MPF entra com ações para suspender obra da Avenida Liberdade em Belém por impactos em comunidades
MPF pede suspensão de obra da Avenida Liberdade em Belém

MPF entra com ações judiciais para suspender obra da Avenida Liberdade em Belém

O Ministério Público Federal (MPF) protocolou duas ações na Justiça Federal com o objetivo de barrar os impactos da construção da Rodovia Liberdade, também conhecida como Avenida Liberdade, sobre comunidades tradicionais na Região Metropolitana de Belém. As ações, protocoladas entre os dias 23 e 26 de março e divulgadas nesta segunda-feira (30), solicitam a suspensão imediata das obras em áreas ocupadas por ribeirinhos e a regularização fundiária de territórios reivindicados por cerca de três comunidades.

Obra de R$ 410 milhões gera conflitos territoriais

A obra, orçada em R$ 410 milhões, atinge áreas historicamente ocupadas por famílias das comunidades Nossa Senhora dos Navegantes, Beira-Rio e Uriboquinha, localizadas entre os municípios de Belém, Ananindeua e Marituba. Uma das ações do MPF pede a anulação de um acordo firmado em 2025 entre o governo do Pará e a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que autorizou a cessão de parte de uma fazenda experimental para a construção da rodovia.

Segundo o MPF, pelo menos 7,36 hectares da área cedida incidem diretamente sobre território tradicional, sem que as comunidades tenham sido consultadas previamente. O órgão afirma que as obras já provocaram desmatamento da área, destruição de milhares de pés de açaí e demolição de moradias. Para o MPF, essa situação configura "esbulho possessório" e ocorreu sem indenização prévia ou avaliação adequada dos impactos ambientais e sociais.

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Regularização fundiária é ponto central das ações

Na segunda ação, o MPF solicita que o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a Embrapa e a União adotem medidas para reconhecer oficialmente cerca de 1,5 mil hectares ocupados pelas comunidades. A proposta é que a área seja transformada em um Projeto de Assentamento Agroextrativista (PAE), modelo voltado especificamente para a proteção de populações tradicionais.

De acordo com o MPF, a ocupação do território remonta às décadas de 1940 e 1950, e as famílias vivem principalmente do manejo de açaí, cultivo de cacau e pesca artesanal. O órgão também aponta que, apesar de estarem em área de proteção ambiental, as comunidades enfrentam falta de serviços básicos essenciais, como água potável, saneamento adequado e energia elétrica.

Impactos na mobilidade das comunidades

Outro ponto levantado pelo MPF é o impacto da rodovia sobre a mobilidade das próprias comunidades tradicionais. O projeto prevê a instalação de barreiras físicas, como muros e grades, ao longo da via. Segundo o MPF, isso pode dividir o território e dificultar significativamente o acesso a áreas de cultivo e coleta, obrigando os moradores a percorrer longas distâncias a pé — mesmo vivendo ao lado da estrada.

O órgão pede, em caráter urgente:

  • Suspensão das obras no trecho que sobrepõe o território tradicional
  • Anulação do acordo de cessão de terras
  • Elaboração de estudos técnicos para delimitação precisa da área
  • Plano concreto para regularização fundiária das comunidades

Protestos anteriores e posicionamento do governo

Os problemas relacionados à obra já vinham sendo denunciados por moradores da região. No último dia 12 de março, um grupo fechou a Alça Viária, em Marituba, em protesto contra alagamentos que, segundo eles, surgiram após intervenções da Avenida Liberdade. Na ocasião, moradores relataram falta de drenagem adequada e dificuldades de circulação, principalmente durante o período de chuvas intensas. Também houve registros de erosão em trechos da obra.

Em posicionamentos anteriores, a Secretaria de Estado de Infraestrutura e Logística (Seinfra) informou que enviou equipes técnicas para avaliar possíveis impactos das obras, como os alagamentos relatados por moradores. O governo do Pará afirma que a Avenida Liberdade é um dos principais projetos de mobilidade da Região Metropolitana e deve beneficiar mais de 2 milhões de pessoas.

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Segundo o estado, a via terá cerca de 14 quilômetros de extensão e vai ligar a Alça Viária à Avenida Perimetral, criando uma nova alternativa de acesso à capital e facilitando a ligação com o Porto de Vila do Conde, em Barcarena. A gestão estadual também destaca que o projeto inclui medidas ambientais, como a instalação de passagens de fauna e preservação de cursos d’água ao longo do trajeto. A entrega da rodovia está prevista para o dia 2 de abril, segundo informações oficiais.

Disputa judicial em andamento

Com as novas ações do MPF, a construção da Rodovia Liberdade passa a ser alvo de uma disputa judicial complexa, envolvendo desenvolvimento urbano, impactos ambientais significativos e direitos fundamentais de comunidades tradicionais. A Justiça Federal ainda deve analisar os pedidos de urgência feitos pelo MPF, enquanto as comunidades aguardam uma solução que respeite seus territórios e modos de vida.