Precarização do trabalho no Brasil: informalidade atinge 57,3% e saúde mental é afetada
O mercado de trabalho brasileiro enfrenta transformações profundas, marcadas por uma crescente precarização e um futuro incerto para milhões de trabalhadores. Segundo levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), quase seis em cada dez trabalhadores, ou 57,3%, afirmam estar difícil ou muito difícil conseguir trabalho no país. Essa realidade contrasta com a queda da taxa de desemprego, que atingiu 5,1% no trimestre encerrado em dezembro de 2025, o menor nível desde 2012, conforme dados do IBGE. No entanto, os números positivos mascaram um cenário de informalidade e deterioração das condições laborais, uma tendência que se reflete globalmente.
Tendência global de precarização e informalidade
De acordo com relatório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) lançado em janeiro de 2026, o desemprego global deve manter-se estável neste ano, mas os avanços rumo ao trabalho digno continuam estagnados. Estima-se que o mercado informal atinja 2,1 bilhões de trabalhadores em 2026, com acesso limitado à proteção social, direitos laborais e segurança no emprego. Aproximadamente 284 milhões de trabalhadores vivem em pobreza extrema, com menos de US$ 3 por dia. No Brasil, a informalidade caiu na primeira década do século 21, subiu após a recessão de 2015-2016 e estabilizou-se em torno de 38-40% dos ocupados desde 2022.
Uma das categorias mais afetadas é a dos trabalhadores de aplicativo, como motoristas e entregadores. Dados da Pnad Contínua divulgados pelo IBGE no final de 2025 mostram que 71,1% desses profissionais estavam em situação de informalidade em 2024, enquanto a taxa entre não plataformizados era de 43,8%. Pesquisa do Cebrap revela que esses trabalhadores são majoritariamente pretos e pardos (68% e 62%) e concentram-se na classe C ou inferior (80% e 75%).
Mudanças no perfil do trabalhador e relação com o trabalho
O sociólogo José Eustáquio Diniz, em entrevista à revista ESG Insights, destaca que a questão central já não é apenas gerar empregos, mas definir que tipo de trabalho, com quais direitos e para qual projeto de país. Ele analisa que temos menos empregos tradicionais, mais contratos temporários, intermitentes e "autônomo dependentes", além da expansão do trabalho por demanda. "A precarização se sofisticou, tornando-se menos visível juridicamente e mais difusa socialmente", afirma Diniz. Esse fenômeno também atinge empregos formais, com mudanças de contratos CLT para modalidades de pessoa jurídica (PJ).
Fillipi Nascimento, doutor em sociologia, observa que não há exatamente uma nova classe trabalhadora, mas sim uma classe sujeita a novos mecanismos de exploração. O perfil do trabalhador mudou, e a relação que ele estabelece com o trabalho também se transformou, refletindo em desafios sociais e emocionais.
Jovens e trabalhadores com mais de 50 anos são os mais prejudicados
A Sondagem do Mercado de Trabalho do Ibre/FGV, divulgada em outubro de 2025, aponta que duas faixas etárias são as mais afetadas pela precarização. Entre os jovens de 18 a 24 anos, 68% relatam dificuldade em conseguir o primeiro emprego. Já entre os trabalhadores com mais de 50 anos, 61% enfrentam rejeição devido à idade. A OIT estima que um em cada cinco jovens em todo o mundo, equivalente a 260 milhões de pessoas, está fora do mercado de trabalho e de programas de educação e formação profissional.
O mercado tornou-se mais exigente, com ofertas limitadas de vagas formais e concentração de oportunidades de baixa remuneração. Isso afeta não apenas pessoas com baixa escolaridade, mas também aquelas com curso técnico e diploma universitário. Levantamento da Geofusion, com dados do MEC e MTE, mostra que entre os 15 cursos com maior número de matriculados no país, apenas 1 em cada 10 graduados consegue ingressar no mercado em cargos compatíveis com a formação.
Impactos na saúde mental e bem-estar dos trabalhadores
O contexto de precarização tem reflexos diretos na saúde mental dos trabalhadores. Em 2024, mais de 472 mil brasileiros precisaram se afastar temporariamente de seus empregos por questões de saúde mental, segundo o Ministério da Previdência Social, representando um aumento de 134% nos afastamentos ao longo dos últimos dois anos. O relatório Estado do Ambiente de Trabalho Global 2025, da Gallup, confirma que o mercado de trabalho global está doente, com níveis recordes de desengajamento, esgotamento mental e solidão.
De acordo com o relatório, 40% dos empregados experimentaram alto nível de estresse no dia anterior à pesquisa, e pouco mais de um quinto relataram raiva extrema (21%) ou tristeza (23%). Esses dados destacam a necessidade de repensar o trabalho, o mercado e as consequências sociais e emocionais das mudanças em curso, que nem sempre são para melhor e não param de acontecer.
Em resumo, a precarização do trabalho no Brasil é um desafio complexo que envolve informalidade, dificuldades para jovens e idosos, e impactos severos na saúde mental. A busca por um mercado mais justo e digno continua urgente, exigindo políticas públicas e debates sociais amplos para enfrentar essas desigualdades.



