Pernambuco registra 2.745 desaparecimentos em 2025, com média de quase 8 casos por dia
Pernambuco tem 2.745 desaparecidos em 2025, média de 8 por dia

Pernambuco registra 2.745 desaparecimentos em 2025 e figura entre os 10 estados com mais casos no Brasil

De acordo com o painel de indicadores estatísticos de desaparecimentos do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Pernambuco contabilizou 2.745 casos de pessoas desaparecidas no ano de 2025. Este número coloca o estado na nona posição entre as unidades federativas com maior incidência de ocorrências no território nacional. A cifra representa uma média alarmante de quase oito desaparecimentos por dia, revelando uma situação preocupante que afeta centenas de famílias pernambucanas.

Perfil dos desaparecidos e baixo índice de resolução

A maioria esmagadora dos desaparecidos é do sexo masculino, somando 1.674 homens, o que equivale a 61% do total registrado. Entre todos os casos reportados no ano passado, apenas 271 pessoas foram localizadas, evidenciando uma taxa de resolução extremamente baixa e deixando milhares de famílias em estado de permanente angústia e incerteza.

Crianças e adolescentes representam parcela significativa

O recorte etário também chama atenção pela gravidade dos números. Em 2025, 695 crianças e adolescentes entre zero e 17 anos desapareceram em Pernambuco, o que corresponde a uma média de dois casos diários envolvendo menores de idade. Esta estatística revela uma vulnerabilidade específica que exige políticas públicas direcionadas e ações preventivas mais eficazes.

Histórias que ilustram a dor das famílias

Para a cuidadora de idosos Girlaine Rodrigues, ter um filho nas estatísticas de desaparecidos significa conviver diariamente com uma dor profunda e uma angústia constante. Seu filho, Vinícius Rodrigues dos Santos, hoje com 18 anos, desapareceu em fevereiro de 2015 quando tinha apenas 8 anos de idade. Na ocasião, ele brincava em frente à casa da família em São Lourenço da Mata, região metropolitana do Recife.

"Eu disse pra ele, Vinicius, não saia, fique em casa. E ele: 'não, mainha, não vou sair, não'. Quando ele saiu, a gente já sentiu falta dele. Minha filha e eu fomos atrás, a gente andou na rua, mas não encontrou. A gente sempre encontrava ele brincando, correndo, mas nesse dia a gente não conseguiu encontrar, até hoje. Eu queria saber o que aconteceu, isso me machuca, me dói, a cada dia que passa", relata a mãe, emocionada.

Outro caso que exemplifica o sofrimento das famílias é o de Kauã Francinaldo da Silva, desaparecido desde setembro de 2025 quando tinha 13 anos. Sua mãe, a dona de casa Joselane Maria da Silva, conta que o adolescente saiu de casa em Sirinhaém, na Zona da Mata Sul do estado, e nunca mais retornou. Cinco meses após o desaparecimento, a família continua sem respostas.

"Ele saiu da minha casa por volta das 20h40, mais ou menos, para ir para casa da minha mãe, que fica em frente à minha. Por volta das 7h, fui na casa da minha mãe e pedi para chamar ele para ir me ajudar com algumas coisas. Ela disse 'oxe, Kauã não está aqui, não'. É uma dor muito grande para uma mãe não poder ver seu filho pela última vez, nem que seja sem vida", desabafa Joselane.

Banco Nacional de Perfis Genéticos como ferramenta de identificação

Um importante instrumento no combate aos desaparecimentos é o Banco Nacional de Perfis Genéticos, que tem auxiliado na identificação de pessoas desaparecidas em todo o Brasil. O sistema funciona através da coleta de material biológico de pessoas não identificadas e do cruzamento com amostras de familiares que procuram unidades da Polícia Científica.

Segundo a perita criminal Camila Reis, o banco reúne tanto perfis relacionados a mortes violentas, para auxiliar investigações, quanto dados voltados especificamente para a identificação de pessoas desaparecidas e não identificadas.

"Esse é um grande banco de dados que reúne tanto as mortes criminais, com o intuito de auxiliar as investigações, quanto um banco de dados específico para a identificação de pessoas desaparecidas, pessoas não identificadas", explica a especialista.

Desde o início do funcionamento do banco, 726 pessoas foram identificadas em todo o Brasil. Em Pernambuco, foram realizadas 146 identificações através de prova de DNA, colocando o estado entre os que mais registraram reconhecimentos através do sistema.

A perita criminal ressalta ainda que "quanto mais pessoas vêm às unidades de Polícia Científica e coletam seus dados biológicos e são cadastradas nesse banco, maior é a nossa possibilidade de encontrar essas pessoas parecidas ou com identidade desconhecida que estão cadastradas".

Como registrar desaparecimentos e procedimentos policiais

De acordo com a Polícia Civil, o registro de desaparecimento pode ser feito em qualquer delegacia. No Recife, existe o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que conta com a Delegacia de Desaparecidos e Proteção à Pessoa (DDPP), especializada nestes casos. A unidade está localizada no bairro do Cordeiro, na Zona Oeste da capital pernambucana.

A delegada Tereza Nogueira, titular da DDPP, esclarece que não existe prazo mínimo para registrar a ocorrência de desaparecimento: "Não existe um tempo mínimo para o registro de ocorrência. Eu costumo dizer que é a partir da razoabilidade. Se você já tem indícios mínimos de que aquela pessoa desapareceu, se aquela pessoa tem um cotidiano muito metódico, você já fez algumas ligações, e nada da pessoa, vale a pena procurar a delegacia mais próxima".

A delegada enfatiza ainda que as investigações não são encerradas enquanto houver indícios ou novas informações: "Enquanto durarem indícios, enquanto informações chegarem para investigação, essa investigação não se encerra. Recentemente, a gente teve um caso, nós conseguimos prender três suspeitos por um homicídio qualificado de um fato ocorrido há quatro anos. Infelizmente, o corpo, a ossada, dessa vítima foi localizada e a gente pode, enfim, dar algum tipo de alento aquele pai que nunca desistiu dessa investigação".

Distribuição das unidades de coleta em Pernambuco

Além da capital Recife, existem outras nove unidades da Polícia Científica distribuídas pelo estado de Pernambuco para coleta de material genético:

  • Afogados da Ingazeira
  • Arcoverde
  • Caruaru
  • Garanhuns
  • Nazaré da Mata
  • Ouricuri
  • Palmares
  • Petrolina
  • Salgueiro

Estas unidades representam pontos estratégicos para que familiares de desaparecidos possam realizar a coleta de material biológico e aumentar as chances de identificação através do Banco Nacional de Perfis Genéticos.