Príncipe Custódio: a história do líder religioso africano que a Portela levará à Sapucaí
Príncipe Custódio: líder africano que a Portela levará à Sapucaí

Príncipe Custódio: a história do líder religioso africano que a Portela levará à Sapucaí

Quando faleceu em maio de 1935, Osuanlele Okizi Erupê, conhecido no Brasil como Custódio Joaquim de Almeida, foi descrito pelos principais jornais de Porto Alegre como um personagem extraordinário, à frente de seu tempo. Em obituários praticamente idênticos, os veículos informaram: "Morreu nesta capital, com 104 anos, um príncipe africano". O enredo "O mistério do príncipe do Bará – a oração do Negrinho e a ressurreição de sua coroa sob o céu aberto do Rio Grande", que a Portela apresentará na Marquês de Sapucaí neste domingo (15), atravessa o Atlântico, rompe estereótipos sobre o Sul do Brasil e recoloca no centro do debate uma figura pouco conhecida fora dos Pampas.

Um líder religioso entre dois mundos

Apesar do título nobre, Custódio não se encaixava nos padrões de respeitabilidade vigentes no início do século 20. Negro, alto — relatos indicam que ele media cerca de 2 metros de altura —, com passagem pela polícia e origem africana, tornou-se babalorixá e uma das figuras centrais do batuque, a vertente mais antiga das religiões afro-brasileiras no Rio Grande do Sul.

Para parte da elite porto-alegrense da época, Custódio era visto como um personagem exótico, marginal ou até perigoso. Ainda assim, construiu um caminho improvável até o reconhecimento público. Documentos e relatos históricos indicam que ele circulava entre os altos círculos do poder, sendo recebido por políticos influentes do estado nas primeiras décadas da República.

O legado religioso do Príncipe do Bará

A Custódio é atribuída a instalação de ocutás, objetos sagrados ligados aos orixás, em diferentes pontos de Porto Alegre. O mais conhecido é o Bará do Mercado Público, considerado até hoje um dos principais locais sagrados das religiões de matriz africana no Sul do país. Há ainda relatos sobre outros assentamentos, inclusive em áreas próximas ao atual Palácio Piratini, sede do governo gaúcho.

Esse papel religioso fez com que Custódio fosse reconhecido como uma liderança que ajudou a tornar visível uma religiosidade que era praticada de forma escondida, sobretudo nos bairros periféricos, em um contexto de repressão e racismo institucional.

Dados revelam força das religiões afro-brasileiras no RS

O Censo 2022 revelou que o Rio Grande do Sul é o estado com maior proporção de praticantes de religiões afro-brasileiras. Dados mostram que 3,2% da população gaúcha segue alguma religião de matriz africana. No Brasil, essa proporção é de apenas 1%.

Lacunas e controvérsias na trajetória

Mais de 90 anos após sua morte, a trajetória de Príncipe Custódio segue cercada de lacunas e controvérsias. Antropólogos, historiadores, teólogos e jornalistas tentam, há décadas, reconstruir sua vida a partir de registros fragmentados, processos judiciais, notícias de jornal e tradição oral.

Os próprios obituários de 1935 afirmam que Custódio teria chegado a Porto Alegre em 1901. No entanto, essa versão é contestada por pesquisadores. O historiador Rodrigo de Azevedo Weimer, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), encontrou registros de um processo criminal de 1885 envolvendo um homem identificado como Custódio Joaquim de Almeida — o mesmo personagem que décadas depois seria chamado de príncipe.

As divergências sobre origem e título

As divergências se estendem também à sua origem africana e ao título de nobreza. Enquanto parte da tradição o aponta como Príncipe de Ajudá, região da atual costa do Benin, pesquisadores destacam que a comprovação documental dessa linhagem é limitada.

Ainda assim, o consenso acadêmico é que o título expressava uma liderança reconhecida social e religiosamente, mais do que uma formalidade dinástica nos moldes europeus. O endereço na Rua Lopo Gonçalves, no bairro Cidade Baixa, tornou-se um ponto de referência para comunidades negras e praticantes do batuque, consolidando seu papel como figura central na cultura afro-gaúcha.

A Portela no Carnaval 2026

A Portela é a terceira escola a desfilar no domingo (15), com início previsto entre 0h55 e 1h15. O samba-enredo "O Mistério do Príncipe do Bará" promete resgatar essa história pouco conhecida, celebrando o legado de um homem que, apesar das adversidades, deixou marcas profundas na religiosidade e cultura do Rio Grande do Sul.

O enredo da Portela não apenas homenageia uma figura histórica, mas também ilumina a presença africana no Sul do Brasil, frequentemente invisibilizada nos relatos tradicionais. A trajetória de Custódio Joaquim de Almeida representa a resistência cultural e religiosa de comunidades negras em um contexto de exclusão, demonstrando como práticas espirituais ancestrais encontraram formas de florescer mesmo sob pressão social e institucional.