WEG inicia nova fase estratégica com foco na eletrificação global e crescimento acelerado
A multinacional brasileira WEG, fundada em 1961 em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, está iniciando um novo ciclo de crescimento que redefine seu modelo de atuação global. Após consolidar-se como uma das maiores fabricantes de motores elétricos do mundo, a empresa agora enfrenta o desafio de acelerar sua expansão sem perder a disciplina operacional que a levou ao topo do setor industrial.
Transição de liderança e novo contexto global
A troca de comando em 2024, com Alberto Kuba assumindo como quarto CEO na história da empresa, simboliza essa transição estratégica. Kuba chegou ao cargo com uma agenda explícita de aceleração do crescimento, herdando uma organização global, verticalizada e financeiramente sólida, mas que opera em um cenário mundial mais complexo do que o enfrentado por seus antecessores.
"O que fizemos com motores, agora queremos fazer com redutores, inversores e sistemas de energia", afirma Kuba, destacando a ambição de expandir o portfólio da empresa. Seu início de mandato coincidiu com uma nova onda de tarifas aplicadas pelos Estados Unidos, cadeias de suprimentos redesenhadas, competição asiática mais agressiva e reagrupamentos geopolíticos que exigem adaptação constante.
A eletrificação como infraestrutura crítica
O novo impulso de crescimento da WEG responde a uma transformação estrutural fundamental: a eletrificação deixou de ser uma tendência para se tornar infraestrutura crítica global. O consumo mundial de energia elétrica, que por décadas cresceu a taxas de 2% a 3% ao ano, agora se aproxima de 4% anualmente, impulsionado por fatores como:
- Digitalização acelerada com data centers e aplicações de inteligência artificial
- Eletrificação de processos industriais
- Transição para matriz energética mais renovável
- Expansão de redes elétricas mais robustas
Essa aceleração na demanda energética pressiona toda a base industrial que sustenta redes, fábricas e cidades, criando oportunidades significativas para empresas como a WEG.
Estratégia organizada em quatro frentes principais
A estratégia da WEG está organizada em quatro frentes principais de atuação:
- Eficiência energética: otimização do consumo e gestão de energia
- Eficiência operacional: automação e digitalização de processos
- Energias renováveis: soluções para energia solar, eólica e outras fontes limpas
- Mobilidade elétrica: infraestrutura de recarga e componentes para veículos
O objetivo é avançar da venda de produtos isolados para sistemas completos, ampliando o valor entregue aos clientes e criando relações mais integradas e recorrentes.
Expansão na Ásia como principal avenida de crescimento
Se o passado recente da WEG foi marcado pela expansão internacional, o presente é definido pela qualidade dessa atuação e pelo avanço em mercados onde ainda há espaço significativo para crescer. A Ásia, especialmente a China, concentra o maior campo industrial do mundo e representa entre 35% e 40% do mercado global para a maioria dos produtos da empresa.
"A Ásia é a principal avenida do novo ciclo", observam analistas, destacando que, enquanto a participação da WEG em motores nos Estados Unidos é próxima de 25%, na China está em torno de apenas 3%, indicando um enorme potencial de expansão.
No entanto, essa expansão combina oportunidade e desafios, incluindo competição local intensa, diferenças culturais na gestão de mão de obra e preocupações com proteção de propriedade intelectual.
Do B2B para o B2C: diversificação de mercado
Historicamente associada ao mercado B2B (business-to-business), a WEG começa a olhar com atenção crescente para o consumidor final. A eletrificação avança também para dentro das residências, com produtos como bombas e pressurizadores, portões automáticos, componentes elétricos prediais e carregadores para veículos elétricos.
"A maioria dos brasileiros não sabe, mas tem muitos produtos da WEG em sua casa", afirma Kuba, destacando que a empresa está se tornando cada vez mais presente na vida do consumidor comum.
Essa expansão tende a seguir o "jeito WEG" de executar: testar no Brasil, ajustar e só então escalar, muitas vezes através de parceiros e canais indiretos, sem montar uma operação pesada de varejo.
Governança sólida e desenvolvimento de talentos
A consistência da WEG tem raízes estruturais profundas, começando pela governança construída pelas três famílias fundadoras cujas iniciais formam o nome da empresa. "Eu gosto de comparar a WEG a uma democracia com três poderes", diz André Mazini, analista do Citi, referindo-se ao sistema de freios e contrapesos estabelecido desde cedo.
A estabilidade no comando — apenas quatro presidentes em mais de seis décadas — reforça a capacidade de executar investimentos de longo prazo, algo raro num ambiente corporativo cada vez mais pressionado por resultados imediatos.
Há também uma engrenagem menos visível, mas igualmente crucial: o desenvolvimento de talentos. A WEG criou um sistema próprio de formação, do nível técnico ao executivo, transformando-o em ferramenta de expansão internacional. Muitos líderes de operações fora do Brasil foram formados internamente e passaram por mobilidade antes de assumir posições estratégicas.
Desafios do novo ciclo
Chegar a esse patamar de sucesso traz desafios próprios. A demanda por produtos da WEG depende do ciclo global de investimentos industriais, e em períodos de desaceleração econômica, empresas tendem a adiar projetos, afetando encomendas de bens de capital. Simultaneamente, a competição asiática pressiona preços e a transição energética acelera o ritmo de inovação.
Para Felipe Monteiro, professor de estratégia na escola de negócios Insead, "o paradoxo do sucesso é que, justamente quando você está bem posicionado, é mais fácil se acomodar". Evitar esse deslizamento exige manter execução disciplinada, gestão cuidadosa de capital e capacidade de adaptação constante.
O novo ciclo da WEG, portanto, não é apenas uma etapa adicional de crescimento internacional, mas uma fase em que escala, cultura corporativa e governança serão testadas simultaneamente, em um ambiente mais competitivo e sensível a turbulências globais. A capacidade de acelerar sem perder disciplina — e de crescer sem diluir o modelo que a sustenta — definirá o alcance desse próximo passo estratégico.



