Perfil dos ambulantes em SP: maioria trabalha mais de 44 horas e não quer mudar de profissão
Ambulantes em SP: maioria trabalha mais de 44 horas e não quer mudar

Levantamento inédito revela realidade dos ambulantes na capital paulista

Um estudo detalhado realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mapeou o perfil de aproximadamente 12 mil trabalhadores ambulantes que atuam em pontos fixos na cidade de São Paulo. A pesquisa, abrangente e inédita, demonstra que, mesmo enfrentando diversas adversidades, a maioria desses profissionais não tem intenção de abandonar a profissão. O levantamento também expõe jornadas de trabalho extensas e uma renda média significativamente inferior à dos demais trabalhadores da capital paulista.

Rotina marcada por tensão e mobilização rápida

Na Rua da Juta, localizada no bairro do Brás e reconhecida como um dos pontos com maior concentração de vendedores ambulantes, a rotina inicia-se nas primeiras horas da manhã. As calçadas rapidamente ficam repletas de mercadorias, porém a tranquilidade é efêmera. Com a aproximação de fiscais ou policiais, os vendedores recolhem velozmente seus produtos numa tentativa de evitar apreensões. Ambulantes que atuam na região relatam que a mobilização é ágil e coordenada, com um avisando o outro na esperança de salvar os itens que, frequentemente, representam a única fonte de sustento familiar.

Um dos trabalhadores entrevistados descreve que o cotidiano é permeado por uma tensão constante. Segundo ele, as abordagens frequentes e o risco iminente de perder as mercadorias são elementos intrínsecos à realidade de quem comercializa nas ruas da metrópole.

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Violência e falta de autorização são problemas centrais

A pesquisa do Dieese identificou que a violência constitui um dos principais obstáculos enfrentados pela categoria. Os pesquisadores percorreram 70 pontos de comércio de rua na capital entre julho e agosto de 2025. Conforme o levantamento, 24% dos ambulantes declararam já ter sofrido algum tipo de violência, incluindo confisco de mercadorias, agressões verbais ou físicas e até solicitações de propina por parte de agentes públicos.

A maioria desses trabalhadores também atua sem qualquer autorização formal da prefeitura. De acordo com os dados do estudo, 56% operam sem permissão, enquanto 39% possuem algum tipo de autorização. Muitos ambulantes afirmam que a regularização é um processo complexo e demorado, com tentativas de obtenção de licença frequentemente emperradas ou sem avanço significativo.

Perfil diversificado e renda reduzida

O comércio ambulante em São Paulo reúne trabalhadores de diversas origens. Aproximadamente 68% são brasileiros e 32% são imigrantes, majoritariamente provenientes de países da América do Sul. Entre eles está uma vendedora peruana com 25 anos de atuação na região da 25 de Março, que relata que a atividade permitiu sustentar sua família e custear os estudos da filha.

O perfil predominante dos ambulantes na cidade é de homens, pretos ou pardos, com idade média de 40 anos. Contudo, a renda média mensal gira em torno de R$ 3 mil, valor que representa pouco mais da metade da renda média dos trabalhadores da cidade, que ultrapassa os R$ 5 mil. Para 86% deles, o comércio de rua constitui a única fonte de renda.

Permanência na atividade e principais demandas

Apesar das inúmeras dificuldades, muitos ambulantes permanecem na atividade por longos períodos. O estudo revela que 43% trabalham nessa função há mais de 11 anos. E, mesmo diante dos desafios cotidianos, 73% afirmaram que não gostariam de mudar de profissão.

Entre as principais reivindicações da categoria destacam-se a regularização dos pontos de venda, regras mais flexíveis para trabalhar legalmente, o fim das apreensões de mercadorias e melhores condições nas ruas, como a disponibilização de banheiros públicos e o aumento da segurança.

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