Câmara dos Deputados da Argentina aprova reforma trabalhista de Milei com alterações
Câmara argentina aprova reforma trabalhista de Milei com mudanças

Câmara dos Deputados da Argentina aprova reforma trabalhista de Milei com alterações

A Câmara dos Deputados da Argentina aprovou, com mudanças significativas, a reforma trabalhista proposta pelo governo do presidente Javier Milei. O texto, considerado uma das reformas mais amplas na legislação trabalhista argentina desde a redemocratização, agora precisará voltar ao Senado para nova análise, após a retirada de pontos considerados polêmicos.

Retirada de pontos controversos e retorno ao Senado

O governo argentino foi obrigado a retirar o tópico que reduzia o salário dos trabalhadores em 50% em casos de acidentes fora do ambiente de trabalho, além do artigo que permitia pagar salários em moeda estrangeira ou por carteiras digitais. Essas alterações foram necessárias para garantir a aprovação rápida na Câmara dos Deputados, mas exigem que o projeto retorne ao Senado, onde havia sido aprovado na última quinta-feira.

Segundo o governo, a proposta pretende atualizar regras consideradas rígidas e defasadas, reduzir custos trabalhistas e incentivar a criação de empregos formais, como parte de um pacote de reformas voltadas à estabilização macroeconômica e ao estímulo ao investimento.

Debates acalorados e sessão conturbada

A sessão na Câmara dos Deputados começou às 14h (horário local), após solicitação enviada ao presidente da Casa, Martín Menem, e foi marcada por confusão e troca de provocações no plenário. O chefe do bloco União pela Pátria, Germán Martínez, criticou a condução dos trabalhos e chegou a provocar o presidente da Casa com a frase “Cresça, Sr. Presidente”, além de afirmar que os parlamentares “vão se arrepender” da decisão.

Mais para o fim da noite, por volta das 21h30, a deputada Marcela Mango, do partido União pela Pátria, solicitou uma questão de ordem, que foi negada, para que o projeto de reforma trabalhista retornasse à comissão. Em contra-ataque, Silvana Myriam Giudici pediu uma questão de ordem para que a proposta fosse votada em meia hora, moção que foi aceita.

Principais mudanças previstas na reforma

Entre as alterações que permanecem no texto aprovado pela Câmara dos Deputados, destacam-se:

  • Flexibilização das férias: poderão ser divididas em períodos mínimos de sete dias e negociadas fora do intervalo tradicional.
  • Ampliação da jornada de trabalho: possibilidade de estender a jornada diária de oito para até 12 horas, desde que respeitado o descanso mínimo.
  • Restrições a greves: em setores considerados essenciais, exige-se um mínimo de prestação de serviço entre 50% e 75%, limitando o poder de paralisação dos sindicatos.
  • Ampliação do período de experiência: pode chegar a seis meses, com possibilidade de extensão para oito ou 12 em alguns casos, e indenizações reduzidas.
  • Mudanças na negociação coletiva: permissão para acordos diretos entre empresas e sindicatos locais, em detrimento de convenções nacionais.
  • Alterações em indenizações e demissões: redução no cálculo das indenizações e possibilidade de pagamento parcelado.
  • Combate à informalidade: eliminação de multas por falta de registro trabalhista e criação de mecanismos de regularização, com proibição de contratação de monotributistas em funções formais.

Protestos e contexto político

A reforma foi aprovada pelo Senado na madrugada da última quinta-feira, com 42 votos favoráveis e 30 contrários, após uma sessão marcada pela polarização. No dia anterior, milhares de manifestantes se reuniram nos arredores do Congresso, em Buenos Aires, para protestar contra a proposta, com atos que terminaram em confrontos com a polícia e cerca de 30 detidos.

Críticos da reforma argumentam que as mudanças podem fragilizar as relações trabalhistas, aumentar a insegurança no emprego e enfraquecer os sindicatos, sobretudo entre trabalhadores menos qualificados. O momento é visto como um dos mais decisivos do governo Milei desde a posse, em dezembro de 2023.

Contexto do mercado de trabalho argentino

Dados da Pesquisa Permanente de Domicílios (EPH) do Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec), referentes ao terceiro trimestre de 2025, indicam que a Argentina tinha 13,6 milhões de pessoas ocupadas e cerca de 1 milhão de desempregados, com uma taxa de desocupação de 6,6%. A informalidade alcança cerca de 43% do mercado, e mais de um quarto dos ocupados trabalha mais de 45 horas por semana.

A expectativa do governo é aprovar o texto final da reforma trabalhista até 1º de março, consolidando uma das principais medidas econômicas da administração Milei.