Como o Banco Central interpreta os dados de comércio e serviços para definir a Selic
BC analisa comércio e serviços para definir política de juros

Banco Central monitora ritmo econômico para decisões sobre juros

Os dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam um cenário econômico misto para o ano de 2025, com implicações diretas sobre a política monetária conduzida pelo Banco Central. O comércio varejista apresentou uma desaceleração significativa, enquanto o setor de serviços manteve crescimento moderado, criando um panorama complexo para os formuladores de política econômica.

Comércio varejista perde força após anos de expansão

O setor varejista brasileiro encerrou 2025 com um crescimento de apenas 1,6%, marcando o nono ano consecutivo no azul, mas com uma perda substancial de ritmo em comparação com 2024, quando o setor havia crescido 4,1%. Em dezembro de 2025, houve uma queda de 0,4% frente a novembro, embora na comparação anual com dezembro de 2024 tenha registrado avanço de 2,3%.

Para João Ferreira, sócio da One Investimentos, essa desaceleração é um reflexo direto da política monetária restritiva implementada pelo Banco Central. "Juros elevados esfriam o crédito, encarecem o parcelamento e fazem o consumidor pensar duas vezes antes de gastar", explica o especialista.

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Expectativa de corte da Selic ganha força

Os dados mais fracos do comércio, combinados com o desempenho moderado dos serviços, reforçam as expectativas do mercado financeiro por um corte da taxa Selic já na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). As projeções indicam uma redução de 15% para algo próximo de 14,5%, numa tentativa estratégica de calibrar a economia sem reacender pressões inflacionárias.

"Os dados mais fracos do comércio e também de serviços reforçam a expectativa de corte da Selic já na próxima reunião", afirma Ferreira, destacando como o Banco Central deve interpretar essas informações para suas decisões.

Impacto do dólar na dinâmica econômica

O câmbio desempenha um papel crucial nessa equação, com efeitos diferenciados sobre comércio e serviços. Um dólar mais baixo ajuda a conter a inflação — que fechou 2025 em 4,26% —, mas simultaneamente estimula as importações, criando desafios para o varejo doméstico.

"Um volume maior de importações tende a diminuir a dinâmica do varejo doméstico", explica Ferreira. Em termos práticos, produtos estrangeiros mais baratos aumentam a concorrência e pressionam as margens do comércio local, exigindo uma análise cuidadosa por parte das autoridades monetárias.

Setor de serviços mantém trajetória de crescimento

O segmento de serviços, que representa aproximadamente 70% da economia brasileira, cresceu 2,8% em 2025. Este setor, fortemente vinculado a pequenos e microempresários, é particularmente sensível às condições de crédito e à renda corrente da população.

"O principal ponto de avaliação do dólar é realmente sobre a inflação", destaca Ferreira. Se o câmbio contribuir para manter os preços sob controle, aumentam as chances de cortes na taxa de juros — movimento que tende a beneficiar especialmente o setor de serviços.

Perspectivas para 2026 em ano eleitoral

Olhando para o futuro, as expectativas indicam que tanto comércio quanto serviços devem acompanhar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), estimado entre 1,8% e 1,9% para 2026. No entanto, trata-se de um ano eleitoral, fator que tradicionalmente introduz volatilidade nos indicadores econômicos e pode gerar estímulos fiscais.

A grande questão que permanece é se a desaceleração observada em 2025 representa apenas um ajuste técnico ou revela uma economia que ainda busca equilíbrio entre consumo, câmbio controlado e juros em trajetória descendente. O Banco Central terá que "enxergar" esses dados com precisão para calibrar sua política monetária nos próximos meses.

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