IA transforma realidade de freelancers com impactos diretos no trabalho e renda
A ideia de que "a inteligência artificial vai roubar o seu trabalho" nunca pareceu tão próxima da realidade para profissionais autônomos. Empregadores têm utilizado ferramentas como ChatGPT e Gemini para realizar tarefas anteriormente delegadas a outros profissionais, incluindo redação, tradução e criação de imagens. Mesmo quando não são diretamente substituídos, trabalhadores precisam enfrentar uma nova realidade onde essas tecnologias estão cada vez mais presentes no cotidiano profissional.
Um quarto dos empregos mundiais expostos à transformação
Um relatório abrangente da Organização Internacional do Trabalho (OIT), em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisa da Polônia (NASK), divulgado em maio de 2025, revelou dados alarmantes: um em cada quatro empregos em todo o mundo está potencialmente exposto à transformação pela inteligência artificial generativa. Os impactos dessas mudanças, segundo análise das Nações Unidas, são variados e abrangem desde ganhos significativos de produtividade até a perda substancial de postos de trabalho.
Para compreender melhor esse cenário em transformação, foram ouvidos freelancers de diferentes áreas profissionais. Por estarem em contato direto com diversas demandas do mercado, esses profissionais têm sentido profundamente os efeitos dessas transformações tecnológicas. Seus relatos ilustram tanto os desafios quanto as estratégias de adaptação necessárias.
Produtora de conteúdo perde cliente de década para IA
Mariana Del Nero, publicitária de 38 anos com 15 anos de experiência como produtora de conteúdo, especializada em redação de textos para agências de publicidade, viveu um momento decisivo em 2024. Ela perdeu um trabalho de uma cliente que atendia há mais de dez anos para uma inteligência artificial. O serviço consistia em escrever um convite para um evento corporativo de uma empresa.
Mariana relata que avisou que poderia fazer o texto cerca de meia hora após o pedido ser realizado. No entanto, em poucos minutos, a contratante enviou no grupo de WhatsApp — que incluía o cliente da agência e a própria Mariana — um texto completamente pronto. "Percebi imediatamente que tinham feito com IA", afirma a profissional. "Foi nesse momento que compreendi que, para tarefas simples, as inteligências artificiais já estavam me substituindo".
Após esse episódio, ela passou por um período de reflexão profunda sobre os próximos passos da carreira. A conclusão foi que resistir à tecnologia não seria uma opção viável. "A solução foi ampliar meu conhecimento sobre essas ferramentas e me posicionar como a pessoa que fica por trás da IA, utilizando a tecnologia a meu favor", explica Mariana. Desde então, passou a utilizar com maior frequência plataformas como o ChatGPT no dia a dia profissional.
Segundo seu relato, o uso dessas ferramentas reduziu drasticamente o tempo de execução das tarefas. "O que antes eu levava duas horas para realizar, hoje faço em 15 minutos, mantendo a mesma qualidade", destaca. Contudo, essa eficiência não se traduziu em aumento de rendimento. O problema, segundo sua análise, é que a demanda por trabalhos pontuais diminuiu consideravelmente, o que ela acredita estar diretamente ligado ao avanço acelerado da inteligência artificial.
Designer enfrenta desvalorização e redução salarial
"Por que você está cobrando esse valor se eu posso ir no ChatGPT e fazer?". Essa foi a pergunta que Cássio Menezes, designer gráfico de 35 anos com mais de uma década de experiência, ouviu de um cliente em outubro de 2025. Após essa interação, o contratante desistiu completamente do serviço.
Cássio estava cobrando R$ 1.600 para criar toda a identidade visual de uma marca — incluindo paleta de cores, cartão de visita e diversos outros elementos. Segundo sua avaliação, esse valor já representava uma redução significativa: há aproximadamente três anos, ele cobrava em torno de R$ 3 mil pelo mesmo pacote completo de serviços.
"Com essa tecnologia, as pessoas começaram a achar que nosso trabalho é fácil e passaram a desvalorizá-lo cada vez mais. Elas pensam que é simplesmente colocar um prompt e está tudo pronto. Agora, mesmo com os valores drasticamente reduzidos, ainda existem clientes reclamando dos preços", afirma o designer.
De acordo com Cássio, a presença da inteligência artificial também alterou profundamente o perfil das vagas disponíveis na área criativa. Para ele, as empresas passaram a exigir que um único profissional acumule múltiplas funções simultaneamente. "Diariamente eu procuro vagas no LinkedIn, e a maioria oferece remunerações muito baixas enquanto solicita diversas habilidades ao mesmo tempo", relata. "Elas querem alguém que faça tráfego pago, marketing, social media, tudo em uma única contratação — com o objetivo claro de pagar menos. A justificativa apresentada é que a IA realiza essas tarefas de forma rápida e simplificada".
Nesse cenário desafiador, Cássio expressa sentir "cada vez menos prazer em trabalhar e se profissionalizar na área". "Dá um desânimo profundo. Parece que quanto mais eu investir na minha carreira, menos clientes vou conseguir atrair, porque eles desejam pagar valores cada vez menores", desabafa o profissional.
Tradutora vê mudança no perfil de trabalhos
Maria Fernanda, de 34 anos, trabalha como tradutora freelancer há cinco anos. Ela conta que desde o início de 2024 percebeu uma mudança significativa nas ofertas de trabalho disponíveis, causada pelo aumento expressivo do uso da inteligência artificial por parte dos clientes, sejam pessoas físicas ou empresas.
"Atualmente, a maior parte das ofertas de trabalho é para revisão de textos que foram previamente traduzidos por inteligência artificial", explica a profissional. Segundo sua experiência, a remuneração por esse tipo de trabalho é menor do que a tradução completa de um texto do zero. No entanto, isso não impactou negativamente seu faturamento geral, porque o tempo necessário para realizar a revisão é consideravelmente menor, o que possibilita que ela aceite mais trabalhos simultaneamente.
Maria acredita que essas mudanças foram mais acentuadas para tradutores que trabalham com materiais técnicos — como documentos legais e médicos — e conteúdos publicitários, que é sua especialidade. Isso ocorre porque, segundo sua análise, na área literária, a tradução humana completa do texto ainda predomina e mantém seu valor no mercado.
Estratégias para se manter relevante frente às IAs
As ferramentas de inteligência artificial estão transformando radicalmente o mercado de trabalho — e essa tendência deve continuar intensificando-se nos próximos anos. Para se manter relevante nesse cenário em constante evolução, a recomendação é valorizar e investir nos aspectos criativos e exclusivos do trabalho humano, segundo a professora Luciana Morilas, especialista em trabalho da FEA-USP.
"A criatividade genuína não é previsível por algoritmos, é algo intrínseco da natureza humana. A máquina jamais conseguirá ser verdadeiramente criativa", afirma a especialista. Além disso, Luciana destaca que é fundamental não "demonizar" a inteligência artificial e, ao contrário, aprender a implementá-la estrategicamente no dia a dia profissional para não "ficar para trás" no mercado competitivo.
"Existem diversas ferramentas de IA que o profissional pode e deve utilizar a seu favor, seja para transcrever áudios, organizar cronogramas complexos, entre outras atividades que podem ser otimizadas", recomenda a professora. A adaptação consciente e o domínio dessas tecnologias emergentes aparecem como elementos-chave para a sobrevivência profissional nessa nova realidade transformada pela inteligência artificial.



