Especialista: Trump foi demovido de atacar Irã; regime perde força
Trump foi demovido de atacar Irã, diz especialista

Em meio a crescentes tensões no Oriente Médio, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, parece ter recuado da possibilidade de um ataque militar direto ao Irã. A análise é do economista e doutor em relações internacionais Igor Lucena, que participou do Conexão Record News nesta quinta-feira, 15 de janeiro de 2026.

Pressão interna nos EUA evita nova frente de guerra

Segundo o especialista, a declaração recente de Trump sobre uma suposta melhora na situação iraniana não reflete a realidade. "Parece muito mais que o presidente Trump foi demovido da ideia de atacar o Irã", afirmou Lucena. Ele revelou que altas figuras do governo americano, incluindo o vice-presidente J.D. Vance, o secretário de Estado Marco Rubio e generais do Pentágono, aconselharam contra uma ação militar.

Para o internacionalista, a fala de Trump serviria como uma forma de justificar o não cumprimento de ameaças anteriores, diante da complexa situação geopolítica. "Eles já têm uma frente na Venezuela, a outra segue em Israel e a questão da Ucrânia se torna cada dia mais complicada", explicou. Abrir um novo conflito no Oriente Médio poderia desestabilizar o preço do petróleo e provocar uma onda de ataques a bases americanas no mundo, criando um problema desnecessário para as forças armadas.

Crise econômica e social pressionam regime iraniano

Lucena foi enfático ao descrever a situação interna do Irã como crítica. A população sofre com a repressão e a falta de modernização, enquanto a economia está em frangalhos. "Todas as classes sociais estão contra o governo", destacou. A moeda nacional, o rial, sofreu uma desvalorização catastrófica. "Hoje um milhão de riais não valem nem um centavo de dólar, é zero", comparou.

Essa crise monetária está ligada não apenas aos protestos recentes, mas a um histórico de sanções internacionais impostas pela Europa e pelos Estados Unidos. O governo, na avaliação do economista, só consegue conter a população "na base da força", pois perdeu capacidade econômica. As exportações de petróleo não são suficientes, e os apoiadores tradicionais, como Rússia e China, enfrentam seus próprios problemas.

Falta de adaptação pós-Primavera Árabe gera instabilidade

Igor Lucena conecta os protestos atuais no Irã a um movimento regional mais amplo. Ele acredita que a raiz da instabilidade está na resistência do regime em se adequar às demandas por modernização que surgiram durante a Primavera Árabe. "É muito claro que as nações que aumentaram a repressão depois da Primavera Árabe são nações que estão caindo em problemas", observou, citando exemplos como Iraque e Síria.

Em contraste, países como Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que promoveram certa abertura e ocidentalização após os primeiros movimentos, se encontram em situação mais estável e próspera. Embora mantenham governos autoritários, concederam mais direitos à população, o que gerou uma aceitação relativa do regime. Essa diferença alimenta a insatisfação dos iranianos, que se questionam por que não podem ter os mesmos benefícios que seus vizinhos.

Para que ocorra uma mudança de regime no Irã, seria necessária uma radicalização popular semelhante à que derrubou Bashar al-Assad na Síria. No entanto, Lucena é pessimista. "Não se vê união nem líderes capazes de unificar o povo", afirmou. O governo iraniano possui uma infraestrutura de controle social muito mais organizada e eficiente do que a síria, incluindo monitoramento da internet, o que torna uma revolta bem-sucedida mais complicada.

Apesar dessa força repressiva, o especialista acredita que o Irã não conseguirá voltar ao status quo anterior, especialmente após a morte de vários de seus líderes. O cenário é de um regime fragilizado, pressionado por dentro e por fora, em um impasse cujo desfecho ainda é incerto, mas cujas tensões continuam a ecoar por todo o Oriente Médio e no tabuleiro da política internacional.