "A medula não tem neuroplasticidade como o cérebro. Me preocupa a forma como vem sendo divulgado esse estudo, que ainda é frágil". Ele alerta sobre o risco de criar falsas expectativas em pacientes e famílias.
Leonardo Costa, especialista em estudos clínicos, reforça: "Há evidências de que 30% dos pacientes podem recuperar movimentos sem intervenção. A chance de um estudo preliminar funcionar em grupos maiores é de apenas 20%". Ambos concordam que apenas após a conclusão dos estudos clínicos autorizados pela Anvisa será possível uma avaliação mais sólida.
O laboratório Cristália, que investiu R$ 100 milhões na pesquisa, defende que os estudos acadêmicos já demonstram segurança e eficácia, com 75% de evolução nos oito pacientes tratados – taxa superior aos 30% de recuperação natural. No entanto, reconhecem que as aplicações atuais são compassivas e que não há evidências para uso em lesões crônicas.
Enquanto a ciência segue seu curso metódico, a polilaminina permanece como uma promessa esperançosa que precisa ser validada por rigorosos protocolos de pesquisa antes de se tornar realidade terapêutica consolidada.