Boulos lidera estratégia de federação PSOL-PT, mas enfrenta forte resistência interna
Consolidado como principal nome do PSOL, Guilherme Boulos foi o deputado federal mais votado de São Paulo em 2022, com mais de 1 milhão de votos, e construiu uma aliança inédita com o PT durante a disputa pela prefeitura de São Paulo em 2024. Após fracassar na campanha municipal e ter desempenho pífio no Congresso, Boulos foi socorrido por Lula, que o levou para a Secretaria-Geral da Presidência da República com a missão de inflamar movimentos sociais no apoio à campanha de reeleição.
Missão delicada: unir PSOL e PT em federação
O foco atual do ex-líder dos sem-teto é uma missão que tem tudo para dar errado: fazer seu partido aprovar uma federação com o PT, parte da estratégia de Lula de unificar a ação da esquerda brasileira. A criação de uma federação, instrumento instituído pela legislação em 2021, amarra os partidos muito mais do que uma aliança eleitoral comum — eles precisam ficar unidos por ao menos quatro anos e apoiar os mesmos candidatos em todo o território nacional.
Em 2022, o PT conseguiu atrair PV e PCdoB para esse arranjo. A ideia de incluir também o PSOL, que já está federado com a Rede, surgiu no petismo. O presidente da sigla, Edinho Silva, avalia que ela ajudaria a criar uma unidade para enfrentar o bolsonarismo e defender com mais ênfase temas prioritários, como o fim da escala de trabalho 6×1.
Divisões profundas dentro do PSOL
A tese atraiu rapidamente nomes expressivos do PSOL, como a deputada Erika Hilton (principal articuladora da proposta trabalhista no Congresso) e a ministra Sonia Guajajara. Em documento público que assinaram e divulgaram na última semana, também elencaram outros motivos para defender a federação, como o difícil desafio de superar a cláusula de barreira, um conjunto de exigências mínimas de votação para ter acesso a fundos eleitorais e a tempo de TV.
Mas há muita gente contrária à ideia dentro da federação PSOL-Rede, a começar por seus dois principais dirigentes: Paula Coradi, presidente do PSOL, e Heloísa Helena, cujo grupo comanda a Rede. Durante a semana, os deputados Sâmia Bomfim, Glauber Braga e Fernanda Melchionna postaram vídeos para dizer não à medida.
A mensagem principal era de que uma federação transformará a sigla em um “puxadinho” do PT, tiraria a independência no Congresso e obrigaria a aceitar alianças com partidos e políticos de centro e direita, algo que será comum com a política pragmática que Lula vai adotar na eleição.
Riscos e desafios da união
Para Mayra Goulart, cientista política que coordenou um estudo sobre as federações, há prós e contras nesse movimento e, às vezes, partidos perdem cadeiras ao se aliarem a uma legenda maior. “No PSOL ainda existe um desafio adicional, o de como manter sua diferenciação crítica do PT estando federado com ele”, diz.
O embate final deve ocorrer no sábado 7, durante reunião do diretório nacional do PSOL. A estimativa é de que 75% dos filiados rejeitem a medida. Deve contribuir para a rejeição o fato de a Rede já ter declarado que não vai seguir os psolistas se a decisão for aliar-se ao PT. “A federação Rede-PSOL se propõe a criar uma alternativa de esquerda, e não uma força que se proponha a hegemonizar a esquerda”, diz Paulo Lamac, presidente da Rede.
Histórico de divisões na esquerda
Nos tempos da ditadura militar, havia uma expressão popular na política de que “a esquerda só se unia na cadeia”. A divisão é histórica — o próprio PT é desde sempre um amontoado de tendências, e o PSOL nasceu de um racha com o petismo já no primeiro governo Lula. Desde então, a relação sempre foi tumultuada.
Após lançar candidatos por quatro eleições presidenciais, o PSOL se uniu a Lula em 2022, após muito bate-boca interno. Quando o petista foi eleito, voltaram a se dividir sobre se deveriam ou não participar do governo. No Congresso, votaram várias vezes contra propostas de Lula, como no caso do arcabouço fiscal.
Boulos sempre foi a ponte mais promissora para unir os dois partidos. Tido como muito próximo a Lula, ele naufragou nas suas duas maiores missões eleitorais até agora: as disputas pela prefeitura de São Paulo em 2020 e 2024. Agora, conduz uma ambiciosa tentativa de unir setores importantes da esquerda. Nesse ambiente conflagrado, o risco, no entanto, é de uma nova derrota.
