Motoristas e cobradores das empresas de ônibus Real e Vila Isabel realizaram uma manifestação nas garagens das empresas nesta quinta-feira (15), paralisando totalmente ou parcialmente pelo menos 13 linhas que atendem a Zona Norte, Zona Sul, Sudoeste e região central do Rio de Janeiro. A decisão pelo ato foi tomada em assembleia e marca o início de uma batalha judicial pelos direitos não pagos.
Ação coletiva na Justiça por dívidas trabalhistas
Os rodoviários impactados pela crise nas duas empresas decidiram entrar com uma ação coletiva na Justiça para cobrar indenizações e valores que a Real e a Vila Isabel deixaram de pagar. Segundo o Sindicato dos Rodoviários, os trabalhadores reivindicam o pagamento de benefícios atrasados há meses, incluindo férias, 13º salário, vale-alimentação, verbas rescisórias, FGTS e INSS.
O presidente do sindicato, Sebastião José, afirmou que a situação é fruto da "intransigência" das direções das empresas. Ele detalhou que a Viação Real está sem recolher FGTS e INSS desde abril e, mesmo em recuperação judicial, demitiu mais de 60 funcionários, que agora aguardam suas rescisões sem previsão de pagamento. Trabalhadores ativos também estariam sem perspectiva de receber seus salários.
População sofre com o sucateamento do transporte
Enquanto os rodoviários lutam por seus direitos, a população enfrenta as consequências do colapso no serviço. O Ministério Público abriu um inquérito para apurar as falhas no serviço oferecido pelas empresas. A Real Auto Ônibus e o consórcio Intersul foram chamados para prestar esclarecimentos, e o MP pediu que a Secretaria Municipal de Transportes (SMTR) fiscalize as linhas operadas.
A incerteza com os ônibus não é de hoje. Na última segunda-feira (12), as empresas já haviam reduzido a frota por falta de combustível. Moradores relatam que o problema é crônico. Na Praça Barão de Drummond, em Vila Isabel, a publicitária Márcia Teixeira contou que a linha 439 (Vila Isabel x Leblon) desapareceu completamente após setembro, deixando a região sem uma condução direta para o Jardim Botânico.
"A praça era cheia de ônibus da Vila Isabel. Hoje, isso aqui virou um marasmo", lamentou Mônica Lahmann, presidente da Associação de Moradores de Vila Isabel, Grajaú e Adjacências, questionando a falta de alternativas de transporte na área.
Medidas de contingência e responsabilização
A Prefeitura do Rio, por meio da SMTR, informou que monitora a situação via GPS e aplica cortes no subsídio diário quando as linhas não operam conforme o contrato. Diante das falhas recorrentes, foram adotadas algumas medidas emergenciais:
- Criação da linha especial LECD128 (Terminal Gentileza x Leblon), como alternativa às linhas 112 e 110.
- Criação da linha especial LECD129 (Terminal Alvorada x Central do Brasil), substituindo parcialmente as linhas 309 e 548.
- Ampliação de itinerários: a linha 109 passou a sair do Santo Cristo até o Terminal Gentileza, e a 157 agora opera do Castelo ao Santo Cristo, passando pela Central.
- Reforço de frota em linhas com trajetos semelhantes.
A prefeitura ressaltou que, pelo contrato de concessão, os consórcios Intersul e Transcarioca são obrigados a assumir o serviço em caso de problemas com uma das empresas operadoras. O Rio Ônibus informou que a Real Auto Ônibus está em diálogo com o sindicato, mas as empresas envolvidas não se manifestaram sobre a nova paralisação.
O motorista Luciano Arruda, que não recebeu suas férias, pediu desculpas à população pelo transtorno, mas reforçou: "A culpa não é nossa. Eu amo o que faço, amo conduzir passageiros, mas preciso de condições, de dignidade para levar e trazer vidas com responsabilidade". A crise nas viações Real e Vila Isabel é recorrente, com episódios de paralisação afetando mais de 20 linhas em dezembro do ano passado.