Filme expõe segregação nos quartos de empregada
O longa-metragem 'Aqui Não Entra Luz', dirigido pela cineasta paulistana Karol Maia, aborda a segregação espacial presente na arquitetura brasileira, especialmente os chamados 'quartos de empregada'. Em cartaz desde a última terça-feira (7), o filme documenta a história de cinco mulheres que trabalham ou trabalharam como empregadas domésticas em diferentes estados do país.
Inspiração pessoal
Uma das personagens é Miriam Mendes, mãe da diretora, que também assina o roteiro. As experiências de Karol Maia acompanhando a mãe no trabalho durante a infância foram a base do projeto. 'Minha mãe não me levava por necessidade, ela me levava porque queria ficar perto de mim', conta a cineasta. O pai era professor de música e dava aulas em casa, na periferia de São Paulo, enquanto a mãe trabalhava para famílias de bairros nobres e também na zona leste.
Trabalho doméstico desvalorizado
Para Karol Maia, o fato de até pessoas pobres ou de classe média baixa contratarem trabalhadoras domésticas revela a má remuneração da profissão no Brasil. 'Se uma pessoa que ganha mal está pagando para alguém trabalhar pra ela, então você também está pagando mal essa pessoa', afirma.
De Minas Gerais, Maria do Rosário Rodrigues de Jesus, conhecida como Rosarinha, compartilha sua trajetória. Levada para uma cidade próxima ao interior com promessas de trabalho e estudo, o acordo nunca foi cumprido. Hoje, casada e com uma filha, ela vive em Belo Horizonte e continua como empregada doméstica, mas com uma rotina diferente. Seu sonho agora é se aposentar e ser dona de casa.
Herança colonial
As pesquisas para o filme começaram em 2017, e Karol Maia buscou fontes no Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia e Maranhão – estados que receberam a maior quantidade de mão de obra escrava. A equipe mapeou Casas Grandes e Senzalas abertas à visitação, notando a falta de conservação das senzalas em comparação com outros espaços. A cineasta denuncia a ausência de projetos públicos para preservação desse período histórico.
Ela observa semelhanças entre a arquitetura colonial e a moderna, como o quarto de empregada, as entradas e o elevador de serviço. Em São Luís, a escada principal era de madeira nobre, enquanto a da área de serviço era de concreto rústico.
Projeto de lei na Câmara
No dia 22 de abril, a Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei Complementar 18/25, de autoria da deputada Denise Pessôa, que proíbe o uso das expressões 'quarto de empregada', 'dependência de empregada' e termos semelhantes em projetos arquitetônicos. A relatora, professora Marcivania, considera a medida uma reparação histórica urgente: 'A abolição dessas nomenclaturas é um passo simbólico e prático para desnaturalizar a cultura do quarto de fundos'.



